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Conviver com a Amazônia, viver da Amazônia!

Conviver com a Amazônia, viver da Amazônia!

- A Amazônia sofre sob auto-colonialismo e certa cegueira cultural -

Economista, professor da UFPA e NAEA, Harley da Silva, convidado pelo Prof. Barata, UFOPA, para dar duas aulas na disciplina Bio-Economia da Amazônia que coordena, nos mostra que valeria a pena repensar uns preconceitos e, quem sabe, assumir outra postura em frente a Amazônia. Sintetiza, com olhar de alguém que entende de números, pesquisas recentes, muito reveladoras e chega a conclusões surpreendentes. Analisa não só a herança deixada, nem sempre feliz, mas também nos confronta com ideias diferenciadas, contemporâneas, ancorada numa grande onda mundial que está reavaliando todos os períodos coloniais, lá fora, mas também aqui no Brasil. O olhar dele sobre a Amazônia e sua história faz parar, pensar e reavaliar.

Descartado

Reescrevendo a história da Amazônia

Pesquisadores antenados, de campos bem distintos e até opostos, estão atualmente literalmente reescrevendo tudo que a gente achava saber sobre a nossa região, a Amazônica. Aos poucos corrigem mitos e equívocos históricos, reavaliando o passado amazônico sob um novo olhar muito mais realista e atual. Essas pesquisas espelham como todo o nosso conhecimento, os nossos valores, ainda se baseiam nos conceitos e preconceitos de colonizadores europeus. Confrontam assim nós, os habitantes da Amazônia de todas as cores e origens, com certa cegueira cultural, um tipo de auto-colonialismo, que não nos permite valorizar as riquezas ao nosso redor, a Amazônia e o seu bioma, um dos maiores biomas ainda parcialmente intato.

Harley fala sobre as diversas maneiras de explorar economicamente esse bioma ao percorrer dos séculos, das raízes pré-cabralianas, do período colonial, dos tempos modernos, e mostra como todo esse passado deixou consequências inesperadas e sequelas para o nosso presente. Cabe à gente aprender, vendo isso, reavaliar um bocado nossas crenças e valores. Temos que rever também muitas das nossas atitudes e conceitos frente à Amazônia e com isso mudar um pouco o mundo ou, sendo, cientista, reescrever juntos os livros da história amazônica. 

Escola no interior da Amazônia

O Brasil não conhece o Brasil, a Amazônia não conhece a Amazônia

O professor Lauro lembrou hoje de uma frase da cartilha escolar que se chamava “Caminho Suave”, usada na 1ª. série para ensinar o alfabeto. Era longe das ideias reformistas do Paulo Freire e dizia:

“Ivo viu a uva” –

nem ele, nem seus coleguinhas tinham a menor ideia que poderia ser essa tal de uva, que não conheciam a não ser de relatos eventuais. Conheciam o cupuaçu, a sapotilha e o taprebá, as mangas trazidas da Índia, mas a carreta da uva ainda não tinha chegado até aqui não. Mais tarde o Ivo foi substituído pela raposa. Será que isso foi a real intenção do La Fontaine com suas fábulas tão cheias de moral?

