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Nas trilhas da resistência: estudantes da UFOPA exploram a diversidade agroflorestal em Belterra

Patrícia Kalil
jun. 8 - 8 min de leitura
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Entre monocultivos de soja e o verde profundo da Floresta Nacional do Tapajós, estudantes de Engenharia Florestal percorrem a região para conhecer agricultores que insistem em cultivar biodiversidade onde o agronegócio avança

Ao longo da BR-163, no caminho entre Santarém e Belterra, o contraste salta aos olhos: de um lado, imensos campos de soja avançam sem pedir licença; do outro, a Floresta Nacional do Tapajós resiste com sua vegetação densa. É nesse cenário de disputa que sobrevivem os quintais agroflorestais — pequenos refúgios de biodiversidade que sustentam as famílias e protegem o solo e a água. Na segunda-feira 2 de junho, estudantes do sétimo período de Engenharia Florestal da UFOPA percorreram essas trilhas durante a “Aula prática - Sistemas agroflorestais em agricultores familiares”. Sob o sol forte, com temperatura que chegou a 31 °C e sem uma gota de chuva para aliviar, eles puderam vivenciar de perto a produção sustentável que alimenta não só a terra, mas também a esperança de quem nela vive.

Os Sistemas Agroflorestais (SAFs) são reconhecidos por sua capacidade de costurar árvores frutíferas, madeireiras e plantas de uso múltiplo em um mesmo tecido de vida. Essa multiplicidade fortalece a resiliência das propriedades rurais, oferece segurança alimentar e cria alternativas de renda. Durante a aula prática, ficou evidente que, mesmo apostando na diversidade, muitos agricultores ainda carregam dúvidas sobre o uso de fertilizantes químicos e a falta de assistência técnica para lidar com pragas e doenças — desafios que rondam o futuro desses sistemas.

A aula foi conduzida pela professora Daniela Pauletto, Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal de Mato Grosso e doutora em Biodiversidade e Biotecnologia. Com sólida experiência em pesquisa na área de Recursos Florestais e passagem pelo Serviço Florestal Brasileiro, Daniela tornou a atividade mais significativa. Com humor e generosidade, ela aproximou os estudantes da realidade vivida pelos agricultores, reforçando a importância de dialogar com quem cultiva, dia após dia, a floresta viva.

As duas primeiras propriedades visitadas, ambas SAFs, estão localizadas na região de São José, conforme registrado no aplicativo Geo Tracker. Uma área que, no passado, poderia ter sido engolida pela Floresta Nacional do Tapajós, mas que, graças à resistência dos moradores, permaneceu viva para o cultivo e o sustento das famílias. Hoje, a paisagem exibe as marcas do avanço do agronegócio: monocultivos, venenos e a redução da biodiversidade. Mas, em meio a esse cenário, ainda há quem insista em manter vivo o pacto entre o homem e a floresta.

Na primeira parada, Seu Taíto nos recebeu na varanda de sua casa simples, de madeira, com o sorriso de quem acolhe, mas também carrega o peso de quem planta sonhos em terreno incerto. Vestia um boné com o logo “D'Gold Tapajós” e contou que o filho trabalha no garimpo. Confessou que espera que, no futuro, os filhos o ajudem a cuidar da propriedade vizinha, pois sozinho já não dá conta de tudo. Sua fala traduzia as contradições da região: enquanto famílias lutam para manter seus SAFs vivos, o garimpo e os monocultivos avançam como rolo compressor, fragmentando a agricultura familiar. Os estudantes percorreram 1,5 km de trilha no meio do SAF, observando cacau, castanha-do-pará, cumaru e pimenta-do-reino, dispostos em consórcios que sustentam o solo e a esperança. Seu Taíto pediu ajuda para lidar com a vassoura-de-bruxa — doença temida pelos agricultores de cacau — e levantou uma dúvida que pairou no ar: seria mesmo necessário usar adubação química (NPK) em um SAF? O questionamento abriu caminho para discutir o dilema entre os insumos industriais e as práticas de adubação tradicional.

