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Amabela, a história de 75 agricultoras de Belterra contra o veneno da soja

Amabela, a história de 75 agricultoras de Belterra contra o veneno da soja

Em região dominada pela soja e agronegócio, 75 mulheres trabalhadoras rurais aliam demandas produtivas e agroecológicas às pautas feministas e criam a Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais do Município de Belterra (Amabela) 

POR BOB BARBOSA, via Brasil de Fato

Edição: Camila Rodrigues da Silva

Belterra de muitos contrastes

Quem chega a Belterra, município de 17 mil habitantes no oeste do Pará, logo percebe que se trata de um lugar com muitos contrastes. Metade do seu território faz parte da Floresta Nacional (Flona) do Tapajós, uma Unidade de Conservação (UC), com 25 comunidades tradicionais, onde vivem 5 mil pessoas, entre indígenas e ribeirinhos. Na outra metade do município, o que domina a paisagem são as lavouras de soja. O ar que se respira ali vem sendo constantemente afetado pelas pulverizações aéreas de agrotóxicos. No meio desse cenário, está o pequeno e bucólico centro de Belterra.

Uma inusitada sequência de casas tipicamente norte-americanas, sem muros ou cercas, compõem a principal rua da cidade. As casas, assim como hidrantes e caixas d’água de metal espalhadas pela cidade, foram construídas pelo empreendimento estadunidense que se instalou na região para explorar látex, na década de 1930.

Essa diversidade se reflete também no perfil das agricultoras dos sete distritos do município de Belterra.

"É uma delícia trabalhar com cada mulher, com cada quintal, com as filha delas, com as pequenas, com as maiores. Nós somos um grande conjunto de variedades de cores, de raças, de tudo. Tem as indígenas, as negras, as brancas”, enumera Selma.

"Quintais produtivos"

Nesses "quintais produtivos", como elas chamam os vicejantes espaços que ficam no fundo das suas casas, elas praticam os princípios da agroecologia.  Mas nem sempre foi assim. Maria Irlanda lembra que, antes, não conhecia a defesa pelo meio ambiente.

"Hoje, por exemplo, eu sou contra a queimada, contra o agrotóxico. Eu não tinha esse entendimento, mas, a partir do momento em que comecei a participar dos movimentos sociais, comecei a defender o meio ambiente".

Isso se reflete em suas práticas, que incluem produzir o adubo natural e plantar a roça sem queima:

"Para mim, a agroecologia é de fundamental importância para o nosso trabalho de agricultora familiar. Eu produzo o adubo natural, aquele adubo que a gente faz nos nossos quintais, e depois coloco nos canteiros, nas plantas, na horta.”

E as formigas, que na Amazônia reinam soberanas? Lindalva dá a dica:

“Para espantar a saúva das nossa roças, nós colocamos água, álcool e saúva em infusão por sete dias. Depois, distribuímos num litro com mais água e colocamos [o líquido] no sauveiro. Elas vão embora, abandonam a casa. Elas são iguais aos seres humanos: não comem a própria carne. Então, elas vão embora e, assim, deixam as nossas plantas livres”, explica.

Foto: Bob Barbosa/Brasil de Fato

Assim como Maria Irlanda e Lindalva, a agricultora Sandra da Silva conta que, depois que entrou para a Amabela, também mudou a percepção sobre o seu trabalho:

“Eu nasci em uma família de agricultores. A gente ajudava os pais em casa, mas eu não gostava, na verdade. Eu sempre gostei de criar animais, apesar de eu não gostar muito de trabalhar em roça. Gostava de criar galinhas, essas coisas. Aí foi que nós começamos a plantar mandioca, macaxeira, e aí eu já passei a gostar. Por mais que a gente não venda, pode servir de alimento. Sempre tem alguém que precisa. Às vezes vão lá em casa comprar macaxeira e eu vendo. Outros vão pedir; aí eu dou", conta.

Vou pegando, vou plantando

O projeto dos pintos e a criação de galinha caipira integrada à horticultura é outra atividade da Amabela. Nele, cada uma das 21 mulheres que o compõe recebe 50 pintinhos para dar o ponta pé inicial na criação das galinhas caipiras.

Sandra, que mora e cultiva seu lote próximo da área urbana, está entre as “amabelas” que criam galinhas:

“Como eu gosto de criar galinha, achei muito interessante essa história de criar pintinhos. Eu e meu marido aumentamos o galinheiro, fizemos todo o esquema onde ficam os pintinhos. Acho tão bonito quando eles estão pequeninhos… Mas vão crescer e [a criação] vai ser rentável.”

