Suas roças podem ser bem diferentes uma da outra, mas o que une as Mulheres Trabalhadoras Rurais de Belterra, Mojuí dos Campos e Placas é não só a Associação Amabela. O que as une é a convicção que juntas podem mexer céus e terras, ter voz, conseguir respeito, respaldo e dar suporte umas às outras. E claro, sendo mulheres, também cuidam da terra. Um dos avanços com a criação da AMABELA foi trabalhar e vender cada uma sua produção agroecológica. Assim vendem tudo que suas roças dão, todo o tipo de derivados da mandioca e macaxeira, legumes, muitos bem regionais, frutas das mais variadas e locais, plantas aromáticas e medicinais, remédios caseiros e a especialidade de cada uma, que pode ser artesanato, pães ou outros doces e salgados, geleias e licores, o que agrega valor. Desejam uníssonas que os agrotóxicos fiquem longe das suas roças e do seu quintal e com isso apostam na agroecologia. Umas cultivam frondosos SAFs. Tudo que produzem se baseia em princípios ecológicos e sustentáveis, não usam veneno nenhum. Fundada em 2015, a Amabela tornou-se referência na organização das mulheres do campo, promovendo a autonomia financeira, econômica e de cidadã de suas associadas.

Duas gerações, filha e mãe, Mônica de Almeida e dona Irlanda de Almeida unidas pelas mesmas ideais.
Ou como uma das fundadoras, dona Irlanda de Almeida resuma:
“Nós mulheres da Amabela decidimos resistir! Estamos aqui fazendo e contando a história! Estamos aqui para refletir com e sobre as famílias, muitas chefiadas por mulheres, que foram parar nas periferias, sem condições, sem políticas públicas e até mesmo com dificuldade de transporte para escoar a sua produção; inclusive, sem condições e o direito de construir uma casa digna para morar.“
Viva a Amabela, a Amabela que celebra 10 anos de luta e conquistas com uma grande festa em Belterra no dia 17 de maio de 2025.
O que restou da cidade modelo americana no meio da floresta amazônica.