Exemplo bobo? Sintetiza o fato, lamentável mas corrigível, que o Brasil não conhece a Amazônia! Ou melhor, sabe muito pouco da Amazônia que vai além das florestas. Mas não só o Brasil ignora a Amazônia, seus habitantes e suas potencialidades, nós, os próprios habitantes da Amazônia a conhecem mal e ainda menos valorizam. Nossas crianças até hoje aprendem que o Ivo ou ainda a raposa (!) enxergava a uva. Assim, acompanham o raciocínio, uma uva é uma coisa positiva, civilizada, desejável de muito valor, igual ao elefante, o panda e a zebra – que as crianças aqui conhecem de perto. Pode-se supor que a uva tinha/tem a atração do exótico. O que cresce no quintal do vizinho é sempre mais cobiçado do que cresce de nativo no pé no quintal das nossas casas. Exagero? Pode ser. Sem questionar a importância da educação, dos ensinamentos, temos que ter as nossas reservas com esse tipo de escola padronizada, “importada”. Esse tipo de ensinamento que segue padrões esterilizados nos traz o perigo de corroer, lentamente e por dentro, a ligação das pessoas com a sua terra, suas frutas e outras coisas além. Pode levá-los embora para a cidade grande, por exemplo, atrás daquela uva, símbolo de uma vida melhor. Lá onde existe a tão cobiçada uva trazida pela carreta da uva do extremo sul do país. Lá, na cidade muitos acham trabalho, como caixa de supermercado ou pedreiro, enquanto na sua terra natal iriam cuidar de uma lavoura, de cacau, da farinha ou outro alimento local por exemplo. Esse tipo de escola perdeu a oportunidade de valorizar raízes amazônicas, bem distintas, raízes milenares, selvagens.

Belém, Pará

Morar na selva?

Quem aqui pensa em morar na selva? Ninguém, acho... Mas no Peru, os que moram na Amazônia peruana, moram na selva! Assim eles denominam o território peruano da Amazônia. Deixo para o leitor tirar suas próprias conclusões.

E aí que o professor Harley nos leva junto a percorrer o caminho inverso. De onde vem esse papo de selva mesmo? Ele nos mostra como os colonizadores a caça de riquezas e produtos chegaram aqui, humanos e igualzinho à gente, trazendo na sua bagagem, um monte de conceitos e preconceitos. Um desses valores era que sociedades civilizadas tinham que ter, para pudessem ser chamadas de civilizadas, organismos e estruturas como vilas e cidades, hierarquias, governantes e para se sustentar, lavouras e gados, para enfim ter o que comer. Nos olhos deles, tudo que não se encaixava nesse padrão amplamente difundido, era não-civilizado, era selvagem, primitivo. Mais ainda os que desprezavam roupas, como os indígenas, e viviam num clima que eles julgavam pouco saudável. Na sua ignorância até duvidavam se os povos originários tinham alma, e com isso podiam ser catequizados ou eram meros seres inferiores, poderiam ser escravizados.

A questão que lhes era cara, da alma, resultou numa grande disputa conhecida como controvérsia de Valladoid, debatida entre 1550-1551. Foi levantada pelo frade dominicano espanhol e bispo de Chiapas (México) Bartolomeu de Las Casas, grande defensor dos povos originários. O seu oposto, o grande vilão e perdedor desse debate, foi Juan Ginés de Sepúlveda. Ele cruelmente argumentava que os povos originários não eram seres racionais, não possuíam alma. A disputa foi decidida em favor de Las Casas. Determinou-se que os povos originários tinham alma sim e com isso podiam ser catequizados, fato que lhes dava também direitos e obrigações. Foi um debate moral e teológico decisivo sobre a conquista das Américas, essa justificada com a necessidade da igreja católica de converter os povos originários ao catolicismo. Ou em outras palavras, enquadrado num olhar contemporâneo - a separação entre o que é civilizado e o que é selvagem, entre ciência (sujeito) e o seu objeto, desnuda-se com uma divisão histórica construída pelo ocidente para diferenciar-se do outro, reafirmando intelectualmente o seu papel de conquistador além de puro mercantilismo.

Alter do Chão

Preconceitos e interpretações errôneas

Mas vamos por partes. Chegaram logo depois dos primeiros conquistadores, as ordens religiosas dispostas em desempenhar sua missão catequética. Sobre a Amazônia, por exemplo, temos, entre muitos outros, os relatos valiosos do Padre Antônio Vieira (1608-1697), jesuíta, erudito, além disso, diplomata versado, conselheiro e íntimo do rei de Portugal, D. João IV. Recebeu por seus dotes com a caneta Real o título honorário de "Imperador da Língua Portuguesa". Era autor de "Sermões", que até hoje são tidas como os mais belos da língua portuguesa. Nesses sermões, Padre Vieira descreve, cada historiador, cada tempo lhes impregna sua própria interpretação, a Amazônia da sua época com algo grandioso. De tão grande e com tantos povos que lhe pareciam um mundo à parte comparava o Amazonas ao “Rio Babel”, pois registrou que na bacia Amazônia se falava mais línguas do que se ouvia durante a construção bíblica da Torre de Babel! Fato que também permite tirar conclusões sobre a população indígena. Havia, de acordo com uma estimativa, provavelmente mais de 300 povos indígenas diferentes. Fatos tão inesperados, distintos que simplesmente não se encaixavam nos conceitos de civilização europeia daquele e de outros tempos.

