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Greta, ou a pandemia vista como chance

Greta, ou a pandemia vista como chance

A mensagem é grafitada numa casa no centro de Lisboa. "Make the world Greta again" faz um trocadilho com o lema do presidente americano "Make America great again", substituindo o great por Greta. Greta Thunberg é ativista ambiental sueca com muitos seguidores no mundo todo. Todos acreditem que é urgente, urgentíssimo de fazer algo contra as mudanças climáticas. 

O primeiro contato além-mar é, como manda o figurino, o taxista. Encantado que falo "brasileiro", mesmo com sotaque, puxa aquela conversa previsível. Os rumos aliás me pegam de surpresa, e muito.

"Você veio da Amazônia? De lá, onde estão queimando a Amazônia?"

Outro local, o vendedor de ingressos para o museu pergunta, também muitíssimo bem informado:

"Me diga uma coisa. A soja não é brasileira! Por que se planta tanta soja na Amazônia?"

Algo mudou. Nunca tive que passar por saias justas dessas!

Encontra Lisboa, a cidade maravilhosa esticada ao longo do Tejo, a todo vapor. Em pleno inverno europeu é cheia de Chineses, Coreanos e Brasileiros - o coronavírus ainda não estourou. A Alfama, o centro velho, uma única ladeira, das íngremes, há pouco tempo decaída e quase um subúrbio, está toda em reforma. Está a virar um único grande Airbnb. Aprendo uma palavra nova: "Gentrificação" (Gentrificação descreve um fenômeno pelo qual um bairro, uma cidade ou uma região cai no gosto de pessoas de poder aquisitivo maior, o que faz que a região se valorize, afetando e afastando os moradores a população de baixa renda residente até aqui no lugar). Essa, a gentrificação, vai, obrigada, também a todo vapor. Criou até uma nova profissão. Cuidadores/as de apartamentos de Airbnb. Sobem e descem as ladeiras pesadamente munidos com roupas de cama, papel higiênico e material de limpeza.

 

Aos indiferentes

Mas maior ainda é a mudança de hábitos no dia-a-dia. Com grandes banners espelhados pela cidade, Lisboa se direciona diretamente a mim. Convida-me, euzinha,  pessoalmente - irresistível aquele charme português que mistura ingenuidade com lirismo e desenho gráfico de primeiro - convoca todos/as, mesmo os indiferentes: Evolua/m  também! 

Aos indiferentes

Precisamos dos indiferentes, dos confirmados e dos céticos ......  Precisamos dos que atiram ao mar e dos que lançam para o ar. Precisamos dos pessimistas e dos consumistas.  .....  Precisamos até dos que não fazem por mal.

Precisamos dos indiferentes. Já não dá para salvar o mudo sem eles.

Escolhe evoluir.

 

 

Lisboa acabou de ser eleita capital verde europeu e faz jus a promessa. Só em conjunto vamos salvar o mundo.

 

Será que eu, euzinho/a, posso fazer algo?

Sei, os ventos viraram. Nado contra a maré. Estou, estamos na contramão. De repente é possível e tolerado dizer o indizível. Moral, educação é ética estão perdendo terreno. A boiada tenta passar. A pandemia virou uma gripezinha. Mas não desisto da altura das minhas mais do que sessenta primaveras e com a ingenuidade intocada, inteirinha - está em minhas, em nossas mãos! Vou tentar, vamos tentar. Tentar enxergar. Vamos questionar e nos informar. Elaborando um resumo para depois decidir o que pode e deve ser mudado. Em mim, em minha casa, na minha rua. Decidir se é na hora que o barco fica mais leve, menos poluente, menos desigual e com menos lastro. 

Ou sem água cinza jogada na rua. O buraco lavado com ajuda das chuvas é tampado com lixo. Realidade em muitos bairros de Alter do Chão. 

As únicas certezas que tenho - uma vez passada a crise, e ela passará, o mundo será outro. Nós seremos outros. Poucas vezes na vida se recebe um chacoalhada dessas. Preste atenção, enxergue as advertências! Vejo tudo isso que estamos passando como uma chance. A pandemia pode ser vista com um novo ponto de partida, um recomeço! Todos fomos obrigados a parar. Olhando em nossas voltas, ilhados, estamos vendo, que simplesmente não dá mais, não é mais apropriado, voltar ao automático. Temos aquela chance única de escolher novos rumos. Podemos prestar atenção, ouvir e a agarrar, tudo para crescer! Por que destruir o que nem é nosso, só para a boiada pode passar? Por que ser ignorante, arrogante e mesquinho e passar por cima dos outros? Espalhar o ódio? Escolhe evoluir. Ajude tornar o seu mundo pequeno um pouco mais justo, menos desigual e mais limpo, mais leve, resumido mais humano! Enxergue o outro. Recuse a imoral, impede a mal educação e a falta de ética. 

