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Entrelaçando heranças ou Como um acari-bodó reescreve a história amazônica

Entrelaçando heranças ou 
Como um acari-bodó reescreve a história amazônica

O Boto entrevista a arqueóloga, pesquisadora e professora da UFOPA Gabriela Prestes Carneiro

Susan Gerber-Barata, texto e parte das fotos

                Acari-bodó e tamoatá, peixes cascudos, fotografados na feira do peixe,                                                                                           Santarém

Muitos os acham feios, escorregadios, desengonçados, com uma aparência assustadora e os querem longe do seu prato. Mas para a pesquisadora e professora, a arqueóloga Gabriela Prestes Carneiro os seus ossos e espinhas a ajudam literalmente reescrever a história da Amazônia. Ela pesquisa e identifica os vestígios deixados por povos muito antigos, os primeiros moradores da Amazônia. Nos pratos deixados por eles, ela encontra a sua matéria-prima. Uma matéria-prima que ela faz falar. Ao contrário que se acreditou até aqui, esses povos não se alimentavam principalmente de caça não, o prato predileto deles eram peixes, uns até mantidos em tanques como uma das suas pesquisas recentes no sítio arqueológico Llanos the Mojos na Bolivia amazônica mostra. Dessa maneira ela identifica os ossos da enguia do lodo (chamado de muçum), a pirambóia, a cobra d´água e os cascudos, uma família grande de peixes, na Amazônia chamados de tamoatá e acarí-bodó. Analisando os seus restos achados em sítios arqueológicos na Amazônia, Gabriela chega a conclusões surpreendentes sobre a forte ligação e a importância histórica dos peixes na alimentação das populações amazônicas. A sua pesquisa permite, paralelamente às teorias revolucionárias da terra preta, comprovar - o que a ciência até aqui negou, desqualificou ou desacreditou por falta de provas críveis – de que a Amazônia pré-cabraliana foi habitada por muitos tribos e gentes com complexos sistemas sociais que tinham sim fontes de alimentos suficientes, simplesmente comendo peixe. 

"Caiu para terra o mito de uma Amazônia paradisíaca, intocada, vazia! Escreve-se hoje e agora um capítulo completamente novo da história da Amazônia"

O Boto

O fim do mito do paraíso intocado

Caiu para terra o mito de uma Amazônia paradisíaca, intocada, vazia! Revés inesperado - escreve-se hoje e agora um capítulo completamente novo da história da Amazônia. Mesmo persistindo nas cabeças, o mito da Amazônia desabitada e vazia foi construído durante o século 18 com a chegada dos primeiros naturalistas a Amazônia. Encontraram na Amazônia colonizada, como se imagina hoje, muitas populações indígenas já dizimadas. Algumas reduzidas por exemplo pelas doenças trazidas pelos colonizadores, outras provavelmente vítimas da escravatura e fatores além, ainda desconhecidos. Métodos e conhecimentos atuais comprova-se o que já foi descrito, mas desacreditado. Um dos primeiros invasores na Amazônia, o navegador espanhol Vicente Yañez Pinzón por exemplo descreve, igual a muitos outros depois dele, no seu diário de bordo, que ele encontrou na beira do Amazonas “aldeias” gigantes, vastamente povoados, aglomeradas, muito bem estruturadas e controlados por chefes poderosos locais. Descrições até pouco tempo atrás simplesmente deixadas de lado, carimbadas de fantasias, delírios. Mas a história está evoluindo com passos gigantes e evidências novas impressionantes.

Gabriela Prestes Carneiro vai nos colocando a parte dessa nova, velha história. A sua trajetória na arqueologia começou com duas caixas cheias de ossinhos. Era mais ou menos como alguém tivesse catado piracuí e teria guardado cuidadosamente todos os ossinhos numa caixa. Os dela eram ossinhos bem valiosos, escavados de terras pretas que agora necessitavam de identificação. Vestígios que, uma vez identificados, podem contar como e do que viviam aquelas pessoas que os tinham deixado para trás. Aconteceu que a própria Gabriela tinha expectativas que não batiam com a realidade. Esbarrou no mito que o subconsciente que muitos nós compartilha - do mito de um índio caçador. De tribos, que se alimentavam das suas caças. Gabriela se cercou de literatura necessária a respeito, esperava de teria que identificar ossos de muitos mamíferos e aves. Mas o conteúdo das caixas se revelou bem distinto. Pelo espanto de todos, ela descobriu que os indígenas que tinham degustados aqueles menus, deixaram para a posteridade 90% de espinhas de peixes! Foi aí que ela começou de especializar-se num campo novo, o campo da da zooarqueologia, nada mais do que o estudo dos restos de animais vindos de sítios arqueológicos, no caso dela, de ossos e outros restos de comida pré-cabralianos.