Entregando farinha, porto de Santarém

Não tem boi, mas pirarucu

Contrariando, desacreditando os primeiros colonizadores e o próprio padre Vieira, que falavam em grandes populações, aldeias beira rio, habitantes numerosos, guerreiros muito bem treinados e alimentos abundantes, ao longo dos séculos, esses relatos foram negados, tidos como fantasiosos, falsos. Cegueira cultural. Parecia grandioso demais para ser verdade. Não se encaixavam nas hipóteses e imagens dessa parte do mundo que os naturalistas do século 19 traziam consigo quando chegaram aqui na Amazônia. Já sabiam que iriam encontrar um mundo primitivo, subdesenvolvido. Um mundo que precisava ser elevado e desenvolvido, onde isso não era possível, iria desaparecer, podia ser extinto. O mito da floresta amazônica virgem, intocada, sem habitantes e muito, menos culturas elevadas, surgiu aí.

Curva na estrada Santarém-Alter do Chão

Além disso, os historiadores simplesmente esconderam ou nem consideraram que os povos originários tinham sido dizimados de inúmeras maneiras. Tinha guerras colonizadoras brutais, escravatura e um inimigo invisível, extremamente eficiente e cruel – doenças, uma simples gripe já era suficiente, espalhadas muitas vezes propositais pelos colonizadores. Os naturalistas, uns com ideias bem claras de superioridade inferioridades, racistas, visto aos olhos de hoje, simples humanos eles também, e com isso preso dentro seus conceitos culturais. Que sorte ter nascidos do lado certo, no mundo civilizado. Mediam tudo com suas medidas, conhecidas e estabelecidas, aumentando ainda mais a cova que dividia o mundo em civilizados e os outros, os selvagens. É deles a hipótese que já que aqui na Amazônia não existiam mamíferos de grande porte, fonte de proteína importante, que poderiam ser transformados em rebanhos não poderiam ter tido qualquer tipo de civilização. Também não achavam vestígios nenhum de lavouras, monoculturas, a única maneira que conheciam para povos desenvolvidos e que podia assegurar o seu sustento. Além disso, achavam o clima pouco saudável, muito úmido e com isso completamente desfavorável para esse tipo de lavoura. Além disso, a Américas do Sul, o Brasil, imagina a Amazônia, era tido como o túmulo dos Europeus! Reinavam por ai a cólera, tifo, febre amarela e a onipresente malária, mortal para muitos aventureiros brancos. Supunham que nesse clima desfavorável só podiam existir e sobreviver povos nômades que mal se conseguiam alimentar! Não sabiam nada do piracui, dos quelônios e da farinha.

Barco da Nestlé no porto de Santarém

Mas peraí – quando vocês comiam pela última vez uma mojica, um bolinho de piracui? Comida simples, de pobre, não é? Se a gente olha do que vive a Amazônia, o Pará hoje, tudo tem suas raízes lá, nesse passado nem tão distante. As grandes economias do estado são “commodities”, minérios, energia, boi, soja, madeira, só 2% é aproveitado dos produtos da floresta. Um preconceito que já duro mais do que 400 anos.