Belterra hoje em dia. As castanheiras, por lei proibida de cortar, contam do passado não muito distante......
Como Pano de fundo a Companhia Ford, a Ditadura Militar e o agronegócio
O fio condutor de todas as conversas é o sofrimento das mulheres que vivem longe das cidades grandes, no campo ou na “colônia” como chamam aqui, é a fé e a convicção que há superação. Todas tocam a vida com muita garra, deixam no caminho casamentos desfeitos, uns sofreram violência doméstica, outros são mães solos, uns não só criaram os próprios filhos, mas também filhos dos outros – uma ou duas gerações atrás se dava muita crianças para criar. Dava-se como se hoje dá um filhote de cachorro.
O pedaço da Amazônia que hoje se chama Belterra, parece que antigamente foi chamado de “Bela Terra”, sempre era conhecido por seu solo fértil, terra preta, indício infalível de sítios arqueológicos indígenas. Tendo acesso direto pelo rio Tapajós e essa terra preta ideal para plantar leiras e leiras de árvores de seringueira, foi cedido pelo governo brasileiro à Companhia Ford que queria produzir borracha para seus veículos aqui. Fordlândia já tinha fracassado e Belterra surgiu como alternativa. Para as plantações, a monocultura imitava as plantações da Malásia, foram derrubadas cerca 2.500 acres da vegetação original e para gerenciar o projeto foi implantada uma cidade modelo à maneira americana. O sonho durou pouco. 1945 a companhia Ford abandonou o projeto amazônico e o governo federal retomou a posse das terras que naquele tempo ainda faziam parte do município de Santarém. Estabeleceu lá em 1958 sob a jurisdição do Ministério da Agricultura um assim chamado “Estabelecimento Rural do Tapajós”, uma unidade agropecuária e florestal.
De um lado a floresta em pé, a FLONA, do outro lado à perder de vista soja ou milho.
Foi nos anos 1970, o país já vivia a Ditadura Militar (1964-1984) que os militares criavam o ambicioso "Plano de Integração Nacional" (PIN). Justificaram a ocupação com a ideia fixa e xenofóbica que a Amazônia pudesse ser conquistada por forças estrangeiras ou movimentos da resistência e cunhavam para isso a expressão: “Ocupar para não entregar”! O plano PIN visava nada menos do que a ocupação e integração da Amazônia - supostamente uma terra vazia!!! O que já tinha acontecido anteriormente tomou forma institucional. Com o slogan “Terra sem gente para gente sem terra” foram trazidos levas e levas de gente primeiramente do Nordeste, depois do Sul do Brasil para cá, uma migração interna gigante que deixou marcas profundas naqueles que já viviam por aí.
Resumindo pode-se dizer que essas terras férteis mudaram inúmeras vezes de dono. Dava-se, conforme o vento soprava, léguas e léguas de terras, se assentavam pessoas e ninguém deles tinha muito mais do que um papel de posse. Outras terras simplesmente foram usurpadas e por aí vai. Como muitas pessoas menos instruídas evitavam conflitos, uns bem violentos, mudavam internamente, fugiam para a cidade. Mais tarde, parte dessas terras, da União, se tornaram o projeto "Tapajós Sustentável", que visava fortalecer as cadeias produtivas madeireiras de base comunitária na Floresta Nacional de Tapajós (Flona Tapajós) e na Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns (Resex Tapajós-Arapiuns). Da mesma época também data as primeiras experiências com turismo de massa, surgiram os primeiros cruzeiros por aí e a Varig construía o hotel Tropical que hoje se chama Barrudada. Como explica Rosival Dias que vivia na pele esses momentos:
“Durante a ditadura, lá onde as populações tradicionais ganhavam o seu sustento, muitas dessas terras foram invadidas, mais perto de estradas ou acessíveis pelo rio melhor. Madeireiras poderosas se instalaram, garimpos, grandes fazendas e até o estado tirava a terra daqueles que sempre tinham vivido lá. Na Flona do Tapajós (Floresta Nacional do Tapajós), por exemplo, o órgão do governo o IBDF (Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal), tentou expulsar a população tradicional com o argumento que as Flonas não podiam ter gente, só bichos e natureza. Os ribeirinhos que moravam lá foram forçados a se organizar e resistir. Tiveram que fazer um pico para demarcar as suas áreas. Houve perseguição, muitas brigas na justiça e até assassinatos de trabalhadores e de trabalhadoras”.
Prédio do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras rurais de Belterra
Os contra-movimentos basicamente foram organizados pela igreja católica e os sindicatos. Aqui se preservou o slogan: “Não
abra mão da sua terra!”
Diretamente impactadas pela violência, a negligência e o abandono no campo, surgiram movimentos bem organizados de oposição. Respaldados por um lado pela igreja, Dom Hélder Câmara criou a "Teologia da Libertação" que colocou a igreja católica ao lado dos mais pobres e oprimidos e denunciava a desigualdade e as injustiças sociais. Do outro lado se fortaleceu o movimento sindical que sofreu forte repressão durante a ditadura militar. A partir de 1978 com a greve dos metalúrgicos do ABC paulista, surgiu um novo sindicalismo que desafiava a autoridade do regime ditorial. Esse movimento levou em Belterra à criação do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Belterra. Uma forma que esse grupo conseguisse alcançar, por exemplo, uma aposentadoria digna.
Como dona Maria Irlanda de Almeida lembra, foi fundado no dia 15 de novembro de 1996 o Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Agricultores e Agricultoras de Belterra – STTR-B. Dois homens que se destacaram nessa luta são Geraldo Pastana, político e sindicalista, ex-deputado estadual pelo estado do Pará e Ranulfo Peloso, liderança do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Santarém.
Rosival Dias contextualiza:
“Durante a Ditadura Militar o governo visava o progresso, a industrialização, o assim chamado “Milagre Econômico”. Apostavam unilateralmente em progresso que agrava alguns problemas já existentes como o endividamento do setor público e o aumento da desigualdade social. As famílias de posseiros, assentados ao longo da Transamazônica e da Santarém-Cuiabá (BR 163), bem como no interior dos municípios e nos territórios indígenas, quilombolas e ribeirinhos foram completamente abandonadas, deixadas à própria sorte. Suas terras foram constantemente invadidas, loteadas, vendidas. O abandono, aliás, só se agravou com a redemocratização. Essa primeiramente trouxe a hiperinflação junto com uma dívida externa estratosférica, mortal para quem já tinha pouco para sobreviver.
Surgem nesse contexto na década de 70 duas lideranças muito conhecidas na região. Um deles, Geraldo Pastana lutou lado a lado dos trabalhadores e das trabalhadoras rurais contra o autoritarismo e a violência causada pela ditadura militar, principalmente nas regiões entre os municípios de Santarém, Mojuí dos Campos e de Belterra. Pastana foi líder sindical e ajudou a tirar o sindicato dos trabalhadores das mãos dos pelegos (aquelas pessoas que comandavam os sindicatos, mas eram favoráveis à ditadura militar), foi deputado federal e estadual pelo Partido dos Trabalhadores e prefeito do município de Belterra. Pastana vive perto de Belterra e ainda continua suas atividades.”
O STTR de Santarém, mesmo durante o período de intervenção Militar, foi considerado um dos sindicatos mais atuantes e com a maior capacidade de mobilização na região. A contribuição das famílias Pastana e Peloso tiveram grande contribuição nesse movimento que se associava também aos movimentos da igreja católica. Santarém figurava entre as cidades com um dos melhores sindicatos de trabalhadores e trabalhadoras rurais. Na base surgiu uma inesperada força feminina que atendia 64 comunidades com delegacias sindicais, as mesmas representadas na sua maioria por mulheres.
Dona Maria Irlanda de Almeida, muito ativa no sindicato, relata sobre seu trabalho que começou logo após a criação do município de Belterra. Dona Irlanda conta como ela, mãe solo com quatro filhos pra criar, se entregou de corpo e alma a esse trabalho que mudou a vida de muita gente. Ela fala:
“Fizemos muita escada para os outros subir."
Nasce a Amabela lado a lado com o agronegôcio
A Amabela, Associação formada por 65 mulheres, 25 de Belterra, persiste. Abrange membros em Belterra, Mojuí dos Campos e Placas. E quem acompanha os movimentos sociais vê que era e ainda é uma luta. Veio enfim a constituição de 1988 que mudou muitas coisas também por aí. Os campesinos amazônicos aprenderam que tinham direitos e também deveres. Chegou a soja, o agronegócio e com este as pesticidas em Belterra e toda a região com terra fértil em abundância. O movimento sindical enfraqueceu. Mas as Amabelas persistiam.
Vestir a camisa do projeto Amabela é se posicionar sem medo!
A grande meta da Amabela era bem pé no chão. Era fortalecer as mulheres e dar-lhes a possibilidade de ganhar o próprio dinheiro. No início da fundação ainda recebeu empoderamento da FASE. Hoje tudo é um pouco diferente. A Amabela ainda fortalece a produção familiar de alimentos, mas rarearam os eventos que faziam acontecer como feiras, todas em forma de puxirum. Hoje, Belterra vive cercado pelo agronegócio que explodiu em toda a região. Houve plantio das produções até mesmo dentro da zona urbana e periurbana de Belterra que sofre todas as consequências, uns ameaçando até a saúde, não só das pessoas. Na região aconteceram outras grandes lutas, uma delas contra a Cargil, junto com a Greenpeace por exemplo.
Amabelas de primeira hora e outras
Dona Neci Ferreira que morou parte da sua vida na Flona, depois em Santarém e hoje tem uma horta urbana no meio da vila de Belterra, cuidada com muito amor, lembra do que a dava suporte e boa vivência durante sua vida bastante sofrida: era toda uma teia que englobava a igreja, a associação de moradores, o clube de mães e as feiras e festivais anuais que organizaram em puxirum e muito trabalho comunitário. Fala como é importante não ficar isolada. Como preza a união, a comunhão e como foram as Amabelas que a deram a primeira oportunidade de renda própria. Hoje na sua velhice o que lhe dá imenso prazer de viver são os filhos e netos, a vizinhança gentil e as outras Amabelas.
“O que eu prezei sempre e hoje me alegra é o aspecto social que a Amabela me proporciona. Se eu ficasse sozinha iria pensar na velhice, nas minhas doenças, na morte. Assim não, tenho sempre alguma alegria.”
Dona Neci planta e colhe numa horta urbana, elas chamam de quintal produtivo, tudo muito caprichado. Lá também mantém uma criação de galinhas. Além disso, faz licores por encomenda e pinta.