A criação de galinhas e patos já era uma prática muito comum entre os trabalhadores e trabalhadoras rurais de Belterra, mas o surgimento da Amabela propiciou novas parcerias e capacitações, como ressalta Maria Irlanda de Almeida:

“É uma oportunidade de termos a capacitação pelo veterinário da Adepará [Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Pará], que é nosso parceiro também, assim como a Emater (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Pará) e a Fase, que contribuiu muito com a gente. Sozinhas a gente não vai a lugar nenhum, mas com as parcerias a gente vai longe”, comemorou Maria.

Comércio de produtos agroecológicos empodera mulheres no interior do Pará

A venda de frutas, legumes e outros significa também a possibilidade de viajar, conhecer pessoas e ampliar horizontes.

“Aqui no centro, a minha área é pequena: um terreno de 15 metros de frente por 100 metros de fundo. Eu desenvolvo nessa propriedade vários plantios. Tudo que eu vou pegando, vou plantando. Eu tenho maracujá, cupu [é o mesmo que cupuaçu], açaí, pupunha, banana, enfim, uma variedade de frutas no meu quintal, além da criação de galinhas. Lá no lote do interior, a gente planta arroz, milho, banana, macaxeira, maniva, a produção de mandioca né. Lá eu tiro também cupu e café. São poucas coisas que eu consumo do comércio. A minha produção primeiramente é para a minha mesa, depois para a do vizinho. Primeiro para a minha alimentação, O excedente a gente tira para vender, para comprar algo que a gente precisa.”

Maria Irlanda de Almeida, 56 anos, que é da comunidade de Tauari, na Flona Tapajós, tem um lote de 100 hectares no interior de Belterra, para os lados da BR-163. Ela também tem uma pequena propriedade na área urbana e faz parte da Amabela, a Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais do Município de Belterra, no interior do Pará.

Um dos desafios das trabalhadoras rurais da Amabela, desde o início, é dar vazão ao excedente da produção, garantindo a comercialização do que elas produzem.

A agricultora Selma Ferreira, avalia que "a maioria das nossas mulheres trabalha dentro da cidade de Belterra e a ideia dos quintais produtivos são voltados para elas, que são rurais e urbanas ao mesmo tempo. Elas plantam dentro dos seus quintais, fazem a divisão, o canteiro, plantam frutas, fazem o galinheiro, de tudo um pouco. De dentro desse quintal produtivo elas tiram o seu próprio alimento."

Mas, segundo Selma, elas também doam, trocam com as vizinhas e vendem para arrecadar um pouco de renda para a família. Assim, as mulheres levam os produtos para comercialização nas feiras e vendem também em suas casas.

"Hoje a gente tem um local, o 'Cantinho da Amabela', que fica no Centro Turístico de Belterra, ao lado da prefeitura. Lá, a gente vende nossos artesanatos, nossas plantas, nossas frutas, nossas sementes, nosso alimento, nossos sabores.”

Todas as quintas, por exemplo, elas se deslocam 51 quilômetros até Santarém para participar da Feira da Agricultura Familiar da Ufopa (Universidade Federal do Oeste do Pará), onde se expõe, além dos produtos da Amabela, também a produção agrícola e extrativista, in natura e beneficiada, de Santarém e Mojuí dos Campos.

“Para a feira na Ufopa a gente leva de tudo: biscoito, licor, galinha caipira, ovo, beiju, pé de moleque, bolo, tudo que a gente consegue fazer na agricultura familiar. O que a gente produz a gente leva. Para a feira vamos com um grupo de oito mulheres da Amabela. Saímos daqui de Belterra às 5h da manhã numa van e chegamos em Santarém às 6h30 da manhã. Quando chegamos lá a gente põe nossas coisas num carrinho de mão e empurra até a Ufopa para serem comercializadas. Essa é a parte mais difícil”, diz Lindalva Castro.

Maria Irlanda reforça que “através da Amabela a gente já teve várias oportunidades em relação a venda, de expor a nossa produção em vários lugares. Aqui no CAT (Centro de Atendimento ao Turista), por exemplo, nós temos essa oportunidade dada pela prefeitura de Belterra. A gente veio para esse espaço e trouxemos a nossa produção. Com a Amabela, também, a gente participa dos cursos, dos treinamentos, das capacitações que surgem”.

