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Não estou perdida não, estou achada - Dona Maria Santos/Maria do Caxambu

Não estou perdida não, estou achada - Dona Maria Santos/Maria do Caxambu

Entre as 18 profissões que a dona Maria sabe exercitar - caçar e pescar com flecha, armadilha e malhadeira, fazer farinha, cuia e lindíssimas panelas de barro, erguer não só uma maloca, mas também uma barraca simples para se proteger das chuvas torrenciais, é cozinheira, costureira, massagista e parteira, catraieira, matriarca - tem duas nas quais ela se destaca mais. Tem o dom de contadora de estórias, é poeta e compositora. - Maria do Caxambu com nome oficial, Maria Figueira Santos dos Reis. Nasceu e foi criado no Lago Grande da Franca, e mudou-se menina ainda, em 1960 para Santarém, com 10 anos de idade. De 1962 á 1968 morou na comunidade de São Braz do Eixo-Forte e chegou em Alter do Chão 1976 de onde nunca mais saiu. Grande parte deste tempo, 30 anos, morou no  balneário do Caxambú, onde ficou mais conhecida. Filha de pai de negro e mãe branca, neta de índio e escravo, tem em sua genealogia a descendência também italiana e, principalmente, portuguesa de onde vem o sobre nome Figueira.

"Vim do Lago Grande, porém ganhei um lago pequeno que me deu o nome. Meu lago grande tinha praia de barro, o meu lago pequeno tem praias de areia branca. O lago grande tem água barrenta, o pequeno águas muito claras."

Adotou logo o nome Caxambu, aquela praia de águas claras depois da ponta do Muretá, apelido esse dado carinhosamente pelo dono, por ela ser a única corajosa de morar isolada ali por tantos anos. Percebeu só muito mais tarde, a internet revela isso numa toada, que Caxambu devia grafar-se cachambu, contendo as duas palavras africanas cacha (tambor) e mumbu (música). E servia, ainda existia a escravatura, para designar tanto o instrumento que foi tocado por eles nas suas danças, mas nomeou a própria dança ou batuque. E com isso estamos no meio, tem muita música para revelar.

Maria do Caxambu com sua neta/filha Juliana, já que ela a criou desde da barriga.

Sou nem açúcar nem sal para ninguém gostar de mim

As mãos hábeis de gestos ágeis, tiram mais um papelzinho retangular, listrado, arrancado de um caderno igual àquele que se usa na escola, alisam, esfarelam uma fina linha de tabaco no meio, enrolam com habilidade, o lábio lambe e na mão o isqueiro já incendeia a ponta. Da sua lata cor-de-rosa ela nunca desgruda.

Conta mais um pedaço lembrado, vivido, sofrido. Transformou e eternizou essa vivência em mais uma das suas músicas. São muitas. Fala que são mais de 80, entre carimbós, forrós, sambas, até um, lembrando o próprio pai, cantando o boi de Parintins. Composições próprias, letra e melodia, todas devidamente registradas em cartório. Cantarola, sabe tudo de cor, tem todas na ponta da língua com sua voz presente, rouca, só dela. A família as canta, em rodas intimas.

"Hoje em dia não danço mais para eles, eles dançam para mim."

Fala que suas músicas já nascem prontas, uma onda, o banzeiro, um vento, vento de cima, vento de baixo, algum bicho, especialmente os pássaros, um acontecimento desencadeia sua criatividade. Descem num jarro só. Tem gente que fala que ela recebe as músicas. Criou os filhos todos cantando canções de ninar próprias para todos eles. Fez as músicas só para ela mesma, achando que as músicas dela não tinham valor. Até....

Carimbó da Aranha  gravado pelo projeto Ykombiaba de Vitória Porpina e Cecília de Santarém.

Sempre fui pé no chão, nunca quis aparecer

Foi mordoma e foliã do Sairé por 18 anos. De sua humilde casa, fala ela com carinho, só sairá ladeira abaixo direto para o cemitério, pois mora naquela mesma rua que desce para o cemitério. Encontrou-se, há tempo, dentro de si mesma. Abdicou de qualquer ambição que não seja a altura da sua paz interior. Ouvi dizer:

" Você é um diamante bruto, que precisa ser lapidado. - Por ser cabocla, nunca quis aparecer antes."

