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[RESENHA CRÍTICA] O encontro de Sebastião Tapajós e Gonzaga Blantez

[RESENHA CRÍTICA] O encontro de Sebastião Tapajós e Gonzaga Blantez

Por Eduardo Serique

Samba, choro, bolero, bossa nova, baião, milonga, partido alto, xote, carimbó, lundu, guitarrada: a mistura certa de um bolo cuja cereja é o próprio bolo. Assim é o trabalho inaugural da parceria Sebastião Tapajós/Gonzaga Blantez: um CD sem carro-chefe, uma coletânea de dez músicas onde não existe a melhor, porque todas são da mesma e mais alta qualidade. O Encontro Amazônico não é apenas o encontro de dois artistas: é o encontro dos dois rios que ambos trazem no embornal: o Tapajós, com suas águas cristalinas e seu alvíssimo leito de areia e o caudaloso Amazonas, com seus fertilíssimos campos de várzea onde ainda que nada se plante tudo dá. Gonzaga e Sebastião são naturais de Alenquer, cidade que nos deu Benedicto Monteiro, um dos grandes nomes da literatura deste setentrião brasileiro.

Sebastião, descendo o Amazonas, chega a Santarém e se encanta com as belezas do Tapajós; pede-lhe o nome por empréstimo e, acolhedor e generoso, o Tapajós o dá de bom grado. Levado para o Rio de Janeiro por Billy Blanco, parceiro e amigo, conhece Baden Powell, que o encaminha para a Europa. Daí Sebastião corre o mundo, ganha fama. Seu disco solo Guitarra Criola fatura o prêmio de Melhor Disco do Ano, na Alemanha, em 1982 e é aclamado na Itália e na Suíça. Acompanha os mais renomados músicos de sua época: Astor Piazzolla, Paquhito de Rivera, Cacho Tirao, Sivuca, Hermeto Pascoal. Faz releituras de Sorongo, Villa-lobos, Radamés, Guerra-Peixe, Albéniz, merecendo sempre o reconhecimento do público e da crítica. Realiza a memorável turnê pelo mundo com os amigos Altamiro Carrilho, Maurício Einhorn e Gilson Peranzzetta, que resulta no CD Nas águas do Brasil, de rara beleza harmônica e virtuosística.  Sua música incorpora a rítmica dos igarapés, igapós, remansos, banzeiros, o canto dos pássaros, o vento que sopra na copa das castanheiras. O pacto estava selado: Sebastião parte levando os dois rios na bagagem, depois volta pra terra que o acolheu com carinho para nela fincar residência. Mora na beira do rio que lhe deu o nome. E só sai dali pra pescar ou quando o mundo, carente de ouvir boa música, o convoca.

Gonzaga é, além de músico, letrista de primeira. Carrega a rima e a métrica na veia. Compõe compulsivamente. As palavras se derramam por ele com a mesma doçura do canto do “Curió do bico doce” que ele fez o Brasil ouvir na novela da Globo. Para ele, tudo é motivo: da manga que o moleque da rua apanha para matar a cuíra¹ de comer, ao mocotó da gringa que se mete a dançar na roda de carimbó e dança de “pé-quebrado”. Gonzaga faz o caminho inverso ao de Sebastião. Sobe o amazonas e vai parar em Manaus. Na capital do Amazonas ele se forma em Arte-educação. Ali mesmo começa a carreira artística, compondo em parcerias com Eliakin Rufino, Célio Cruz, Eduardo Santhana, Ian Faquini e outros. Ganhou mais de 20 premiações em festivais pelo Brasil. Possui seis CDs gravados. Seu maior sucesso Curió do bico doce teve mais de 1 milhão de audições no Youtube. Depois, sim, ele desce o Amazonas e chega a Santarém. É dominado pelo mesmo impacto, ao dar de cara com o rio Tapajós: “Amor ao primeiro mergulho”, diz ele. Adota o chão de Alter como seu. Ali compõe várias canções, retribuindo o carinho com que foi recebido. O encontro com Sebastião seria inevitável. Coisa do acaso ou do destino, tanto faz. O importante é que ele tenha acontecido e, para felicidade nossa, tenha sido registrado. O que temos aqui, portanto, é o duplo encontro de dois rios: o Amazonas e o Tapajós de Sebastião com o Tapajós e o Amazonas de Gonzaga.

A irreverência da capa mostra a seriedade com que o trabalho foi realizado. Biratan Porto, o grande cartunista e caricaturista belenense tomou pra si a responsabilidade. E imagina os dois no “Encontro das Águas”, cartão postal de Santarém, Sebastião numa canoa recebendo Gonzaga, que chega noutra canoa. Nada de vela, nada de remo. As canoas são atraídas pela letra de Gonzaga e a melodia de Sebastião. Nada mais verdadeiro, nada mais emblemático. Por outro lado, o sorriso dos dois denuncia uma farsa, puro teatro: esse encontro guarda indícios de já ter sido realizado ainda nos primórdios do tempo, na mente do Criador.

Gonzaga e Sebastião, Sebastião e Gonzaga: um compõe a melodia, outro, a letra. O que vem primeiro, letra ou música, nem mesmo eles saberiam responder. “A coisa vai acontecendo, vai acontecendo, vai acontecendo... Quando a gente vê, já aconteceu, está pronta!”, diz Sebastião, com a precisão e a simplicidade com que se explica todo mistério. Para cada frase melódica de Sebastião, uma frase poética de Gonzaga e vice-versa. O resultado não poderia ser outro. É só ouvir e constatar. 

Da parte de Sebastião, destaque para o improviso com toques de guitarrada e de jazz, a sequência de acordes com sabor bachiano e a batida bossa-nova que permeia alternadamente todas as músicas. Tudo muito simples na sua complexidade. Só luxo, nada mais! Da parte de Gonzaga, a poesia das letras, como em Quando o Lundu Nasceu (já me sabia seu antes de te encontrar) e em Nosso amor (quando a casa dormir e a luz apagar, a gente acende o nosso amor), a crítica mordaz aos costumes, em Dona santa, e ao machismo decadente, em Quem manda é ela, a riqueza descritiva do detalhe que só o olhar atento do poeta é capaz de captar (Tem pé diferente neste carimbo, conheço, de longe, pelo mocotó). 

O CD conta ainda com o auxílio mais que luxuoso de Márcio Jardim, na percussão, Igor Capela, na guitarra e Príamo Brandão, no baixo. Depois de ouvido pela primeira vez, não há como não ser seduzido por ele, não há como não amá-lo. Não há como não adotá-lo como CD de cabeceira.

  1. Desejo incontrolável de fazer determinada coisa.

 

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