Ônibus no interior da Amazônia

Preconceitos culturais que perduram até hoje

Essa ideia da floresta tropical, inóspita, um tipo de inverno verde para gente das cidades, separava e até hoje separa igual um gigante e impenetrável cinto protetor do Norte do restante do Brasil. Explica até certo ponto o desconhecimento das muitas Amazônias, Amazônias até hoje tão estranhas para sulistas quanto para os Europeus para quem mora hoje nessas terras. A ligação terrestre Belém-Brasília, construída na década de 1960, alterou pouco. Até então, o Norte do Brasil se alcançava só por navio ou avião. Na época da colonização, por razões puramente geográficas, era mais fácil navegar da Amazônia diretamente para Portugal que do resto do Brasil. Durante os primeiros 300 anos do colonialismo o Norte era, portanto, uma espécie de Portugal ultramarino, diretamente subordinado a Lisboa, isso desde a conquista dos portugueses até a fuga do rei português Dom João VI para o Brasil. Aproxima-se o Norte ao restante do Brasil somente a partir de 1808, após a colônia ter virado império. Mais uma vez o fausto se revelou fútil e a sorte passageira. No auge da borracha, no início do século 20, Belém e Manaus eram, por pouco tempo só, tidos como as cidades mais avançadas e modernas do Brasil, um país arcaicamente atrasado. As duas cidades brilhavam, eram uma espécie de Paris tropical, ricas, vanguardistas e totalmente cosmopolitas.

E você leitor! Você já parou para pensar sobre sua própria relação com a Amazônia? As ideias descritas acima estão perdurando, sobrevivem até hoje em nossas cabeças. No meio acadêmico já começaram a mudar por volta dos anos 1970, ou seja, ontem!

Calçada, Belém. As pedras foram trazidos como contrapeso nos navios vindos da Europa

Vale lembrar

A partir de meados dos anos 60 inicia-se no Brasil o cultivo da soja. No ano de 1970 começa a construção da Transamazônica, que corta o Brasil de oeste ao leste. Pretende-se, goela abaixo, enfim em definitivo conquistar o espaço “vazio” da região amazônica, visto como aquele inferno verde assustador. Como saída para não ter que encarar uma reforma agrária, inicia-se o apelidado de PIN (Programa de Integração Nacional), uma emigração maciça ao interior do Brasil que levava levas e levas de pobres-diabos, vítimas de inúmeras secas, de um Nordeste pobríssimo para o Norte, tudo de acordo com o lema que hoje soa quase irônico: Terra sem homens (Amazônia) para homens sem terra (Nordestinos). Integrar para não entregar – uma ocupação por meio do plano de integração nacional baseada na “pata do boi”. A floresta tropical é mais uma vez “conquistada”, desta vez por “garimpeiros”, aventureiros, pequenos agricultores, começa a especulação fundiária, o desmatamento é maciço. Os conflitos, não só com os indígenas, são travados de maneira que lembram em tudo o faroeste americano, à ferro e fogo. Domina a lei do mais forte, do mais brutal. Entre os anos 1950 e 1980 explode o números de habitantes do Brasil. O crescimento demográfico na Amazônia fica muito acima da média nacional – no mesmo período o número aqui cresce mais do que 500% com consequências graves para o meio ambiente.

Por sua vez, os recursos naturais do estado do Pará agora são explorados por meio de megaprojetos, porque na lógica militar se quer fazer do Brasil uma grande potência, para finalmente catapultá-lo para o mundo desenvolvido. A industrialização, creem, ajudará, além disso, a proteger o território. Como parte da “integração nacional”, surge a Zona Franca de Manaus e muitos outros projetos gigantescos tomam corpo. Mineradoras como a estatal Companhia Vale do Rio Doce, fundada em 1942, privatizada em 1997 e hoje entre as maiores produtoras de minério do mundo, são atraídas pelos baixos custos salariais e pelos baixos impostos onde a bauxita é extraída. E por aí vai. A região é considerada uma das mais abandonadas e pobres do Brasil. Há trabalhadores que são mantidos em regime de escravidão e em 1996 durante o massacre de Eldorado dos Carajás, oeste do Pará, em 1996, 19 sem terras, foram mortos pela Polícia Militar. Em 1973, constrói-se a rodovia BR 163, que liga Cuiabá à Santarém-Pará, para os protetores da floresta o maior símbolo do manejo errado e destrutivo da floresta. A partir de 1979, o Brasil passou a rever suas estratégias econômicas protecionistas, autoritárias e paternalistas, também em resposta às pressões internacionais, e começa a se abrir gradativamente.

