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de todas as flores em Surucuá

de todas as flores em Surucuá

Por Eduardo Serique

Chamava-se Rita. Trinta anos, se não muito. Sabia-se mulher apenas nos braços do marido; no demais, entendia-se por gente. Para ela, o trabalho caseiro não era atributo da mulher; nem o da roça, do homem, no que o marido, Ávilo, concordava inteiramente. Tanto era, que dividiam entre si todas as tarefas da casa, da roça ou outra que houvesse. Morava no Surucuá, comunidade do distrito de Boim. A casa era de madeira, bem cuidada, árvores frutíferas no quintal, flores, muitas flores no jardim e um banco de madeira para apreciar as estrelas. Ficava logo depois do campo de futebol, passando a casa do seu Apolônio. 

Rita era a delicadeza em pessoa. Não havia dia em que não recebesse visita. Oferecia café, e a visita já sabia que teria que dividir a tarefa. E taí um prazer do qual ninguém se furtava! Alegre e bem falante, tinha sempre uma boa resposta na ponta da língua. Certa vez perguntaram-lhe: “Qual o segredo da felicidade?” Respondeu que não sabia. O que sabia era que “No jardim dos infelizes não nascem flores”. Bem entendido, o que isso dizia é que naquela comunidade só Rita era feliz, já que no jardim que não o dela só se via florescer urtiga e vassourinha.

Rita era benquista por todos. Não tinha inimigos, nem quem não a admirasse. Onde Rita metia a mão, podia-se considerar que não havia nada que ajustar ou acrescentar. Em tudo era melhor que todos. O japá tecido por ela não havia igual; o mesmo se podia dizer da farinha, do beiju, do mingau de crueira que ela fazia. Sua roça era tão bem cuidada que mais parecia um jardim, e a natureza lhe compensava o carinho com o melhor jurumu, o melhor milho, o melhor feijão

Mas isso tudo nunca foi causa da inveja de ninguém. Mais de admiração. Mesmo porque numa coisa Rita era superada por todos: em afinação vocal. Dizem que no Surucuá o choro de estreia do recém-nascido já vem na altura do diapasão; enquanto nas outras comunidades as crianças ganham bonecas e carrinhos de brinquedo, lá elas ganham um instrumento musical. De modo que o Surucuá sempre carregou a fama de possuir bons cantores e bons músicos. Ao contrário dos demais comunitários, Rita, quando cantava, desafinava. Desafinava muito! Desafinava que era uma maravilha! Aquela voz linda de se ouvir em colóquios tomava uma dimensão assustadora no canto: além de desafinada, acutíssima e volumosa. De todos os dons que a natureza tão diligentemente concedeu a Rita, na arte do canto ela negligenciou com muito ímpeto.

Rita gostava de cantar. Adorava cantar. Cantava como quem faz o que melhor sabe fazer. Mas não cantava noutro lugar que não a capela e justo na missa. Nunca se viu Rita cantar nos cultos dominicais conduzidos pelo líder espiritual da comunidade. Rita se resguardava para a missa do padre. Uma vez por semestre Padre Olavo aparecia na comunidade. Vinha numa lancha da prelazia de Santarém. Chegava quase sempre no sábado pela manhã e retornava no domingo. Realizava os batizados, casamentos, crismas, abençoava humações já havidas e, por fim, rezava a missa. Era quando Rita, aquela força da natureza, se entregava ao canto. Sabia todos os cânticos de cor e salteado. E cantava e cantava. Cantava sozinha. Ninguém se atrevia a concorrer com ela. E, pra desespero do Padre Olavo, Rita tomava assento na primeira fila. 

Dessa feita, padre Olavo admoestou-a em plena missa: 

– Rita, se você cantar baixinho, ainda assim Deus vai lhe ouvir. Deus não é surdo!

Ao que Rita retrucou:

– Padre, quem canta pra Deus é passarinho. Eu canto pra mim!

Um silêncio sepulcral toma conta da capela. Rita vira-se para os presentes e propõe, em tom de desafio:

– Experimentem cantar como eu canto!

Aquele foi meu último dia no Surucuá. Viajei pra Santarém na mesma noite, de carona com padre Olavo. O caráter marcante daquela mulher foi assunto recorrente. E cada vez que era trazido à baila, padre Olavo parecia se lembrar da cena havida na capela e se fazia circunspecto, como que reconhecendo ter cometido falta grave.

Já estabelecido em Santarém, coisa de três ou quatro meses depois, recebi a visita de um conterrâneo. Pedi notícias do povo de lá. Ele respondeu:

– Agora deram de cultivar flores.

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O BOTO é o jornal comunitário de Alter do Chão, em Santarém/PA, e região. Os repórteres, fotógrafos e colunistas são moradores. Os assuntos são escolhidos pelos próprios colaboradores.

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