O Boto

Santarém e sua história

Gabriela, você é paulista, estudou na Universidade  de São Paulo (USP), fez mestrado e doutorado na França, no Muséum National d'Histoire Naturelle e hoje você é pesquisadora, professora e coordenadora do curso de Arqueologia da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), a jovem universidade federal em Santarém. Antes de falar do seu trabalho, gostaria de você me ajudasse de situar a pesquisa arqueológica e histórica aqui em Santarém, no Pará e na Amazônia.

                    Maloca construída perto de Alter do Chão para as filmagens do filme                                                                                                     Tainá

                          Santarém e região onde guarda muitas testemunhas da história                                      recente da região como a Matriz, árvores de borracha e caixa d´água                              deixado por Henry Ford. A calçada, elaborada com paralelepípedos                                 gigantes, veio como peso nos porões dos navios vindos do além-mar                             à Belém.

Como a história está constantemente reescrita, reavaliada – Garbiela, onde se encaixa o seu trabalho? Santarém, Alter do Chão são lugares importantes para sua pesquisa?

Gabriela Prestes Carneiro

Primeiramente gostaria de enfatizar que venho de uma família simples, sempre estudei com bolsas. Antes a arqueologia no Brasil era majoritariamente feita por pessoas da elite, mas hoje acredito muito na democratização dessa prática. O que me levou a arqueologia foi a minha bisavó que era indígena. Desde muito cedo me incomodava que na escola tínhamos que estudar a imigração italiana, a história da Europa e não ouvia palavra nenhuma sobre a história dela e das populações indígenas, que tiveram sua história intencionalmente apagada ao longo de séculos no nosso país. Acho que acabei indo estudar Arqueologia para conhecer a mim mesma e uma parte da nossa história. 

A região de Santarém e Alter do Chão, que estão nessa confluência dos rios Amazonas e Tapajós, desempenham um papel importantíssimo na história da região amazônica e da América do Sul como um todo. Embora muitos pesquisadores tenham vindo e realizado pesquisas arqueológicas na região, ainda estamos em estágios iniciais na construção de conhecimento aqui na região e na divulgação das pesquisas que são feitas na academia. É preciso de maneira urgente pensarmos na extroversão desse conhecimento que está sendo produzido e que ele ultrapasse os muros da universidade. E há também um grande número de sítios a serem estudados, isso explica a importância de termos o curso aqui na região. 

"Santarém foi erguida em cima de uma outra cidade indígena muito mais antiga"

Em 2015 o pesquisador Eduardo Góes Neves publicou sobre história da Amazônia antes da chegada dos colonizadores vista a partir do olhar da Arqueologia. Ele afirma, a partir dos  vestígios achados aqui, que Santarém foi erguida em cima de uma outra cidade indígena muito mais antiga do que os 358 anos que a história oficial, colonial (A Santarém colonial foi fundada em 22 de junho 1661, com isso tido como supostamente uma das mais antigas cidades da região!). Acha-se hoje que a cidade pré-colonial deve ter sido ocupada três quilômetros da beira do rio para dentro e se conectava, antes da chegada dos Europeus, por estradas a outros assentamentos como Alter do Chão e Belterra. Neves afirma que as terras pretas produzidas pelas populações indígenas que ocuparam a região datam de pelo menos 2.500 anos atrás.  Há ainda muito a ser estudado nessa região. Achamos também exemplos de tanques pré-coloniais  na região de Belterra que foram pouquíssimo estudados.  Ainda que não se saiba a função desses tanques (piscicultura, currais de tartaruga, armazenamento de água), esses tanques também aparecem em outras regiões da Amazônia pré-colonial na Venezuela, na Bolívia e na Ilha doMarajóAs dimensões dos tanques podem variar de 5 até impressionantes 30 metros.

O Boto

Primeiras nações

 Falando de primeiros habitantes – no Canadá se estabeleceu recentemente o termo de “First Nations” para os primeiros habitantes, aliás muito mal tratados pelos quais que chegaram depois. Como você vê a história dos povos que habitavam as terras quentes e úmidas que hoje a gente chama de Amazônia? Tem nos sermões do Padre Vieira uma referência a muitas nações que ele encontrou aqui que ele os comparou no seu estilo inconfundível a torre de Babel bíblica já que falavam tantas línguas diferentes.

"São muitas questões ainda a serem respondidas e a Arqueologia é uma das ferramentas para se conhecer o passado."

