Fecho os olhos, degusto o cupulate, derretendo devagarinho no céu da boca, revelando, liberando aos poucos
cada um dos seus sabores. Detecto uma acidez agradável, cremosidade, notas inesperadas de fruta. Lembra
chocolate de primeira qualidade, com alto teor de cacau, mas consegue ser ainda mais complexo. Roubo mais
um pedacinho da barrinha linda. Traz em relevo estampada a logomarca da Amabela,
Associação de Mulheres
Trabalhadoras Rurais do Município de Belterra ou do Amazônia 4.0. Devidamente
empacotado em celofane biodegradável,
pronto para consumidor final, ganha uma embalagem
coloridíssima e apetitosa, mostrando tudo o que a Amazônia tem de melhor. Olho
para o teto e me sinto ao mesmo tempo acolhida e inspirada pela cúpula
futurista, uma de três, esticada aqui no meio de campos de soja e milho. Ao
lado há bastante verde um SAF, um Sistema Agroflorestal, bem produtivo. Essas cúpulas, chamadas de laboratórios móveis,
abrigam toda uma estrutura sofisticada. Uma serve para acolher toda a alta
tecnologia, e dela tem muito. No segundo se repassa, aqui pousou uma pequena
faculdade, se ensina e forma pessoas. E a terceira contém um minúsculo
laboratório chocolatier, com fresquinhos 22 graus – tudo que o chocolate não
gosta são temperaturas tropicais. Completamente autossustentáveis, esses
laboratórios móveis fazem parte de um conceito futurista e ecológico de como manter a Amazônia de pé. Dão, ao mesmo tempo, um empurrão forte para
desenvolver sua bioeconomia, diretamente aqui na base. O projeto se chama Laboratório Criativo da Amazônia do Instituto Amazônia 4.0.

Três tendas futuristas,
cada um com uma função específica
Barras de chocolate e
cupulate prontas para serem vendidas
Sabedoria ancestral, preservação
aliada à alta tecnologia para uma nova Bioeconomia
A Amabela se
junta a outra A, A como Amazônia, Amazônia 4.0. E juntas essas fazem a
diferença, não só no Cupulate. Ah, Cupulate é nada mais do que um chocolate
delicioso, feito não da amêndoa do cacau, Theobroma cacao, mas do seu irmão, o cupuaçu, Theobroma
grandiflorum. Amabela, por sua vez, é uma organização de mulheres de
Belterra que produz hortaliças e outros produtos da agricultura familiar. Elas
são bem conhecidas aqui em Alter na nossa feirinha do Sábado e também da feira
semanal da Ufopa em Santarém. A Amazônia 4.0 é a concretização de um sonho
vanguardista e futurístico. Nascido de uma visão inovadora dos irmãos Nobre,
uma família de cientistas renomadíssimos, agora faz diferença lá na base com a
proposta urgente de manter a floresta Amazônica em pé. Saíram dos seus
gabinetes, pensando diferente, arregaçaram as mangas para se lançar a um
desafio.
Uma floresta
como a Amazônia tem muito mais valor, localmente e
para o mundo todo, quando é permitida fazer
o que sabe fazer de melhor. Gerar umidade! Vapores
que viram nuvens, os assim chamados rios voadores. Esses rios voadores fazem
chover lá longe, por exemplo, no triângulo fértil da soja, abastecendo as
regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil. Cortar a floresta Amazônica
influenciará diretamente no clima de toda a América do Sul. Todo o continente
ficará mais quente e muito mais seco.

BR 163 – de um lado
soja e milho a perder de vista, do outro lado a FLONA.
Amazônia
4.0, o número 4.0 se refere à que se chama a Quarta Revolução Industrial, já em
pleno funcionamento, usa tecnologia de ponta junto com inteligência artificial
que permite, por exemplo, que as máquinas aprendam quase sozinhas. Entram novos
conceitos como biometria, automatização, a energia é gerida com placas solares.
Com isso o produto pode ser completamente rastreado, do meio da floresta até o
consumidor. E aqui é o pulo de gato, a resposta dos cientistas. Vislumbraram de
juntar essa tecnologia de ponta com tudo que a Amazônia tem de mais valiosa,
suas matérias primas e seus povos. Essa revolução industrial faz possível
produzir em qualquer lugar, também no meio da floresta.
Alta tecnologia, leve,
móvel, autossuficiente e sustentável
Novos modelos de negócio com a
Bioeconomia
Aproveitar-se
das riquezas da Amazônia significava até muito pouco tempo atrás pura
exploração, deixando muito pouco para quem vive por aí. Quem lucra com suas
riquezas são os atravessadores, as indústrias, quem exporta é quem transforma
num produto final. Isso vale tanto para madeira quanto para amêndoas de cacau. Amazônia 4.0 propõe algo muito
diferente. Se foi até aqui soja e milho ou extrativismo, entrar na floresta
para levar tudo dela pra longe, sem nunca repor o estoque ou pior, simplesmente
desmatá-la, daqui para frente existem alternativas.