Para Mazé, “a diferença que a Amabela faz é a oportunidade que eu tive, de sair para expor meus produtos noutro canto. Antes eu não tinha para onde correr, expor meus produtos, agora a gente tem, já fomos até para Alter do Chão para expor.”

Sandra da Silva, a agricultora que voltou a gostar de agricultura após fazer parte da Associação, ressalta a importância das capacitações.

“Já fiz alguns cursos pela Amabela: plantas medicinais, manejo de galinhas caipiras, como a gente deve plantar as hortaliças, de sandálias de borracha, achei muito bom e ainda tem outros que eu estou esperando para a gente melhorar mais nossa capacidade de crescer.”

Com apoio da Casa Familiar Rural, a Amabela realiza também a exposição “Sementes, Sabores e Saberes”, em que as agricultoras compartilham sementes crioulas, divulgando a importância de se trabalhar com elas. Outro apoio importante vem da prefeitura, que cede o espaço do Centro de Atendimento ao Turista, para que elas tenham um local permanente para a venda dos produtos.

Mas por que ter uma associação só de mulheres agricultoras?

Acompanhando a Amabela desde a sua concepção, Sara Pereira, educadora popular da Fase Amazônia, recorda que “nos programas de formação com elas, a gente percebeu – e elas também – que existem muitas demandas são específicas das mulheres e que, pela dimensão do sindicato, elas acabam não sendo contempladas. Porque a associação de mulheres agricultoras não discute apenas o aspecto produtivo, que é importante e fundamental, mas trata de questões do feminismo, sobre qual a importância de se organizar enquanto mulheres, das pautas que são específicas delas, das questões relacionadas ao acesso à saúde, aos direitos previdenciários. E também as questões relacionadas aos relacionamentos, não só relacionamento familiar com os filhos, mas também com o companheiro, com o esposo.

Selma confirma essa avaliação, ao lembrar que nas famílias tem muita resistência, por exemplo, dos homens.

"Há maridos que compreendem e até ajudam a associação, mas tem outros que privam elas. A Amabela veio para que essas mulheres tenham autonomia. E os homens não estavam acostumados a isso, não tinham esse costume. A mulher deles era para ficar só dentro de casa, lavar louça, limpar a casa, cuidar de filhos. Cama, mesa e banho. E hoje, não. Hoje as mulheres saem da porta para fora, e essa é a maior dificuldade. Tem muitas que ainda não tem essa força de enfrentar. Os filhos homens também reclamam muito: ‘a mamãe não para mais em casa, isso não está certo, papai, tem que fazer a mamãe ficar dentro de casa, mesmo’. Então isso cria uma dificuldade muito grande para as mulheres.”

Sandra concorda:

“Para mim, a Amabela representa a nossa liberdade, a gente poder fazer aquilo que a gente acha que deve fazer, porque ainda tem muitas mulheres presas naquilo que só diz respeito ao marido.”

Nesse sentido, Sara salienta que “quando elas se organizaram na Amabela, perceberam que podiam ir para além do aspecto produtivo". Isso porque a associação é uma ferramenta onde elas se solidarizam umas com as outras, "porque elas compartilham as histórias e uma ajuda a outra, não só na produção, mas com relação aos problemas familiares, no cotidiano, na luta”.

As reuniões da associação proporcionam também um ambiente de reflexões e questionamentos. Selma conta que “a gente senta dentro da roda de conversas e tem umas que não querem contar o que está acontecendo.

"'Ah, a fulana hoje não apareceu no nosso encontro, o que está acontecendo?'. Aí, aquela que sabe já conta, e nós vamos tentando resolver. A gente não tem um estudo ou a capacidade de fazer com se quebre algumas barreiras, mas muita coisa a gente consegue resolver dentro da roda de conversa".

Como afirma Sara, “a Amabela é muito mais do que uma ferramenta do ponto de vista produtivo. É uma ferramenta de libertação para essas mulheres, na busca pela sua autonomia, pelo seu empoderamento, pela sua participação política na sociedade”. Ou como diz Selma, ao falar das companheiras da Amabela:

“Quando eu lembro os olhinhos, os sorrisos, a alegria de cada uma em poder mostrar que sabem fazer… Só de elas dizerem ‘eu sei’, ‘eu posso’, ‘hoje eu consigo’… É maravilhoso!”

---- ESTA REPORTAGEM ESTÁ CONCORRENDO AO 13º TROFÉU MULHER IMPRENSA. Se gostou da leitura, vote e apoie as reportagens na Amazônia Legal: https://goo.gl/1iSM7b

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