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Ato contra as dragagens do Movimento Indígena do Baixo Tapajós

Ato contra as dragagens do Movimento Indígena do Baixo Tapajós
Susan Gerber-Barata
jan. 29 - 8 min de leitura
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Ritual indígena na praia do CAT em Alter do Chão incluia dança e manifestações e falas fortes contra os Decretos do Governo Federal. 

O cabo de guerra é dos grandes, um debate ideológico interminável, e coloca, especialmente para Alter do Chão que vive do turismo, muita em jogo. Interesses grandes entram em colisão. Tudo começou com um decreto federal. Com o argumento de reduzir custos logísticos e aumentar a competitividade do agronegócio e da indústria brasileira, diminuindo o transporte rodoviário e as emissões de CO2, o Governo Federal estuda com o Decreto nº 12.600, de 28 de agosto de 2025, o mesmo incluiu as hidrovias dos rios Madeira, Tocantins e Tapajós no Programa Nacional de Desestatização (PND), de entregar a concessão de trechos desses rios à iniciativa privada. Visa dessa maneira modernizar a infraestrutura, reduzir custos logísticos ao escoar commodities.

Vídeo e voz Paulo Barreto, Alter do Chão - Depois de um ritual indígena com participação de todas as etnias indígenas do Baixo Tapajós seguia uma barqueata em prol do Rio Tapajós e contra as dragagens do mesmo rio. O Governo Federal anunciou o lançamento de um edital na véspera de Natal de 2025.

A favor dessa intenção do Governo fala que os transportes hidroviárias e ferrovias são dos modos mais sustentáveis de transporte. A tendência de liberar o estado de ter que gerenciar grandes empreendimentos é uma tendência mundial. A telefonia, por exemplo, só decolou no Brasil depois de ter sido privatizada. Importante é ter as agências regulatórias que funcionam bem e regularizam e fiscalizam de verdade. 

O ritual indígena evocou que para os povos indígenas as águas dos rios são sagradas.

Povos originários questionando Ferrogrão e dragagens 

Mas ambientalistas, comunidades tradicionais e o movimento indígena do Baixo Tapajós em todo, diretamente atingido devido aos impactos diretos nas suas vidas, sem mencionar as consequências para o turismo na região, optaram pela luta. Alegam, uma vez a mais, em todos esses projetos gigantes a falta de consulta prévia lhes garantida por lei. Se o cabo já estava esticado com o projeto do Ferrogrão, tudo explodiu quando o Governo Federal anunciou, na véspera de Natal, em 23 de dezembro de 2025, o lançamento de um edital de licitação para contratar empresa especializada na execução de serviços de dragagem de manutenção do rio Tapajós. A atividade é prevista para os próximos cinco anos na hidrovia, nos trechos entre os municípios de Santarém e Itaituba. Parece que algumas dragagens já estão acontecendo, sem os devidos estudos ambientais e o impacto direto na vida ribeirinha.

Tocar a areia, e com isso simbolicamente a terra de onde vem tudo e pra onde tudo vai fazia, parte do ritual

Os movimentos indígenas do Baixo Tapajós em Santarém exercitam sua resistência sociocultural contra a pressão do agronegócio e em favor da demarcação das suas terras. Os grupos incluem Borari, Tupinambá e Arapiun e se articulam pelo Conselho Indígena Tapajós Arapiuns (CITA) e sua luta é em favor do seu território, defende a educação diferenciada e a valorização da ancestralidade e a luta contra o apagamento identitário.


Povos originários e ribeirinhos historicamente entre os perdedores 

Parte da dor de cotovelo vem do fato que os decretos vêm de um governo que se diz da esquerda, mas parece ter uma mancha cega nos olhos quando se trata de direitos de povos originários e proteção do bioma Amazônia. Enfim é o mesmo governo que num passado recente planejou grandes hidroelétricas no Alto Tapajós. Uma delas é a UHE (Usina Hidroelétrica) Chacorão, que se concluída inundaria 18,7 mil hectares da Terra Indígena Munduruku. No mesmo sentido, a UHE São Luiz do Tapajós, se construída, inundaria as zonas rurais dos municípios de Itaituba e Trairão, ambos aí, ao lado. Sem mencionar a recém autorização para que a Petrobras faça perfurações na Bacia da Foz do Amazonas, um dos blocos da Margem Equatorial (que se estende da costa do Rio Grande do Norte à do Amapá). É fato que o Tapajós possui a maior concentração de garimpeiros em toda Amazônia brasileira e os problemas com o mercúrio ninguém mais tem coragem de negar. No micro, Alter viveu a recém privatização da estatal Cosanpa, ainda com consequências incertas para a vila. A mesma vila ainda lembra muito bem o que aconteceu com o último Plano Diretor que os vereadores, na surdinha, aprovaram exatamente o oposto que a comunidade queria. Vale lembrar o embargo da obra que seria feita no território da antiga Escola da Floresta e, coincidência, no mesmo dia o MPF ajuizou uma ação para demolição de uma mansão erguida por assim dizer quase dentro do Lago Verde em plena Área de Preservação Ambiental. 

