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A Tribo do Sol em Alter do Chão

A Tribo do Sol em Alter do Chão

 

"A paz começa com um sorriso". - Madre Tereza de Calcutá

Todos os sábados ela está na feirinha agroecológica de Alter do Chão. Uma moça nascida entre girassóis no dia do meio ambiente. Sua família é toda de Holambra, município do interior de São Paulo conhecido pelo cultivo de flores e com forte influência holandesa. Denise cursou Artes Plásticas em Florianópolis e acompanhou por um ano todas as aulas de Anatomia de outro curso. Seu amor pela arte e interesse sobre o funcionamento do corpo humano tinha outro porvir: a cura pela alimentação. 

Tábua de queijos crus e ricotas de base vegetal, pães essênios e crackers solares desidratados no forno solar. 

Denise mora na Amazônia há mais de 8 anos. Trabalhou por anos com alimentação slow-food no Peru e soberania alimentar no Xingu, além de ser dona de restaurante na cidade. Hoje ela é sócia da cooperativa agroflorestal Campo em Movimento de Belterra, no Pará, e participa todos os sábados da feira de Alter do Chão com alimentos artesanais vivos baseados em plantas que ela "cria" na Tribo do Sol, projeto que teve início em Altamira anos atrás.


Cooperativa de mulheres: Denise, Mazé, Lindalva, Ilaine, Maria

"É preciso garantir mais oferta de alimentos frescos, naturais, da estação e livres de venenos para todas as pessoas. Precisamos aumentar, de forma eficiente e sustentável, o acesso a alimentos que contribuem para uma melhor alimentação, como frutas, verduras, legumes, sementes e grãos integrais", explica Denise em mensagem para os participantes da Tribo.

Denise na Cozinha do Sol, espaço para preparação de alimentos na Tribo do Sol, oferece uma refeição baseada em plantas, viva e crua

Para ela, uma peça-chave para garantir acesso aos alimentos locais frescos é criar, estimular e fortalecer circuitos curtos de comercialização de alimentos saudáveis, em tendas e feiras para abastecimento locais. Outro eixo fundamental é disponibilizar mais informações sobre a produção local e, de maneira oportuna, fornecer dados que as indústrias tentam esconder sobre produtos industrializados e ultraprocessados.

Francisca trabalha na feira do Mercadão2000, em Santarém, e Denise compra castanhas do Pará cruas que ela descasca diariamente. As castanhas são usadas no queijos veganos. 

"A Revolução Verde no pós-guerra tinha como objetivo acabar com a fome do mundo. No entanto, seu modelo tem provocado desmatamento, monoculturas, uso de venenos, padronização do que as pessoas comem, desenvolvimento de vícios alimentares, dependências de açúcar e muitas doenças. A oferta de produtos altamente processados vem substituindo os alimentos frescos e naturais. Isto é uma grave ameaça já que as enfermidades crônicas relacionadas à má alimentação são a principal causa de mortes no mundo todo. Isso é segurança alimentar?", provoca Denise. 

Denise oferece aulas na Cozinha do Sol em Alter do Chão, todas às segundas. Há cinco anos, sua missão é ensinar sobre como a alimentação baseada em plantas, viva e crua fortalece o corpo, deixa a mente mais afiada e acalma nossos sentimentos, atuando como um determinante da saúde

As estratégias de negócios da indústria alimentícia, da agricultura industrializada (agronegócio) e da indústria farmacêutica que funcionaram no século passado foram desenhadas para o crescimento global acelerado de poucas grandes marcas como Nestlé, Coca-Cola, Cargill, JBS, indústria farmacêutica… não para melhorar a saúde da população do mundo. Como resultado, atualmente, essas mesmas empresas multinacionais controlam as ofertas de produtos viciantes e remédios num círculo vicioso mundial, além de exercerem forte influência nos governos dos países, com lobbies e corrupção.  Atualmente, com o mundo adoecido , tais práticas estão expostas, pois já é evidente que representam uma ameaça para a humanidade.

Estamos passando por um momento de grande reflexão e transformação, onde a consciência ecológica ganha força diante da urgência de saúde e climática.