Entre megalomania e culto a pessoalidade 

Megalomania, herança maldita

É nesse tempo que o mundo dá um salto. Os países até lá denominados subdesenvolvidos começam a olhar com outros olhos para si mesmos, sua história, reavaliando o seu passado. Lá se iniciam as pesquisas que atualmente reescrevem aos poucos a história da Amazônia. Na botânica, na arqueologia os pesquisadores começaram a perceber que para avançar, tinham que questionar toda sua bagagem acadêmica que dizia que os povos originários da Amazônia que não conheciam o gado, viviam de caça. Mas, se não havia caça suficiente, não haveria alimento para sustentar grandes populações. As riquezas dos rios com sua profundidade de peixes e quelônios, todos deliciosos foram simplesmente ignorados nesta equação. Fonte de proteína suficiente sim para grandes nações e civilizações avançadas também na Amazônia! Aqui não tinha boi, mas tinha pirarucu e outras centenas de espécies de peixes. A floresta amazônica que se tinha achado que virgem, intocada, não era nada disso. Perdeu sua virgindade quando se constatou que os povos originários cultivavam em toda essa floresta imensa! Escolhendo, favorecendo, manejando sistemas complexos de árvores e plantas que fornecem alimentos, materiais, medicamentos, verdadeiros SAFs que lhes garantia o ano todo sustento complementar. Além disso, conheciam o mecanismo de produzir terra preta e também os mecanismos do fogo e das cinzas para nutrir a mesma terra, tornando-a mais fértil. E aqui se fecha um ciclo e um olhar novo também se volta para aqueles tempos pré-cabralianos e os primeiros tempos da Amazônia sob as ordens religiosas.

Padaria, Manaus

Muito além da catequese - o papel das ordens religiosas, reavaliações constantes

Portugal tratava, por motivos diversos, todas as suas colônias com um mercantilismo rígido. A colônia do outro lado do oceano foi saqueada pelos séculos seguintes até enquanto poude. Tida como gigante fazenda extrativista, não recebia, não merecia qualquer investimento, poucas escolas, todas das ordens religiosas, nenhuma universidade, nem bancos nem jornais próprios.  Estigmas sob quais toda a região do Norte do Brasil, com poucas exceções, sofre até hoje. Pouco mudou da mentalidade de exploração, pouco se investe aqui. A Amazônia persiste com um tipo de fim do mundo, região distante, complicada, gigantesca, confusa. Explorar, retirar. Haveria uma outra saída para a Amazônia?

Essa pergunta leva a uma reavaliação do primeiro período colonial. Logo depois dos primeiros conquistadores terem se apropriado da Amazônia, as primeiras ordens religiosas chegaram e aos poucos ocupam a região. Para poder concretizar a sua missão, tinham, já no início do século 17, espalhados por toda a Amazônia por volta de 60 assentamentos fixos. Aqui em Santarém foi o padre João Felipe Bettendorf, jesuíta que no ano 1662 construiu uma igreja, tudo com um único fim de colocar ordem e catequizar e cristianizar os povos originários. Para obter sucesso com esse empreendimento gigante, perceberam a importância de aprender as línguas indígenas. Não só elaboraram dicionários com os idiomas nativos como também estabeleceram, mais tarde, a língua franca, a língua geral, o Nheengatu. Usavam como referência a gramática da língua portuguesa, integrando termos do português e espanhol com muitos dialetos indígenas. O Nheengatu era usado no cotidiano entre colonizadores, indígenas, escravos e colonos. Esse aprendizado tinha, visto de um ponto prático e logo também econômico, um valor inestimável.

