Dia 11 de fevereiro de 2026, um dia histórico, levou muitas associações de Alter do Chão se juntar ao movimento indígena que ocupa a entrada da multinacional americana Cargill em Santarém. Alter prestou seu tributo e seu suporte aos parentes indígenas que estão desde o dia 22 de janeiro de 2026 ocupando o porto da empresa. A ocupação protesta contra o decreto federal 12.600/25 que visa a privatização da navegação no rio Tapajós. E o movimento só cresce.
Quem podia levava mantimentos e outras doações, muito importante para dar um mínimo de conforto para quem está na frente da luta.
Muitas associações de Alter aderiram ao movimento!
Dois ônibus inteiros, várias vans e muitos taxis, além de carros particulares estão se preparando para sair em caravana de Alter até o porto de Santarém.

Pouco importa religião, etnia, providência ou partido político. Essa luta é de todos.

A tardinha, o sol já se pondo, a caravana entrou em Santarém. Andando lentamente chamou atenção de quem estava voltando pra casa depois do expediente. O buzinaço despertou o interesse para o movimento de quem estava por perto.
A briga é gigante e desigual
A briga é das grandes. São muitos interesses, muito dinheiro e, além disso, modelos de desenvolvimento arcaicos e ultrapassados em jogo. Para a vila Alter do Chão, mesmo que negócio com o turismo na vila não seja visto por todo mundo com bons olhos, essas obras colocam literalmente o ganha pão de quase todos em jogo - quem não é funcionário público vive diretamente ou indiretamente do turismo. Um turismo que aposta em águas claras e natureza intacta.
Além disso há muito mais! A professora da Saúde Saúde Coletiva, Annelyse Rosenthal Figueiredo explica:
Além da contaminação dos peixes com mercúrio do garimpo, há outro ponto negativo na conta da Cargill. O agronegócio é um dos causadores do aumento de contaminantes nos rios, nos peixes e consequentemente em nós. Além dos venenos que eles pulverizam nas plantações e nas sementes que armazenam e transportam, eles desnudam as terras e desmobilizam metais tóxicos para os rios.
Será que isso é o tipo de desenvolvimento que a Amazônia quer? Já evaporaram todos os discursos belos da COP 30? Cadê as aclamadas alternativas para o desenvolvimento da região? Cadê a consulta livre, prévia e informada? Chega de desenvolvimento na marra, goela abaixo!
Chegando, todo mundo se uniu numa grande passeata e dança.








Alter mobilizou como nunca vista antes tanto associações indígenas quanto comerciais, entidades profissionais e a sociedade civil em geral.
Contextos históricos pouco favoráveis
Historicamente o Brasil e especialmente a Amazônia sempre foram vistos como uma grande fazendo extrativista onde cada um pode vir, explorar a vontade, levar tudo, enriquecer para depois virar as costas. Após a colonização, os grandes negócios do Brasil eram produtos agrícolas, todos destinados a exportação, açúcar, café, borracha e claro, hoje a soja ou a escravatura que permitia lucros astronômicos. O caso Amazônia sempre foi um caso à parte. Antigamente, no tempo do império, devido aos ventos e correntes favoráveis, era mais fácil velejar de Belém até Lisboa do que para Rio de Janeiro! O estado do Pará só aderiu um ano depois e forçado à recém criada república do Brasil. A Amazônia só surgiu no planejamento do governo imperial devido ao crescente interesse dos Estados Unidos, Inglaterra e França na mesma. Dessa maneira o governo se viu pressionado a dinamizar a "ocupação" do Norte. Entretanto, faltam recursos para uma empreitada desse tamanho. A solução? A iniciativa privada. Entra em ação por volta de 1850 a figura controversa do Barão de Mauá - Irineu Evangelista, o homem mais rico do império. Lhe foi concedido o monopólio da navegação do Rio Amazonas que ele começou a explorar com a navegação a vapor. Já em 1866, a industrialização em pleno vapor, cresceu a demanda por borracha, o governo decidiu anular o monopólio e o rio Amazonas foi aberto à navegação estrangeira. Com a decadência da economia da borracha esse setor declinou junto.
A partir da década de 1950 o Brasil começou apostar em rodovias, já que o país nunca tinha conseguido implantar uma malha ferroviária abrangendo o território nacional. Construia-se as grandes estradas federais e estaduais Belém-Brasília, Cuiabá-Santarém, Transamazônica e outras. Ironia da história, hoje se sabe que tanto a ferrovia quanto hidrovia são superiores à rodovia, são muito mais económicas e menos poluentes.
Nesse contexto vale lembrar que a vasta região amazônica naqueles tempos sombrios era vista, herança maldita, como "Terra sem gente para gente sem terra". E foi a mesma ditadura que "descobriu" Alter para o turismo, trazendo Cruzeiros e mais Cruzeiros para cá.
Falta um planejamento estratégico para a Amazônia
Desde o tempo do império, a única coisa que na Amazônia não mudou nunca é que os rios sempre foram a porta de entrada e as rodovias da região. Que falta faz um planejamento estratégico que vai além do "Arco Norte". O Arco Norte, novo eixo logístico, é um conjunto estratégico de portos, estações de transbordo e terminais, abrangendo estados como Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Maranhão. Sua função principal é escoar a produção agrícola (soja e milho) do Centro-Oeste, reduzindo custos e tempo de transporte para a Europa, Estados Unidos e Ásia via Canal do Panamá, sendo um novo eixo logístico. Mais do que 40% do milho e mais um terço da soja brasileira são exportados por essa rota. Amazônia e os seus povos originários vieram refém disso.
Que falta faz um planejamento de longa duração para essa região, vindo lá de cima, do mesmo lugar de onde vem o decreto. Um planejamento que explora novas trilhas além das já esgotadas da exploração e exportação de matéria prima que se chamam garimpo, petróleo ou gás. Os minérios logo, logo serão completados com as cobiçadas terras raras. Danem-se as florestas em pé! As consequências já estão aí. A previsão é que os rios voadores rarerão. Os mesmos rios voadores que garantem o clima propício e as chuvas necessárias lá longe e por aí também onde plantam as monoculturas da soja. Ou pior - será que a Amazônia aos poucos será entregue ao narcotráfico que está já hoje tomando conta dos seus rios?
No micro esse tipo de desenvolvimento abre velhas feridas especialmente porque exatamente o mesmo governo federal que criou o Ministério dos Povos Indigena agora priva os mesmos indígenas do que lhe é garantido por lei - a consulta prévia, livre e informada. Pisa no quintal deles, aliás no quintal de todo mundo que vive no Tapajós, sem pedir licença nem aviso prévio. É o mesmo governo que aposta no turismo para Alter que agora coloca as águas cristalinas em perigo.
Quem tem memória, lembra que foi a mesma Cargill que destruiu para sempre um sítio arqueológico indígena.


Suarara! Axé! Deus dará - lindo de ver! Todo o tipo de crença e religião se manifestou em favor do rio Tapajós e dos movimentos indígenas!
Foto: Marlene Molina Soto Nauco Pichicona
Quem participou dessa e outras manifestações ou da ocupação no mínimo pode dizer - filho, filha, fiz o que pode. Tupã, Deus, Olorum, Jesus, Pachamama ou os superiores/superioras de outras religiões ou mesmo dos ateistas - agora, a bola está com vocês! Só um milagre salva, preserva mantém um pedaço dessa terra abençoada para você, meu filho, minha filha usufruir!

A briga é dos grandes!