Assim como foi com a indústria do tabaco, hoje inúmeros relatórios e processos internacionais já cobram a responsabilidade jurídica desses grandes negócios pelo agravamento das mudanças climáticas, degradação ambiental, poluição, empobrecimento/envenenamento do solo, doenças dos trabalhadores do campo, epidemia de doenças crônicas nos consumidores urbanos, contaminação das águas e secas, além de crises em escala global. A pandemia de Covid-19 é a ponta do iceberg.

"Para compreender a disseminação do novo coronavírus, é preciso levar em conta a cultura humana (hábitos alimentares), a economia e o comércio globais, a espessa rede de relações internacionais, os mecanismos ideológicos de medo e pânico… A crise do coronavírus é um 'ensaio geral' para a mudança climática vindoura", trecho do livro "Pandemia", de Slavoj Zizek

E cá estamos de volta em Alter do Chão, paraíso amazônico que está a cada dia mais ameaçado pelo avanço desse modelo ultrapassado de agronegócio e da especulação fundiária. Como proteger o futuro de Alter quando não abrimos mão de hábitos que fortalecem o mecanismo da destruição, além de fazer mal à nossa própria saúde? Sim, porque esse mecanismo é validado a cada pacote de biscoito, doce, salgadinho, refrigerante industrializado que consumimos, a cada churrasquinho que comemos ignorando o desmatamento e todos os conflitos do campo por trás da produção animal na Amazônia. 

"Somos capazes de tudo, para tudo: estimular, acalmar, inspirar, mover, comover nossos sentidos e, isso tem relação com o que vibra em nossa direção. Esta crise pode ser uma enorme oportunidade para transitar uma nova agricultura e formas melhores de utilizarmos os recursos florestais. Para se tomar vantagem deste desafio, precisamos nos organizar e agir localmente e, também, reverberar com essas ações no plano global. Há necessidade em atuar com um sentido de urgência e levar a cabo mudanças imediatas em nossa região que nos permita avançar a sistemas alimentares sustentáveis e acessíveis para todas as pessoas", explica Denise.

Para ela, quando valorizamos movimentos comunitários como o da Feirinha Agroecológica de Alter do Chão, reduzimos a vulnerabilidade dos pequenos produtores familiares aos fatores externos, fortalecendo e legitimando os esforços para uma cultura de alimentação saudável. 

 

Aldeia Juruna, na região do Xingu, onde a Tribo do Sol começou mais de uma década atrás em trabalho com soberania alimentar

 

Alimentação sintrópica e viva

Denise propõe a alimentação em sintonia com a ecologia, consciente. Uma comida que promova mais vida-saúde para todos que fazem parte do processo, desde a plantação até a mesa. Mais vida-saúde para a pessoa que se alimenta, para a pessoa que produz o alimento e para o meio-ambiente. 

Eu estou há 6 anos fazendo uso do alimento vivo e posso contar pra vocês pra mim como foi. Faço 90% alimento cru e comecei por auxiliar as pessoas que frequentam minha Cozinha 🔆.
Uma amiga me apresentou o alimento vivo. Então experimentei e muito rapidamente vi resultados. As pessoas dizem que as terapias naturais demoram muito tempo. Comigo não foi nada disso: logo vi mudanças no meu corpo, mente e na minha situação. A animação para fazer as coisas foi aumentando muito, muito rápido também consegui organizar meu corpo que estava inflamado.

 

Denise com a chef Bela Gil e a nutricionista Neide Rigo em projeto para estimular o uso de farinha de babaçu na merenda escolar na região do Xingu

O básico da alimentação saudável é usar ingredientes naturais, frescos, locais e conhecer a origem deles, investigando os processos de cada coisa que está no prato, a história que a refeição carrega até chegar ao estômago. Este é um conceito de "comida de verdade" que todos os renomados chefs defendem: de Paola Carosella e Alex Atala até Bela Gil e Neide Rigo. Afinal, o passado de cada ingrediente também entra no preparo e é servido na refeição pronta. Hoje Denise dá um passo adiante no conceito de "comida de verdade". Além de ter certeza da origem dos alimentos, ela propõe uma alimentação baseada em plantas o mais frescas possíveis, sem degenerar a estrutura natural dos alimentos.

Denise feliz com sua Jaca, o que rendeu até um poema para este jornal.