Dona Urbana, benzedeira, benzeu todo mundo com uma porção generosa de cheiro cheiroso.


Nós contra eles

Por outro lado, observa-se também uma grande desunião da comunidade de Alter do Chão. Infelizmente as participações nas audiências públicas, nem sejam mencionadas as audiências em Alter em respeito, por exemplo, do plano Plurianual ou eleição de conselho comunitário, sempre são esvaziadas. A grande maioria dos habitantes não participa ativamente em reuniões e eleições, Alter nem conseguiu eleger um vereador e os movimentos indígenas normalmente infelizmente pregam o mesmo "nós contra eles" que tanto criticam no lado oposto. Cada um cozinha sua própria sopa porque que ainda não enxergaram que Alter só pode ganhar se todos se juntam.

Parte das associações da vila, especialmente aqueles que dependem diretamente do turismo, se juntaram, reforçando o movimento.

Foi lindo ver que isso aconteceu no 28 de janeiro de 2026 onde parte das associações, movimentos sociais e universidades se juntaram e se solidarizaram com o movimento indígena em Alter do Chão. Esse cabo de guerra só pode ser ganho com contrapropostas bem elaboradas que permitem que todos se sentam à mesa para negociar e abaixam o discurso. A necessidade de uma fiscalização rigorosa é crucial, especialmente em setores de monopólio como água, energia, infraestrutura e preservação ambiental. Qualquer intervenção nos rios exigirá estudo de impacto e licenciamento ambiental. Judicializar infelizmente não resolve como o caso do esgotamento da Cosanpa mostra claramente. Pior só a corrupção, ao qual tanto o setor público quanto o privado são suscetíveis. Na concessão de privatização, tanto os movimentos indígenas quanto os ribeirinhos têm de exigir a contrapartida das concessionárias, dinheiro para saúde, educação e proteção do meio ambiente, crucial para sua sobrevivência.

ou como o blogueiro local Nelson Vinencci fala:

Por que nunca vem (as contrapartidas)? Simples, antes das concessões serem concretizadas ocorrem as audiências públicas, sabe quantos comparecem numa audiência pública??? Uma puqueca de gente, metade paga pelas empresas que estão querendo a concessão apresentando proposta e concordando com a privatização, e uma pequena parcela da sociedade abestada espiando os acordos serem fechados - O povo não está nem aí para essas coisas, depois quando são enganados eles reclamam kkkkk aí é ralado!!!  


Preparando para a barqueata.

Um longo e lindo cortejo de barcos, todos com faixas pedindo revogação do decreto e da dragagem toma rumo a Ilha do Amor.

Vídeo e fala Paulo Barreto - Barqueata de quem vive das águas do rio Tapajós, dos movimentos indígenas do Baixo Tapajós e da comunidade de Alter do Chão em prol da preservação do mesmo, contra decretos do Governo Federal que favorece o escoamento do agronegócio, o transporte de soja, milho e do ouro do garimpo.


Fontes

https://www.wwf.org.br/?85081/Garimpo-hidreletricas-e-agropecuaria-estudo-lista-ameacas-aos-povos-tradicionais-do-Tapajos

https://amazoniareal.com.br/dragagem-ameaca-o-rio-tapajos-no-para/

https://g1.globo.com/pa/para/noticia/2026/01/29/protesto-indigena-contra-dragagem-de-rio-bloqueia-acesso-a-empresa-do-agronegocio-pelo-7o-dia-no-pa.ghtml

https://uruatapera.com/ocupacao-da-cargill-contra-hidrovia-e-dragagem-do-rio-tapajos-permanece/

https://www.mpf.mp.br/pa/sala-de-imprensa/noticias-pa/mpf-ajuiza-acao-para-demolicao-de-casa-construida-em-area-de-preservacao-permanente-em-alter-do-chao-pa



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