Sementes trazidos pelo rio

Drogas do sertão – um negócio de ouro

Ouro. Os conquistadores não encontraram o tão cobiçado ouro, mas encontraram aqui, exatamente numa época em que o comércio de especiarias no Oriente estava em declínio, um tipo de substituto, as assim chamadas “Drogas do Sertão”, especiarias exóticas, resinas, nozes e peles. Juntaram o necessário, aprender a língua do outro com o seu dever, catequizar, com algo muito mais visionário. Especialmente a Jesuíta, a mais sofisticada das ordens, aprendem não só o idioma nativo, mas junto tudo sobre o bioma amazônico. Acessam de repente um vasto conhecimento sobre plantas, remédios, alimentos, tudo o que se precisava para sobreviver na floresta. De modo inteligente, logo enxergaram possibilidades comerciais gigantes. E ai o pulo do gato. Os jesuítas estabelecem um vasto intercâmbio dos produtos da floresta, as drogas do sertão. Inserem os mesmos produtos numa rede mundial já estabelecida e muito bem controlada. Uma rede com registro do cultivo, coleta, processamento, transporte e por fim exportação. Não só se aproveitaram de tudo que a Amazônia oferecia, sempre dentro do já muito bem estabelecido extrativismo, nunca em monoculturas, mas também enxertam esses novos conhecimentos com outros tradicionais, com inovações e invenções. Conheciam e respeitavam muito bem os ciclos do bioma amazônico. Da região saía muita mercadoria, cacau, salsaparrilha, cravo, baunilha, quina, madeiras nobres, sempre respeitando o ritmo do bioma. Eram pioneiros que inovaram, introduziram no mercado externo novidades, novas materiais baseados na biodiversidade amazônica.

Assim, logo sua influência vai muito além da conversão de almas inocentes. São os Jesuítas que fundam a Missão Maranhão e Grão Pará da Companhia de Jesus. Portugal os entrega todo comércio ultramarino. Significa que os Jesuítas agora desempenham realmente um papel decisivo na geopolítica colonial, tornando-se, com as suas ligações mundiais, empresas comerciais globais. Não é só o Padre Vieira, jesuíta, que se impressiona com a Amazônia e as missões jesuítas no Rio Negro e outros rios da região. Isso gera uma pujança tão grande que essa logo atraiu o olho gordo de outros colonizadores, nem um pouco preocupado em catequizar alma alguma. 

Belém, igreja no centro, restos do Hotel Tropical, Manaus, Rio Negro e ruinas em  Paricatuba

O declínio

Portugal também se moderniza, pois em 1750 Sebastião de Carvalho e Melo, que mais tarde se tornaria o Marquês de Pombal, um Iluminista, ganhou poderes quase ilimitados. Pombal proíbe, em Portugal, a escravatura, reorganiza o sistema educativo e - o que é decisivo - retira das mãos da Igreja todo o comércio ultramarino. Envia uma expedição científica ao norte, chefiada por seu meio-irmão Francisco Xavier Mendonça Furtado, hoje uma avenida em Santarém. Ele está acompanhado por físicos, astrônomos, geógrafos, engenheiros e, entre outros, do arquiteto Antônio Guiseppe Landi. Pela primeira vez Portugal está a desenvolver um projeto econômico para a Colônia. Seguindo o exemplo das tradings holandesas e inglesas do Leste, é fundada a "Companhia das Índias Orientais", que herda dos jesuítas o monopólio comercial com a colônia. E por fim expulsa os jesuítas e outras ordens, que perdem todos os seus privilégios! Com isso, sem tomar nenhum partido, piorou, e muito, a vida dos povos originários. Tinham até aqui já sofrido todos os tipos de privação impostos pelos colonizadores, perderem agora seus protetores. A mercê da escravatura, dizimados por doenças contra quais não tinham nenhum anticorpo como uma simples gripe e outras doenças. É quando a Amazônia perde muito, sabedoria, cultura e conhecimento ancestral.