Se puder fazer a colheita e comer, melhor ainda! O importante é reaprender a preparar receitas sem cozinhar/perder a vitalidade dos ingredientes. Nesse sentido, uma referência importante para Denise é o laboratório da Fiocruz chamado Terrapia, dedicado à alimentação viva e à agroecologia na promoção da saúde. 

"Aquilo que nos influencia e alimenta três vezes ao dia, sete dias por semana, trinta dias por mês é capaz de influenciar nossos genes e sua expressão. A maior parte das doenças que conhecemos se adquire por repetição de práticas nocivas. Nosso mais impressionante e complexo sistema de análise, o DNA, resiste quanto pode aos desafios nocivos, mas, de tanta repetição, acaba por se adaptar. A essa adaptação do DNA e suas consequências fisiológicas denominamos doença" - explica o doutor Alberto Peribanez Gonzalez, do Terrapia/Fiocruz

 

De maneira coerente com nosso discurso, Denise conversa sobre como cuidar da saúde do nosso corpo e criar uma nova cultura de cuidado com a natureza, escolhendo os alimentos que são preparados com respeito e equilíbrio e parando radicalmente de consumir aqueles que causam impactos e danos. Nós sabemos bem quais são. Dos industrializados e ultraprocessados que dependem da monocultura ao trabalho análogo à escravidão, aos produtos de origem animal que na Amazônia, inevitavelmente, estão ligados ao desmatamento, a dor e a morte. Laticínios inclusive.

Este é o mise-en-place do pão essênio dessa semana, a receita varia semanalmente a depender dos vegetais locais disponíveis, grãos e castanhas.  Nessa semana ela preparou o pão com trigo e linhaça germinados, brunoise de beringela e pimentão cozidos no limão e água solar; rodelas de quiabinho cru; castanha do Pará; resíduo do leite de coco com linhaça, cúrcuma e pimenta do reino.
 

Esses pãezinhos são secos em forno solar para preservar as vitaminas e minerais dos alimentos. Se assados no forno em altas temperaturas, todas as vitaminas são perdidas.

Na feirinha, Denise apresenta e oferece degustação do que fez na semana, tudo preparado carinhosamente na Cozinha do Sol do espaço que ela criou para a Tribo do Sol em Alter. Lá ela tem uma agrofloresta, com canteiros cheios de plantas pancs e flores.

Aqui Denise mostra para um casal de estrangeiros como é seu forno solar, que atinge desidrata sem cozinhar as vitaminas e minerais dos alimentos frescos.

Toda semana ela apresenta uma seleção diferente de queijos feitos com castanhas amazônicas e frutos da floresta, pães essênios com grãos germinados, crackers com sementes integrais germinadas, barras de massa de sementes de cacau nativo germinado e fermentado, brotos de girassol e de feijão amazônico, frutas nativas desidratadas, ricotas e patês diversos feitos com alimentos vivos e leites vegetais da floresta, kombucha… Oferece degustação enquanto explica o que é cada iguaria, sem pressa. Entre cá e lá, conta que é tudo vivo e que é tudo nosso. 

Por que alimentação baseada em plantas frescas faz bem e desintoxica o corpo? 

Denise explica neste texto que o corpo é uma máquina que precisa de um bom alimento para se manter saudável e forte, com energia.  Entre muitas leituras, ela explica a vida como fluxo de energia. Energia que entra e sai, que se movimenta. Energia do Sol que é usado pela fotossíntese das plantas, energia do Sol que é também usada no nosso corpo. 

Brotos de girassol que Denise cultiva para comer em saladas. No instagram, busque pela hash #microgreens e veja a febre que isso é no mundo, em feiras e também mostrando muita gente que está aprendendo a cultivar diariamente pequenos brotos vivos para servir em casa <3

 

"O reino vegetal não se importa de oferecer seus frutos, sementes, flores e folhas vivos, muito menos há sofrimento nessa oferta. Afinal, é a estratégia que o reino vegetal criou para se desenvolver na natureza. Oferece frutos, para que suas sementes sejam espalhadas. Oferece sementes, para que as germinemos e plantemos. Não há dor. Os frutos vivos da natureza também não causam asco em qualquer tipo de ser humano. E quanto mais rapidamente possam ser colhidos e consumidos, melhor para aquele que consome, pois os nutrientes solares estarão agindo sobre os sistemas vitais, acelerando as reações enzimáticas.  - trecho do livro "Lugar de Médico é Na Cozinha", do médico Alberto Peribanez Gonzalez, do Terrapia/Fiocruz.  