A frondosa horta da dona Neci e atrás o galinheiro.

Dona Elisandra, Sandra para os mais íntimos, Rodrigues da Silva, planta de tudo um pouco. Era professora e como ela fala, cansou de trabalhar para os outros. Cuida hoje, os filhos já crescidos, de uma plantação que pode ser chamada de agroflorestal. Lembra que era tudo na mata bruta quando ela e seu marido começaram num terreno grande que era do avô do marido. Limparam e hoje plantam mandioca, macaxeira, arroz e feijão. Cuidam de muitas árvores frutíferas, criam galinhas e porcos. Ela fala que aprendeu muito com os cursos da Amabela, as oficinas e as reuniões onde se troca experiências.


Dona
Sandra planta de tudo um pouco num sistema agroflorestal. Acima ela aprecia seu
campo de arroz e abaixo ela colhe uns tomates maduros.
Dona Edileuza Souza Feitosa é uma Amabela da primeira hora. Mora no bairro de Belterra, que ironia, se chama Revolta... Ela faz todas as feiras agroecológicas, essa de Alter do Chão da foto, sempre aos Sábados de manhã, aquela da UFOPA e do ICMBio, quando chamam. Há quatro anos cultiva dentro de um SAF, um "Sistema Agroflorestal" que ela aprendeu com o antigo diretor da Emater local. Num SAF é literalmente tudo junto e misturado, mas não sem regras. O objetivo é que árvores de maior e menor porte junto com os hortifrutas e também plantas medicinais criem um ambiente onde eles se beneficiam mutuamente. Hoje os SAFTs são tido com uma maneira de produzir mais sustentável e resiliente dentro da agricultura familiar. Parte do ciclo também faz a criação de galinhas e porcos.
Dona Edileuza diz: Visto a camisa da Amabela com força, garra e muito orgulho!
Dona Ilma Paz Azevedo é amiga da dons Edileuza. Juntas elas vendem tudo de bom que vem das suas roças. Famosa pelo seu bolo de macaxeira e os beijous com castanha, esse logo se esgotam, também gosta muito de vir para a feira de Alter. Ela planta tanto no seu quintal quanto numa roça mais distante e, claro, também cria galinhas.

Para terminar a voz está com as Amabelas e da geração futura, a neta da dona Edileusa, uma Amabelinha fiel como ela mesma conta:
E o carimbó da Amabela!
Fontes:
https://livro-reportagem.com.br/a-luz-do-campones-e-de-lamparina/
https://lehmt.org/o-nascimento-da-cut-03-com-ranulfo-peloso/
https://belterra.pa.gov.br/municipio.php