Amazônia 4.0 revisa conceitos. Mostra caminhos para mudar esse quadro. Amazônia
4.0 trabalha com a visão de que a Amazônia só ficará em pé, se os seus inúmeros
povos, especialmente aqueles menos visíveis, produtores rurais, indígenas,
ribeirinhos, quilombolas e claro mulheres, tiverem como ganhar o seu sustento, ganhar
de maneira digna. Amazônia 4.0 vai lá na base. Lá onde estão os extrativistas, as mulheres da Amabela, as
ribeirinhas e as ensina com os laboratórios criativos, por exemplo, a fazer chocolates.
Outro
conceito, do momento, que se chama de Bioeconomia. Junto
vem outra palavra chave - esse tal de valor agregado. Ele vem através da
produção sofisticada. Quem produz um produto com alto valor agregado, consegue
mudar de vida. Quem vivia até aqui de extrativismo que pouco ou nada agrega,
agora tem opções. Uma delas é ajudar a manter a floresta em pé. Além disso, se
torna protagonista e ainda consegue aproveitar tudo que já sabe, todas as
tradições dos povos tradicionais. Vão aproveitar os mesmos para produzir
produtos de alto valor agregado sendo preparados para isso com cursos e
ensinamentos. Valor agregado significa, por exemplo, não exportar a madeira, mas o móvel que pode ser
feito dela. Ou significa também, por exemplo, não
exportar a amêndoa do cacau, mas produzir e depois vender o chocolate. Com isso parte do $$$
ficará para a comunidade que planta o cacau ou o cupuaçu. Toda a comunidade sai da dependência de
uma commodity, cujo preço é feito lá fora, que sobe
e desce sem controle deles.
As Amabelas defendem os
seus territórios! O Tuk-tuk é extremamente sofisticado – transporta o chocolate
resfriado!
Academia Amazônia 4.0 - sem deixar pegadas, nem rastro, só conhecimento
Outra chave
para esses laboratórios móveis, um tipo de sala de aula itinerante, é a
sustentabilidade e a maneira inovadora de encurtar caminhos. Feitas de tendas
flexíveis, leves, facilmente instaladas, a faculdade 4.0 faz questão de não
deixar nem pegadas, nem rastro quando vai embora,
brindando o próximo lugar lá longe esquecido no meio da floresta ou da soja.
Batizada de Academia Amazônia 4.0, forma agentes capazes de transformar
não só o seu próprio ambiente, mas também alçar vôos mais longe. A Academia Amazônia 4.0 tem o objetivo de ensinar como as pessoas podem transformar insumos amazônicos
em produtos com altíssimo valor agregado. Alavanca essa bioindústria
com métodos e tecnologias avançadas e potentes, que permitem que os povos locais, eles mesmos, criem alternativas para não precisarem mais desmatar e plantar soja.
A cereja do
bolo é o intuito claro de valorizar conhecimentos ancestrais e tradicionais que
se juntam e aproveitam de produções automatizadas e computadorizadas, já que essa
tecnologia não precisa de mão de obra especializada. Empreender com produtos
não madeireiros, da floresta Amazônia, promete. Impacta, e mostra aos alunos e alunas que são capazes. Podem mudar,
eles/elas mesmos/as, agregar valor a tudo que querem produzir e vender. Recebem
ensinamentos sobre o funcionamento de uma produção, da lógica de mercado e como funcionam todos os elos
necessários de um produto até ele chegar ao consumidor final. Descobrem as
potencialidades da cadeia de valor e por fim
são capazes de inovar eles mesmos. Criam por exemplo novos sabores de
chocolate. No último curso na comunidade Surucuá, era um chocolate que levava aroma de Casca Preciosa, na composição que foi um sucesso.