Cabeça muito erguida, ela guarda o sábado, mas não se entendeu nem com o pastor nem com o padre. Na sua sabedoria diz que nunca vi Jesus fazer regras. Só ensinar caminhos. Caminhos que ela percorreu. Um dos seus livros tem o título:

"Esse é o mundo que me ensinou a pecar"

Respeita, isso sim, qualquer religião, acredita na natureza que a rodeia. Recebeu de um pássaro ainda menina, o seu primeiro carimbó. Mantém, outro costume do interior, toda a família por perto. Filhos, netos e bisnetos, - "A benção, mamãe" - vive a vida de muitas mulheres da terra. Abre umas frestas, piscares de olho só, para um passado, seu passado. Um passado ao mesmo tempo distante e bem pertinho, repercutindo nos dias atuais.

Conta que os pais não tinham condição de permitir que ela frequentasse a escola. Sua curiosidade, afinada e lúcida até hoje, a fez implorar para uma cartilha com as letras que ela decifrou, aprendeu a ler sozinha. Lia tudo, até placa de rua. Quando já lia tudo, enfim um senhor, a mãe pagou um mês para ele, a ensina-la a escrever. Espanhol aprendeu lá no garimpo, garimpo, tão presente em muitas vidas por ai.

Casou-se e se descasou porque quis e sempre conseguiu educar muitos filhos, netos e bisnetos, os próprios e esses de coração - avó com 34 anos, 9 filhos próprios e 4 do coração, 25 netos e 8 bisnetos, alguns desses bisnetos que a chamam carinhosamente de Bi.  Espelha-se nisso toda a cultura cabocla, ao mesmo tempo extremamente generosa, alegre, com aquele humor  e brincalhona muito particular mostrando que leva a vida aparentemente de maneira leve e doce, mas reprime, se necessário e sabe ralhar bem se for preciso, especialmente com as mulheres. Encapsuladas, isoladas nas lembranças as tragédias e injustiças, as maiores e as menores, os insultos diários, a exclusão, as tristezas, sabendo que nunca fará parte por completo por não ter nascido nesta terra.

Caxambu, sua praia tão querida.

Cor de rosa, o boto com quem fala

- "Joi - achei o nome tão bonito!" -

Eis o nome dado ao cor-de-rosa, o seu boto cor-de-rosa. Quando ela o chama, ele vem. Puxa a malhadeira dela. Encha-a com peixe. O achou perdido, lembrava uma garrafa, cor-de-rosa, abandonado, os pais mortos. Assim ela o criou na beira do rio jogando peixe.

Conta do velhinho com quem conversou ainda criança, avistado lá da janela da sua casa. Estava sentado no barco na beira do rio. Uma hora mergulhou para nunca mais aparecer.

"Foi quando eu entendi que ele era o boto."

Fala do Caxambu, a praia só dela. 30 anos de convivência, autossustentável. Vida dura, impiedosa, roça, caça, farinha e a pesca. Lá aprendeu a ler a natureza. Enxergar os ciclos e as relações numa perspectiva maior. A pesca ela nunca mais largou, a canoa e a malhadeira. Tanto tucunaré, jaraqui e pacu e muitos outros sustentem até hoje muitos da casa. Lá no Caxambu tinha a casa de cima, onde costumava passar a cheia, e a maloca para quando as águas liberaram as praias. As crianças surfando numa prancha improvisada de isopor.

Recebendo na sua casa o as duas mulheres do projeto Ykombiaba, Vitória Porpina e Cecília de Santarém já com o cd gravado. Mais informações nos vídeos do Raiderson, seu filho, no fim do texto.

O mundo me viu

Não queria falar com mais ninguém, cansou dos pedintes que vem atrás das músicas dela. As mesmas que a vila já recusou. Essa terra incrivelmente rica em músicos homens e mulheres e músicas lindíssimas. Mas o projeto Ykomiaba das duas mulheronas, Vitória Porpina e Cecília de Santarém que percorre o Norte e Nordeste do Brasil levando consigo o carimbó sobre rodas, revelou dois dela, o Carimbó Ostentação e Carimbó da Aranha.

Unidas em frente à famosa kombi que deu o nome ao projeto Ykombiaba, Maria do Caxamuo no meio de Vitória Porpina e Cecília de Santarém.

Agora é filosofia que a intriga. Lhe digo, já entendeu tudo. Lapidada por ventos e águas, as areias e as escolhas conscientes e outras.

O mundo a ainda a verá.

O livro dos carimbos da Maria do Caxambu

 

 

O BOTO - Alter do Chão
Susan Gerber-Barata
Susan Gerber-Barata Seguir

Suíça com passagem por design e jornalismo de moda. Apaixonou-se tardiamente pelo Brasil e mais tarde ainda pela Amazônia, especialmente a culinária amazônica. Cozinha, escreve e fotografa livros, uns sobre culinária amazônica.

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