A comida industrializada, processada e pasteurizada, por outro lado, elimina a estrutura natural dos alimentos. Tudo está desnaturado: farinhas, amidos, açúcares, gorduras hidrogenadas, carnes, laticínios. Tudo está, de fato, sem energia vital e também carregado com vibrações que não são mais a da natureza, mas a de processos, com doses de informação sobre desmatamento até trabalho escravo. Isso também entra no corpo.

 

Rótulos disfarçam essas rações inertes que proliferam em todas as prateleiras dos supermercados e são consumidas diariamente pelas populações urbanas ao redor do planeta. Sob a insígnia da praticidade, esses produtos vão para o prato daqueles que acreditam estar "ganhando tempo" nas grandes e pequenas cidades. Mas o tempo ganho no preparo desses alimentos sintéticos e semiprontos será dispendido nas intermináveis filas de postos de saúde e hospitais.

 

Denise preparando o Buriti para usá-lo em queijos e patês vegetais crus

"A nutrição precisa sair da sua postura passiva em relação à medicina e meditar sobre uma nova alimentação probiótica (que contém bactérias vivas), prebiótica (que alimenta essas bactérias) e simbiótica (que trabalhe em conjunto com as bactérias  na construção da fisiologia e da saúde). Por sorte, já existem várias iniciativas em andamento com o nome de nutrição funcional." - trecho do livro "Lugar de Médico é Na Cozinha", do médico Alberto Peribanez Gonzalez, do Terrapia/Fiocruz.   

 

Tábua de queijos veganos crus, ricotas de castanhas e crackers solares.

Seu convite semanal é de uma alimentação que saudável e, também, coerente com o momento crítico ambiental que vivemos. Ela apresenta a todos a alimentação vegana com base em alimentos crus e vitalizados.

 

"As plantas fazem fotossíntese ao estenderem suas folhas ao sol para captura de fótons. Alimentos frescos e crus apresentam bioluminescência, guardam propriedades fitoquímicas, nutracêuticas, antioxidantes e enzimáticas. Ao serem retirada da origem, as folhas passam a emitir fótons (que até então capturavam) de forma decrescente e hiperbólica. Grande parte da oferta luminosa para o nosso metabolismo pode e deve vir de uma alimentação crua e fresca, abastecida de propriedades naturais e fótons. - trecho do livro "Lugar de Médico é Na Cozinha", do médico Alberto Peribanez Gonzalez, do Terrapia/Fiocruz.  

Suco verde com chantilly de linhaça germinada, cúrcuma e pimenta do reino. 

Os sucos verdes, também conhecidos como leites da terra, são indicados pela Fiocruz como tratamento para uma série de infecções e inflamações do estômago, intestino e sangue. 

A alimentação crua (raw food) e sucos vivos são hoje uma febre de Hollywood a Paris, tendo estrelas do cinema explicando como o alimento vivo trouxe reais mudanças no corpo, mente, estado de espírito e vitalidade. Busque no Instagram #rawvegan (raw, é cru em inglês) e encontrará centenas de dicas.  No Brasil, siga a tag #crudivorismo para descobrir perfis e ver pratos lindos com receitas que você nunca imaginou antes! 

 

Mousse cremosa de cacau cru germinado com abacate sobre lascas de coco e mel de jandaira.

As sobremesas vivas e sem açúcar que Denise prepara também são bombas de saúde. Ela aponta caminhos para que todos nós ousemos descobrir a/o chef da cozinha que está dentro de nós, que sabe da energia vital dos alimentos e pode redescobrir sabores e combinações dos ingredientes frescos, inventando receitas coloridas, bonitas e saudáveis. Denise estimula e lembra que a vida é o mais sensacional.  

"Tudo o que precisamos fazer é acordar e mudar o mundo" - Greta Thunberg

 

Serviço:

Tribo do Sol Alimentação Viva: (093) 999.014.307
ou aos sábados na feira agroecológica de Alter do Chão

O BOTO - Alter do Chão
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