Máquinas computorizadas facilitam muitas etapas como a torra do cacau
Cacau, chocolate e cupulate, um pouco
de história
Descobertas
recentes levam a acreditar que o cacaueiro, Theobroma
cacao, parente próximo do cupuaçu, seja brasileiro, originário das bacias
dos rios Orenoco e Amazonas, de onde se espalhou pela América
Central e Sul. O cacaueiro é cultivado desde o século XVII no Brasil. Quem lê
Inglês de Souza, escritor de Óbidos, Pará, sabe que no Baixo Amazonas já se
produzia muito cacau. Hoje em dia a Amazônia,
especialmente o estado do Pará, recuperou produção, ultrapassou a Bahia, e já é o maior produtor nacional de
cacau. Em Tomé-Açu e na Transamazônica, por exemplo, em
Medicilândia, cultiva-se cacau de excelente qualidade que ganha prêmios lá
fora. Novamente o cacau e com ele o chocolate está literalmente na boca
do povo. Não só quem acompanha a atual novela Renascer, que mostra toda a revolução no
plantio do cacaueiro que está acontecendo. Integrando o cacaueiro, que cresce no sub-bosque e aprecia a
cobertura vegetal de árvores maiores, quanto mais
diversas melhor, evita a tão temida vassoura de bruxa, um fungo mortal. Além disso, coleta-se sistematicamente cacau nativo e
selvagem nos rios amazônicos, famoso por seus aromas surpreendentes. Seguindo
uma tendência de obter chocolate com terroir.
Dessa
maneira, o cacau vira fonte
de renda para muita gente. Com os preços da amêndoa do cacau a altura, a
plantação de cacau sustentável beneficia toda a Amazônia, gerando emprego,
renda e sustentabilidade. Conforme a
Embrapa, 70% da safra de cacau daqui é cultivada em áreas degradadas principalmente
por agricultores familiares em SAFs, sistemas agroflorestais. Os SAFs otimizam o uso da terra,
conciliam preservação ambiental com a produção de uma grande gama de alimentos
diversos. São perfeitos para restaurar florestas e recuperar áreas degradadas.
Aqui desponta o cupulate, ainda não na boca do povo. Com ele se fecha outro
ciclo. Aproveita-se um resíduo até agora subutilizado por aí. O cupuaçuzeiro,
parente próximo do cacau, é de origem amazônica. Cresce na terra firme numa
árvore baixa que alcança 10 metros de altura. O único problema que impediu sua
utilização até aqui em grande escala na produção de chocolate, é que sua
amêndoa, ao contrário do cacau, é coberta por uma casca bem rígida e dura.


As Amabelas produzindo
para uma feira que fechará o ciclo do seu curso com muita degustação e quem
sabe, já a primeira pesquisa do mercado.
Chocolataria bean-to-bar
Assim as
Amabelas entraram de cabeça numa imersão de 30 dias que alterava entre aulas de gestão, informática,
levantamento e percepção do mercado e claro, fazer chocolate, bean-to-bar, da amêndoa até o produto final,
o balcão onde eu posso comprar todas essas gostosuras. O lugar escolhido para
essa imersão se chama Corpus Christi. Os filhos dos pioneiros que chegaram à
região por volta de 1982, ainda nos últimos três anos de ditadura militar,
vinham de todos os lugares do Brasil, do Paraná e Maranhão. Corpus Christi, uma
curiosidade, já pertencia a Santarém, depois foi incorporada a cidade de
Belterra quando essa se emancipou e hoje faz parte do município de Mojui dos Campos.
Quem chega pela BR 163, um eterno tapete que constantemente sobe e desce, só a
autora achou que a Amazônia era plana...., pode viver duas realidades. De um
lado da BR, a Flona, Floresta Nacional do
Tapajós, do outro sobe e desce, milho e soja, soja e milho a perder
de vista. Junto vem todos os problemas da monocultura dos pesticidas e muito
mais. Selma Ferreira, agricultora e fundadora da Amabela apostou e aposta até
hoje na resistência. Luta junto com muitas outras até hoje contra o desmatamento,
plantando SAFs de onde tiram seu sustento. Os desafios não acabam nunca. A
professora aposentada senhora Lurdinha Evaristo conta que irão se reunir para evitar, se
possível, que os campos ao lado da escola grande,
bela e muito bem ventilada da vila sejam plantados com mais soja. Vão tentar dissuadir o
proprietário que vai arrendar a área. Todos sabem o que aconteceu com as
crianças em Belterra. Todos foram parar no hospital quando pulverizaram os
campos de soja ao lado da escola com agrotóxicos.
É exatamente essa realidade que o Instituto Amazonia 4.0 quer mudar, com os seus laboratórios criativos,
empreendedorismo, inovação e tecnologia, essa tal de bioeconomia. Quem sabe, logo todos nós vamos poder degustar a
nossa barrinha de cupulate, produzida lá em um dos interiores remotos,
transportados nos tuk-tuk com refrigeração, lindamente
embalado. A verdadeira chocolataria bean-to-bar – produzindo desde a amêndoa
até o chocolate final pelas mesmas pessoas, trazendo consigo muito mais do que
um prazer gustativo.
Mais
informações:
https://amazonia4.org/
Amabela https://o-boto.com/blog/amabela-a-historia-de-75-agricultoras-de-belterra-contra-o-veneno-da-soja