Seu Diogo e companheira no centro em foto com turma da UFOPA

Na segunda propriedade, de Seu Diogo, na Comunidade Nova Ebron, a floresta densa nos envolveu em uma sinfonia de castanheiras e outras espécies nativas. O cultivo diversificado, com cacau, cupuaçu e muruci, dava o tom da resistência. Seu Diogo também mostrou preocupação com a adubação, repetindo a mesma dúvida sobre o uso de NPK em meio à abundância do SAF. Ali, os estudantes caminharam cerca de 2 km pelo perímetro da propriedade, enfrentando uma trilha cheia de obstáculos que, em conjunto, superaram com entusiasmo. Tiraram fotos ao lado da castanheira e da Samaumeira, árvores que, mesmo dentro de um SAF, impõem sua majestade. É difícil entender quem não perceba a realeza dessas espécies que ainda reinam na Amazônia.

Turma tira foto com uma castanheira na propriedade dos seu Diogo

Em seguida, o ônibus parou na estrada e dali seguimos a pé para conhecer uma das maiores áreas de plantio de mogno africano da região, administrada por investidores que hoje residem no Paraná. Com mais de 97 hectares, a propriedade é voltada para a produção madeireira, com linhas retas de mogno e cumaru organizadas em espaçamentos planejados que facilitam o manejo. A grandiosidade da área, destinada à produção de madeira, contrastava com a diversidade viva que os SAFs nos apresentaram até então.

Seu Chicão mostra seu impressionante SAF

Nossa quarta parada foi na propriedade do agricultor Chico, o Chicão, na Comunidade São Pedro. Lá, a vida se espalhava em 41 espécies cultivadas com esmero, em meio a uma floresta que parecia saída dos sonhos de Ernst Götsch. Pupunha, andiroba, pequiá, abacate, cedro, banana: um verdadeiro mosaico de vida. Chicão aplicava casca de mandioca, esterco de galinha e outras biomassas para formar uma grossa serrapilheira, alimentando o solo e a esperança de manter a floresta de pé — prática que dispensa insumos químicos e reforça a autossuficiência. Mesmo com toda essa abundância, Chicão nos confidenciou que colocou a propriedade à venda, pela bagatela de 1,5 milhão de reais, porque sente o peso dos anos e já não dá conta de tudo sozinho.

Laura, uma arara-vermelha-grande

A quinta e última parada foi na propriedade do seu Francisco, em Belterra, a poucos metros da do Chicão, mas do outro lado da BR-163. Na entrada, Laura, uma arara-vermelha domesticada e de avançada idade, nos recebeu entoando seu canto. Um pinscher barulhento também nos saudou, desconfiado. Ali, percorremos a área onde antes se cultivava pimenta-do-reino, agora em processo de substituição, além de macaxeira e espécies madeireiras. Com 14,4 hectares, o terreno é dividido em mais de 100 parcelas, pensadas para equilibrar a produção de pimenta-do-reino e andiroba com o cuidado ambiental. Seu Francisco contou aos estudantes que vive na área há mais de duas décadas e que, com o tempo, aprendeu a respeitar cada canto da terra. O manejo detalhado das culturas garante sustentabilidade e renda, mostrando que a sabedoria acumulada faz toda a diferença para a agricultura familiar na Amazônia.

A aula prática foi muito mais do que um exercício acadêmico: foi um mergulho na realidade de quem insiste em não se render à monocultura e em manter vivo o pacto com a floresta. Para os estudantes, ficou a lição de que o futuro da Amazônia (e de quem nela vive) depende de escolhas conscientes sobre o que plantar e como cultivar.

- Texto e fotos: Patrícia Kalil
Grupo: Patrícia, Gilmar, Manoel e Fernando.

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