Torço que isso será o futuro dos nossos alimentos - produzidos aqui ao lado, local, justo e tão saborosos! As encomendas, organizadas as pressas, funcionam perfeitamente.

Tudo isso e muito mais conclui ao voltar da viagem. Lá na Europa, a Greta, a pirralha é por todo lado. Mudou tudo. O clima vem em primeiro lugar. Poluir agora se tornou feio. Usar saquinho de plástico é completamente fora de moda. Consumir sem pensar para onde o lixo produzido irá - fora da questão. As mudanças climáticas por lá são reais. Todos sentem na própria pele que não cai mais neve nenhuma onde se andava de trenó quando era criança. Quer esquiar? Só em neve artificial produzida por canhões que cuspam água congelada. Os prejuízos a curto e em longo prazo são gigantes e dá para ver, sentir e entender que é agora e que é urgentemente preocupante. E agora veio a pandemia. Quer alerta maior? Uns dizem que foi a própria natureza que se vingou, nos mostrou os nossos limites.

Como a gente mudou tudo e tão rápido! Aderimos, contra vontade, mas em bloco, a novos hábitos. Hábitos desagradáveis e estranhos! Quer comprovação melhor para mostrar como é fácil mudar? Com ou sem pressão ou mesmo vontade, temos a capacidade de mudar tudo em instantes.

 

Na Europa - novos padrões de consumo

Logo, logo chegará aqui o que na Europa já é padrão.

Saquinho de plástico, talheres e pratos descartáveis, canudos de plástico? Simplesmente desapareceram. Os substitutos todos são feitos de materiais novos, todos biodegradáveis de verdade. Surgem um monte de novos palavras com re-: Reciclagem, reuso, compartilhamento de carros, máquinas, casas, roupas etc. são integrado no dia-a-dia. Os "Repair-Cafés" onde se conserta tudo que não tinha mais conserto, pipocam em cada esquina. No supermercado, as minhas amigas tem um App para checar o código de barras. O produto contém óleo de dendê? Nunca jamais entra no cesto das compras. Os legumes colocam todas no "Veggiebag" para pesar. Um saquinho de tecido leve que, esvaziado, volta na próxima compra. Veggie não de Vegetariano, mas de vegetables, legumes. Passado pelo caixa e esqueceu-se da sua sacola? Tem que pagar para uma. A maioria se acostumou e leva a própria sacola, a tão vaiada "dona Maria" das nossas mães. 

O "Veggiebag" é retornável e reciclável. Nele se coloca legumes e verduras a serem pesados. 

Quem pode, aposta no plástico zero. Reciclando plástico resolva pouca coisa. Infelizmente. Ninguém quer comer em partículas minúsculas e invisíveis daquele mesmo plástico que ele acabou de produzir. Plástico fica mais do que cem (100 - C E M !!!) anos no ambiente. Novas pesquisas comprovaram que estamos engolindo tudo o plástico que foi jogado no ambiente e no mar. Aparentemente desaparece. Uma ilusão. Se esfarelou em partículas tão minúsculas, que se tornam invisíveis ao olho nu. Micropartículas que estão no ambiente, na água, nos peixes. Um horror. Greta, a pirralha é aqui também.

Pano encerrado com carnaúba de reúso substitui o filme plástico

Dessa maneira estamos a procura de alternativas. Consumir menos, consumir mais consciente. Sobrou um alimento? Quer guardar um queijo ou o presunto do café da manhã? Nada de filme plástico nem aquelas boxes do mesmo material. Surgem, os mais sensíveis que se cuidam, toalhinhas enceradas, muito bem estampadas que cubram o alimento ou se usa potes de vidro com tampa de bambu para guardar. Pequeno detalhe? As toalhinhas, de algodão, que eu ganho são encerradas ou com cera de abelha ou com cera de carnaúba.... . Carnaúba é uma palmeira do Nordeste do Brasil.  

Um dia, logo, logo eles voltarão a receber visitas. Será que esses evoluirão juntos?

Vamos evoluir! Cada um, individual, grupos, todos juntos. Vamos encontrar respostas criativas para os dois portugueses que sabem que a Amazônia está em chamas, tem uma boiada que quer passar. Seja atenta. Juntos vamos impedi-los!

Quer um último recado da Greta? Será que a pirralha até fala português?  

 

O BOTO - Alter do Chão
Susan Gerber-Barata
Susan Gerber-Barata Seguir

Suíça com passagem por design e jornalismo de moda. Apaixonou-se tardiamente pelo Brasil e mais tarde ainda pela Amazônia, especialmente a culinária amazônica. Cozinha, escreve e fotografa livros, uns sobre culinária amazônica.

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