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Entrevista com o urubu ou o lixo - faça você a diferença também

Entrevista com o urubu ou  
o lixo - faça você a diferença também

Que coincidência feliz! Encontrei hoje no meu passeio matinal a turma do meu amigo urubu mocorongo. Bem humorado - Dona Onete me perdoa a inspiração - ele me cedeu essa entrevista. Não disfarçou certa impaciência, não tirando o olho de alguns sacos de lixo, postos especialmente para ele na esquina próxima. O cheiro irresistivelmente podre o tentava fortemente, roubando de vez em quanto a sua atenção. Só faltava rasgá-los para se deleitar. Sabendo que o tour regular da prefeitura ainda demorava, os sacos foram postos horas antes. O Urubu Mocorongo me concedeu essa conversa e foi para lá de franco, como é costume entre bichos:

O Boto:

Urubu mocorongo, meu amigo, tudo bem por ai? Que bom ter você de volta! Como foi a viagem a Manaus? Gostou? - Me conta um pouco!

Urubu mocorongo

Se gostei? Não sei não... . Sabe, uma cidade para lá de nervosa. Passei uns apertos, meu amigo! Quase passei sede lá! Sabe, aqui sempre tem uma vala aberta jorrando, uma água servida jogada na rua. Mas lá? Nem pensar! Que mania! Lá quase não existe esgoto a céu aberto! Quando me deu sede, tinha que me virar! Virar com as águas das chuvas! Como as poças de chuva secam rápido! Ainda bem que as próximas chuvas nunca tardiam.

O Boto

E a comida, como foi a comida? Comeste tal de tucumã na tapioca?

Urubu mocorongo

Olha, também não estava tão fácil não! Custou achar um bom pitiú. Te confesso, até tive uma certa dificuldade de me alimentar direitinho lá. Sabe, outra mania! Lá eles colocam tudo que não querem mais, é o que chamam de lixo, numa lixeira. Tem até num tipo de gaiola especialmente para lixo! Acredite que lá tem até gaiolas boiando! Cheio de garrafas PET! Que loucura! Completamente desnecessário! Acredite que quase todos que voltam das praias da redondeza deixam as suas garrafas de plástico lá! Aqui eles ensaiavam uns casas de lixo, mas Graças a Deus tem aqui tanta coisa iniciada que nunca termina.... . E os moradores são os nossos maiores aliados. Graças a Deus aqui ninguém quer uma casa de lixo perto da casa dele não!

Em respeito a comida: Tenha estômago! Tentei no mercado do Parque 10, mas te digo, era difícil! Era raro! Tentei lá no centro. Só tinha uns pescadores vendendo peixe direto do barco, lá em baixo, já no porto. Deu mal para pegar um pitiuzinho, uma guelra, algo assim. Mas nas casas já deu para ver sobrevoando, cheirando, tinha muito pouco pitiú, comida que eles servem nesses sacos pretos, ou melhor ainda, nos saquinhos bem fracos de supermercado como aqui, não tinha não.

Quase bateu um desespero. Que saudade da fartura daqui! Só rasgar e se deleitar. De vez em quando um cachorro vadio rouba o melhor. Mas honestamente, tem para todos nós. Tem fartura total aqui. Aqui nunca me faltou nada não. Outro dia até comíamos, fartura que levou uns três ou quatro dias, uma carcaça inteira de um cachorro morto. E hoje tem uma cabeça de cujuba no menu! Sabe, tenho plena consciência da minha importância! Ou você conhece inspeção sanitária melhor do que a gente? Sem a gente, a vila seria um fedor só! Teriam toda a doença que vem do lixo, leishmaniose, dengue, chikungunya, zika. Não tem policial sanitário melhor do que a gente não! Tenho muito orgulho do meu estômago! Consigo engolir e digerir até defunto de tão ácido o meu estômago é. Nenhuma bactéria resiste, fico doente nunca!

O que eu senti mais falta lá foi de um bom churrasco. Aqui eles sempre queimam tudo que sobra no quintal. Chamam as folhas lixo e tocam fogo. Dá um churrasco danado! Todos os pequenos bichos que viviam entre essas folhas! Apetitosamente chamuscados. Servidos no prato. Danado de bom, meu amigo. Mas lá eles não queimam não. Não sei te explicar muito bem o por quê.

 

O Boto

E a hospedagem? Tinha árvores secas bem altas como aqui?