A mão de ferro do Marques de Pombal não só expulsa definitivamente no ano 1759 as ordens religiosas do Pará, mas também aportuguesou a Amazônia. O português se torna a língua oficial. Logo em seguida, já por volta do ano 1780, os negócios na Amazônia diminuíram e a colônia empobreceu. Em 1778 a Companhia de Comércio do Grão-Pará e Maranhão foi dissolvida e o Marquês de Pombal cai em desgraça. Na Europa estouraram uma série de guerras e a colônia além-mar não vai bem até que, em 1807, após o fracasso de sua política de balanço entre a França e a Inglaterra, o rei Don João VI é forçado a fugir das tropas de Napoleão, chega escoltado pelos ingleses à colônia Brasil, iniciando assim uma era completamente nova.

 

Muro em Santarém

Nasce o caboclo

Enquanto isso, nos interiores vastos da Amazônia, muita sua gente vive e sobrevive. Com a expulsão das ordens religiosas os colonizadores forçaram também os casamentos inter-étnicos. Uma colonização quase só masculina, exporta para a colônia todo tipo de gente, além dos escravos, substituindo a mão se obra indígena aos poucos. Quem quer saber mais, leia o Mulato do Aluísio de Azevedo, publicado em 1881. Lá todos esses protagonistas são retratados. Cria-se no Norte uma paisagem étnica e inter-racial bem distinta do restante do país. Nasce o caboclo, substituindo em parte os povos originários, aproveitando ao máximo o conhecimento deles, suas tradições, mas também incorpora muito do colonizador, nasce um povo tradicional, bem amazônico! Com um pé na colônia, onde ainda caça, uma casa no campo ou na várzea onde dorme na rede e planta uma roça quando a águas estão baixas e outro na cidade, para onde manda os filhos estudar. Nele diversas raças se misturam sem muito preconceito, convivem e lidam muito bem com as heranças e sabedorias deixados pelos povos originários. Adaptam-se a selva, aproveitando-se das sabedorias e conhecimentos sobre o bioma amazônico, dando continuidade de conviver em paz e certa prosperidade com esse bioma complexo, preservando muitos costumes herdados dos povos originários. A borracha, por exemplo, são eles que sabem como tirar. São eles que sabem melhor lidar com a floresta e todas suas adversidades. Esse campesinato amazônico permaneceu quase inalterado até os anos 1970 e tem regras e convívios bem particulares.

Terreno desmatando com o objetivo de plantar um projeto agroflorestal, perto de Oriximiná

Pupunha contra a ditadura do alface

Para fechar o ciclo – quem sabia mesmo lidar com a Amazônia eram os povos originários. Um dos exemplos é a famosa terra preta que muitos já usaram para plantar no seu quintal. Mesmo que a floresta já produz literalmente a sua própria terra, as manchas de terras pretas existentes não se formam naturalmente, mostram claramente vestígios das mãos humanas. O clima local muito úmido favorece a atividade de enriquecimento do solo pobre com matéria orgânica de maneira razoavelmente rápida. Quem se aproveitava disso eram os ancestrais daqueles povos primeiros. Conheciam como ninguém os ecossistemas locais e sabiam usar em seu favor. Um bioma que suporta muito mal a monocultura, a única que os colonizadores e seus seguidores julgavam a única maneira economicamente viável de plantar. O melhor exemplo é a história fracassada da borracha. Mas a gente insiste. A ditadura do alface é muito persistente.

Hoje há registros do consumo do açaí que datam de 1000 anos atrás. Outras palmeiras estão sendo “cultivadas” aqui na Amazônia há 5.000, 10.000 anos. Açaí até pouco tempo atrás era conhecido com comida de pobre. Farinha, é, como Xangai diz na música dele, se a farinha fosse americana.... Se a gente olhar em volta, o que vemos? Monocultura, os chineses devem estar muito tristes, porque lhes foi roubada a soja! E mais, tem gado, dendê. Algum de nós tem orgulho da pupunha maravilhosa, do quinino que salvou tanta gente da malária, moléstia que devastava também a Europa? A batata supostamente inglesa? Que a revolução industrial só foi possível graças à borracha, essa sim, roubada daqui de Santarém!? No lugar de chorar pelo leite derramado há muito tempo deveríamos ter dirigido nossos olhos para a nossa selva, a Amazônia. Quem além da gente pode dar valor a ela? Valores que vão além de minérios, soja, dendê e gado!