Gabriela Prestes Carneiro

Essa diversidade de línguas a qual você se refere é reflexo da diversidade de povos e culturas que habitaram no passado e habitam, hoje, a Amazônia. Essa diversidade também perceptível no registro arqueológico que pode ser percebida nos diferentes lugares habitados, no jeito de construir casas, no jeito de caçar, de pescar, de plantar, de fazer roça, essas são algumas das questões que nos inspiram a estudar. São muitas questões ainda a serem respondidas e a Arqueologia é uma das ferramentas para se conhecer o passado. É uma disciplina de trabalho em equipe, ninguém faz arqueologia sozinho e  é também uma disciplina multidisciplinar. Uma mistura cuidadosa de estudar e identificar os vestígios escavados da terra e também recorrer ao estudo de cartas e manuscritos históricos. É muito importante também trazer para o debate quem está fazendo arqueologia hoje e para quem. Uma vez aceita a ideia de que a Amazônia paradisíaca, intocada e vazia, só existe nas cabeças, na mídia, essa ideia ainda traz consequências graves. É uma grande oportunidade na UFOPA termos um crescente número de estudantes-pesquisadores indígenas, ribeirinhos, quilombolas pesquisando, estudando a história de populações que ao longo de séculos foram inviabilizadas.

Pesquisando a Amazônia

                                                            Museu Goeldi, Belém      

O Boto

Gabriela, o fato que a Amazônia estuda a si mesma é relativamente novo. Foi no auge da borracha que o político visionário Lauro Sodré entre os anos 1892-1897 instituía o museu Goeldi. Foi um marco para o Brasil, o atestando uma autoconfiança completamente nova, se livrando definitivamente da era colonial. Junto com o museu surgiu uma importante estação de pesquisa que substituiu um comércio florescente de espécimes de animais exóticos enviados para os museus de ciência e gabinetes de curiosidades da metade do mundo, uma estação de pesquisa local e um museu que permite à sociedade local explorar sua rica biodiversidade em si e no local.

                    Sitio arqueológico – recorte de terra escavada Foto: Heiko Prümers.

Até o fim do século passado existia ou até predominava a figura do “pesquisador de gabinete”. Quem foi ao campo foram encarregados, mateiros, empregados. Hoje a pesquisa é mais democrática. Encontrei você uma vez com a pele ardendo de uma insolação feia que você contraiu numa das suas viagens aos campo. Viajou horas e horas a fio numa rabeta. Porque é importante se submeter a uma vida sem ar-condicionado?

              Sítio arqueológico Llanos the Mojos na Bolívia durante a estação das                                                chuvas (©  Foto: Gabriela Prestes Carneiro).                Sítio arqueológico Llanos the Mojos na Bolívia durante a estação seca                                                        (© Foto: Gabriela Prestes Carneiro). 

              Parte dos poços com sedimentos acumulados. Foto: Heiko Prümers

Gabriela Prestes Carneiro

Quando vamos ao campo, sujamos mesmo nossas mãos, com muito orgulho. As fotos acima mostram um sítio arqueológico da minha última pesquisa na Bolívia. Lá achamos sistemas sofisticados de manejo de água e tanques que provavelmente foram usados para a criação de peixes. É em sítios assim somos nós mesmos que escavamos, carregamos, peneiramos. E levamos depois para o laboratório na universidade para começar a remontar o grande quebra-cabeça de cacos cerâmicos, pedaços de ossos, estilhas de pedra. São horas e horas que estamos debruçados para identificar e analisar esses vestígios.

O Boto

E o futuro?

O já no início citado pesquisador e pensador da Arqueologia Amazônica Eduardo Goes Neves escreve 2015 em conjunto com os seu colaboradores no seu grande artigo “The domestication of Amazonia before Europeuan conquest” - A domesticação da Amazônia antes da conquista européia, anunciando que mudaram as paradigmas! O artigo, resumido em tradução bem livre, afirma: A ideia de uma Amazônia domesticada, moldada por uma diversidade de processos sociais, culturais e históricos situa a mesma lado a lado com sítios parecidos no restante do mundo. E os autores vão além. Afirmam que as populações descendentes têm direitos explícitos de compartilhar essa história, compartilhar como parceiros ativos. São eles que fornecem uma visão complexo e diferente como foi possível que seres humanos se adaptaram às mudanças, desafios e oportunidades não só no passado, mas também no futuro. A sua experiência e sabedoria serão de grande valor para encaramos o nosso futuro, o futuro da Amazônia. Gabriela, conta um pouco da sua “tripla” realidade. Vejo o seu engajamento de empoderar as pessoas. Conta um pouco das suas três funções de professora/empoderadora e pesquisadora.