Urubu mocorongo

Não tinha não. Nem quintais com coqueiros para se misturar as galinhas e patos para bater um bom papo. Que bom que temos a praia dos urubus. Que felicidade de estar de volta a minha arvore no meu banco de areia no Lago Verde. Estava com tanta saudade dos foguetes alegres nas quarta feiras, sempre que o meu team ganha! E da animação do fim de semana. Que delícia de música bem alta! Melhor ainda se tem fogo cruzado, três casas cada uma com sua música preferida. Que simpático que compartilham com todo mundo! Te confesso, aqui entre nós - que dana se o progresso! Que bom estar de volta no meu paraíso verdadeiro!

Cara amiga, mas agora tenho que voar! Tá me dando uma fome! Tá cheirando bom demais aqueles sacos pretos! Até a próxima!

 

O Boto  

Até a próxima, amigo urubu!

Lixeira construída por morador incomodado com tanto lixo deixado nas casas veraneias em volta.

 

Amigo Urubu - como é difícil mudar!

Sozinho, o boto refletiu. Como é difícil mudar! Mudar hábitos arraigados, enraizados, costumes queridos, a própria cultura. Por outro lado - mudar mantém a gente jovem. Mudar dá um brilho novo. Mudar certos hábitos pode trazer grandes conquistas. Mudar a própria relação com o lixo pode fazer muita diferença. Ouso dizer que aqui em Alter do Chão qualquer coisa que mude as minhas atitudes em frente ao meu lixo, faz uma diferença gigante. São mudanças que estão ao meu alcance. Cada saquinho que não vai para a praia, qualquer lixo que eu evito, faz aquela diferença. Se a mudança é verdadeira, vem de dentro, vai trazer frutos. Só eu posso faze-la. Não se importe com os outros. Entre no barco e ajude a fazer a diferença, para os seus filhos, para os turistas, para si mesmo. Vamos lá!

 

Desmistificando mitos urbanos

A cooperativa Coopresan em ação, retirando o lixo separado da casa de lixo na praça 7 de Setembro, Alter do Chão. Como se pode observar, o lixo separado é mantido separado e dessa maneira facilita muito o trabalho dos catadores mais pela frente.

Mesmo tendo uma lixeira bem ao lado, foi descartado muita comida, pratos e copos descartáveis, embalagens que infelizmente não podem ser reciclados.

Mas o lixo é todo separado e permanece separado. Quase não contém latinhas de refrigerante e de cerveja. Esses tem mais valor e muitas pessoas já recolhem e os vendem. Para manter as garrafas inteiras, a casinha tem uma janela mais baixa. Cacos de vidro ainda ninguém recicla em Santarém. Mas garrafas de vidro acham compradores.

 

Um pouco de história

A professora Maria Francisca Adad, mais conhecido como Cicita, muito querida, fez sua tese de doutorado sobre os atores envolvidos na coleta do lixo. Vem trabalhando já muitos anos com catadores de lixo, viu nascer as três cooperativas existentes em Santarém e tem certeza absoluta que reciclagem muda vidas. Na sua tese detecta que 

"A interação entre os atores ocorre de forma desconexa, tanto dentro dos setores econômicos como entre eles e as diferenças sociais e culturais entre as duas cooperativas influenciam sua expectativa com a reciclagem. A organização do parque produtivo segue padrão mais homogêneo, tendo a indústria maior identificação com o mercado reciclador. "

Infelizmente até hoje trabalham no grande lixão Perema onde Santarém descarta todo o seu lixo catadores que catam diretamente no lixo! Disputam com cachorros vadios e urubus o seu sustento sob condições sub-humanos mesmo sendo organizados em uma cooperativa. Como os próprios catadores de outra cooperativa contam, que os caminhões de lixo param na entrada do lixão para os catadores já podem retirar tudo que lhes aparece reciclável para somente depois depositar o lixo no lixão. Outras duas cooperativas de reciclagem trabalham num grande galpão, fruto de uma parceria da prefeitura com a cidade de Bonn e sua companhia de reciclagem Rhein-Sieg-Kreis que infelizmente não foi continuada.

Além disso diz Cicita Adad: 

É senso comum que as principais dificuldades são relacionadas à ausência do poder público em todo o mercado (primário, secundário e terciário), incluindo-se aí a falta de infraestrutura de transporte para o acesso à matéria prima e insumos e o escoamento da produção... Problemas de eficiência e equidade são comuns e considera-se importante o apoio efetivo dos órgãos públicos municipais para permitir a redução da pobreza e a inclusão dos indivíduos e das empresas envolvidas com a reciclagem de materiais."