Docas, Belém

Combater a própria cegueira e se orgulhar da selva

Vamos procurar e retirar primeiro o cisco do próprio olho. Preencher com muita pesquisa e ciência o gap entre conhecimento do cotidiano amazônico, a sabedoria popular, que está desaparecendo. Descontinuado, sumirá mais rápido ainda, já que nas cidades ninguém o dá o devido valor. Construímos porto, estrada e o tal de progresso chega rapidinho passando por cima de tudo. O que falta aqui na Amazônia são registros sistemáticos.

O baixo investimento em pesquisa é um fato lamentável, mas poderia ser contornado se a própria Amazônia olhasse com mais carinho e sabedoria para si própria. O conhecimento popular desaparece a olhos vistos e o conhecimento científico avança ainda pouco em novas áreas do bioma.

Ninguém ainda solucionou como lidar com a sazonalidade de muitos produtos. A entressafra traz problemas específicos. Máquinas e mão-de-obra precisam ser ocupadas e outras maneiras. Devem ser desenvolvidos usos multipolos da floresta, ajudar aos produtores à não depender de um produto só e com isso preencher as entressafras. Também seria de muita valia resolver problemas da rastreabilidade dos produtos. Ou saber muito bem como preparar as comunidades para lidar com os novos desafios.

Um passo simples, mas extremamente valioso, seria agregar valor à produtos que já são coletados. Muitos e muitos extrativistas iriam se beneficiar. Preço e qualidade são gargalhos e obstáculos quase invencíveis onde a academia poderia fazer toda a diferença, igual no beneficiamento do produto in loco gerando o tal valor agregado. Melhorar processos já existentes, tudo com a visão de entregar uma qualidade superior, melhorada, traria preços melhores que enfim permitiriam gerar aquele fluxo de caixa e capital de giro que muitos não conseguem, ainda, produzir.

Aeroporto de Belém. As caixas de isopor contém comidas amazônicas

Uma vasta gama de possibilidades

Por outro lado, estamos em frente de desafios e potencialidades gigantes, tentar interagir em áreas de conhecimento distintas para o conhecimento do cotidiano específico amazônico, só na nossa volta, nas cidades. Como é possível que uma cidade com Belém, na qual chove 250 dias por ano, ainda não tem resolvido por conta própria o seu problema gritante com os esgotos? E tem nos interiores ainda muita gente não só privada de água potável ao lado do rio, mas também de energia elétrica. A acadêmica poderia estudar como se mantinha as casas frescas antes do ar condicionado e do concreto e com isso propor soluções ecológicas e inovadoras, também para o lixo e os sistemas de transporte e por aí vai.

Todos devem contribuir para manter a floresta em pé. Vamos tentar conviver mais com a Amazônia, viver da Amazônia, descobrir a Amazônia, contribuir com a Amazônia! Todo dia um pouco. Vamos interromper essa guerra contra a natureza tão selvagem. Está em nossas mãos de aprender o que e como fazer da nossa biodiversidade única o nosso maior trunfo, fazer dela um exemplo para todo o Brasil. A Amazônia oferece oportunidades extraordinárias, estudemos a sociobiodiversidade florestal e o que pode oferecer para a sociedade! Vamos optar pela bioeconomia, um dos negócios mais avançados que existem no mundo atual!

A casa feliz nem o bar Realidade fazem mais parte das cenas santarenas

O BOTO - Alter do Chão
Susan Gerber-Barata
Susan Gerber-Barata Seguir

Suíça com passagem por design e jornalismo de moda. Apaixonou-se tardiamente pelo Brasil e mais tarde ainda pela Amazônia, especialmente a culinária amazônica. Cozinha, escreve e fotografa livros, uns sobre culinária amazônica.

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