"Aprendo tanto, tanto, tanto quanto ensino com os os estudantes e vejo meu trabalho de professora como mediadora, encorajadora e sou muito grata para isso."

Gabriela Prestes Carneiro

Essa mudança de paradigma é realidade. Estamos vivendo a diariamente. Estamos vivendo e lutando diariamente por uma universidade pública, gratuita e de qualidade aqui no interior da Amazônia. Acreditamos em uma universidade que deve ser inclusiva e que construa conhecimento a partir das experiências que a interculturalidade nos proporciona. Entregar o canudo para estudantes que muitas vezes são os primeiros da sua família a terem passado pela universidade é uma experiência transformadora para nós e devemos diariamente lutar diariamente para manter as políticas de permanência dos alunos na universidade. Enquanto professores temos também o compromisso em rever e reconstruir nossos métodos de ensino a partir dessas experiências. Aprendo tanto, tanto, tanto quanto ensino com os os estudantes e vejo meu trabalho de professora como mediadora, encorajadora e sou muito grata para isso. Faz parte da trajetória UFOPA de se construir como universidade no seu papel de integrar, empoderar.

 

"Temos que nos policiar para evitar que olhemos para a Amazônia com uma ideia ingênua, simplista. A Amazônia é arqueologicamente ainda muito pouco conhecida."

O boto

Como Eduardo Goes Neves diz numa entrevista: Temos que nos policiar para evitar que olhemos para a Amazônia com uma ideia ingênua, simplista. A Amazônia é arqueologicamente ainda muito pouco conhecida. Mas estamos avançando.

Devorando os peixes pré-cabralianos

Sua aparência pré-diluviana não espanta todos. Os peixes que os povos comiam antes da colonização pelos portugueses como o acarí-bodó, tamoatá,  tambaqui, surubim, tucunaré, a pescada acham-se até hoje na feira em Santarém – fresquíssimos e também já posto na grelha, para logo podem ser devorados. Os outros, bacupedra, cujuba e outros escondem por baixo das suas carapaças e placas ósseas, fileiras impressionantes de espinhos ferozes ao longo dos flancos e no dorso, carnes suculentas com pouco espinhas, muito apreciados pelos locais, mas raramente oferecidos para os não iniciados. Somente o mussum (a enguia do lodo) ou a piramboia (peixe pulmonado)  , os dois lembrando demais cobras, estão desaparecidos das feiras.

O menu do indígena pré-cabraliano

Gostaria de terminar com um imaginado banquete indígena. Dando o devido valor ao nosso passado, o nosso presente, o próximo peixe que estamos comendo, poderia ser um delicioso tamoatá – aprecia o amargor delicioso do seu fígado, ou um pré-diluviano acarí-bodo, os dois fresquíssimos do trapiche em Santarém! Vamos nos livrando, juntos de tantos prés: pré-cabraliano, pré-conceito, pré-concebido, pré-posto, pré-judicado e pré-julgado! Só a tartaruga, muito querida na mesa dos indígenas, vamos poupar! Bom apetite!

Um banquete que poderia ser pré-cabraliano. Os povos indígenas, as primeiras nações e donos da Amazônia comiam muito peixe com preferência para pirarucu e aruanã, cascudos e de vez em quando um quelônio. A Piracaia, só a grelha de geladeira descaracteriza, aconteceu na Escola da Floresta.

Fontes inspiradoras e leituras adicionais

Eduardo Goes Neves https://revistapesquisa.fapesp.br/2018/09/04/eduardo-goes-neves/

https://tvcultura.com.br/videos/32704_historia-historia-antiga-do-brasil-eduardo-goes-neves.html

https://jornal.usp.br/ciencias/amazonia-alterada/

“The domestication of Amazonia before European conquest”. https://royalsocietypublishing.org/doi/full/10.1098/rspb.2015.0813

Livros

O ladrão no fim do mundo

https://www.saraiva.com.br/o-ladrao-no-fim-do-mundo-borracha-poder-e-as-sementes-do-imperio-3653765.html

Fordlândia

https://www.saraiva.com.br/fordlandia-ascensao-e-queda-da-cidade-esquecida-de-henry-ford-na-selva-3058815.html?pac_id=136793&gclid=CjwKCAjw7O_pBRA3EiwA_lmtfiUtC26ENUvqxCmY-rI1Ap_Izg-lmPt8-f43IE1wDThoNbOUWZqMDBoC5Z0QAvD_BwE

 

 

 

O BOTO - Alter do Chão
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