 

Quer tomar algumas atitudes? Aqui as sugestões do Boto:

Reciclando é só a terceira opção

O grande e chato segredo do combate ao lixo é evitá-lo. Prioridade absoluta é evitar o desperdício. Quem consome menos, consequentemente gera menos lixo. Em segundo plano vem o reúso de um bem já produzido, existente. Garrafas com vasilhame, lixo orgânico que vira compostagem, roupas que uma vez desengavetadas ganham uma segunda chance etc. A tão elogiada reciclagem infelizmente só é a terceira opção. Ainda tem tanto a fazer a respeito e como ela é ainda alivia menos do que prometido.

1 Evitar

Muitos pequenos gestos, repetidos todos os santos dias, fazem a diferença sim. Todos os comerciantes já me conhecem. Ah é, você não quer sacolinha? Levo a minha indestrutível "Dona Maria", uma bolsa listrada bem brasileira, sempre comigo e até mando desembrulhar, levo sem saquinho mesmo. Já fui ridicularizada várias vezes - "ihihihihhh, minha mãe tinha uma igual" apontando para o meu monstro listrado, normalmente usado por pessoas de menos poder aquisitivo.

Melhor só as sacolas de ração com alça ou os sacos reciclados de farinha. Amo todos. Tenho sempre vários no meu carro e até levo de presente. Para o peixe tenho uma caixa térmica, de plástico, mas lavável e ainda mantém o peixe fresco. Da carcaça do peixe e das aparas do camarão cozinho um saborosíssimo fundo de peixe ou camarão. Ovos levo na grade de papelão, ainda menos pior do que no plástico. Não bebo de copo de plástico e onde eu como evito ao máximo tudo que é descartável. Descartáveis não podem ser reciclados.

Tento comprar local e da estação e dou muito valor em legumes e frutas locais.

Nunca jogo comida fora. Cozinho exatamente a porção necessária para comer na hora. Se sobrou, congelo ou misturo a ração. Meus queridos cães adoram.

Por que eu evito saquinhos de plástico?

Porque plástico fica muito, muito, muito tempo no ambiente. Na água e no mar ele adquira pequenas algas que lhe dão cheiro de comida. Os bichos o engulam e morrem. Além disso, tem inúmeros pedaços de redes perdidos no fundo dos rios que são responsáveis para a morte de muitos outros bichos. Outro problema são as micropartículas de plástico que são achados hoje em todos os mares e rios. Quem consome peixe, engole os minúsculos partículas que estão dentro dele. O que eles fazem com a gente, ainda não é suficientemente pesquisado.

2 Separar

Sempre separei e separo todo o dia o meu lixo. Separo basicamente em orgânico, lixo sujo, e lixo reciclável. 

O lixo orgânico que inclua também folhas e galhos das minhas árvores, e somente ele, é enterrado no meu quintal. Ele me dará com o tempo uma terra preta maravilhosa. A técnica se chama compostagem e feita de maneira certa não emita nem cheiro nem atrai bichos.

O lixo sujo vai para a rua, devidamente embrulhado, na hora certa, em cima de uma lixeira alta e o lixeiro leva até o aterro sanitário.

 

veja o problemão que são os tais descartáveis

 

 

Reciclar

O lixo reciclável eu separo em plástico, papel, lata, caixa de leite etc. e levo, tenho carro, para o ecoponto da Celpa em Santarém, praça São Sebastião, ganhando descontos mirabolantes de 0,50 centavos na minha conta de luz. Reciclo muita coisa e compro muito de segunda mão. - Não me entregam! Só levantam um pouco a sobrancelha! - Recicla, replantando muitas plantas e frutas, coroas de abacaxi, sementes de açaí e bacaba. Coletarei, eu sozinha, esse ano mais uma vez uns 30kg de castanhas de caju. Reciclo bichos abandonados, tirando os da rua, castrando e achando um novo lugar eles. Restauro móveis achados no lixo, regato bonecas, quadros e muito mais.

Não toca fogo

A fumaça do fogo faz um mal danado para a sua saúde, especialmente para crianças. Também é muito fácil de perder o controle sobre um fogo que um ventinho espalha e pode provocar um incêndio florestal  fora do controle. Dessa maneira irresponsável se perde muito verde o que já está diminuindo pela urbanização e tantos bichos perdem o seu habitat.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O BOTO - Alter do Chão
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