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Vidas e o por-do-sol no horizonte de dados

Vidas e o por-do-sol no horizonte de dados

Alter do Chão está de parabéns. Foi o que me disse Kleber Costa, administrador distrital, quando perguntei se aqui na vila, com todo esforço comunitário e união, os moradores tinham conseguido atingir a meta do lockdown. Aqui, superamos 70% de distanciamento social. Alter dá o exemplo: proteger os moradores da vila é proteger a própria história, assim como proteger as comunidades da Flona, da Resex e dos rios. Os moradores dessa região vivem principalmente de ecoturismo de base familiar. Nessas famílias, muitos fazem parte do grupo de risco. Que a postura de Alter como comunidade referência no combate ao covid19 ecoe pelo Tapajós. Os turistas passados e futuros estão torcendo por nós.

Resolvi escrever esse texto porque passei a manhã debruçada sobre os dados dos boletins diários da prefeitura e notícias de jornais. São tantos números e notícias, que é fácil perder o rumo. Para me guiar nesse mergulho, enumerei 10 perguntas que gostaria de saber responder. Por favor, se você tiver mais perguntas, sinta-se convidado a colocar nos comentários. Também, se por acaso me equivoquei em alguma resposta durante essa pesquisa, sinta-se à vontade para esclarecer. 

01. Já conseguimos estabilizar o número de óbitos em Santarém?

A medida de bloquear atividades não-essenciais foi tomada pela prefeitura e pelo governo do Estado porque se fazia urgente: projeções apontavam o rápido crescimento de casos na região e risco de colapso do sistema de saúde em semanas. Grande parte da população se uniu em esforço coletivo para seguir o decreto e orientações, que foram claros: pela vida, por favor, fiquem em casa por alguns dias. É uma situação difícil para todos, mas precisamos fazer nossa parte como sociedade para ajudar a controlar a subida repentina de casos. Essa subida precisa ser mais lenta, não dá para ficar todo mundo doente ao mesmo tempo. A única forma de diminuir a circulação do vírus, é diminuindo a circulação de pessoas por um período. Para termos resultados rápido e sairmos logo dessa situação, a maioria não basta, precisamos estar todos juntos nessa. É impossível surfar sozinho na onda epidêmica, as consequências são desastrosas. O lockdown só funciona se todos nós entendermos que, como sociedade, no cenário crítico de emergência, todos precisamos ajudar a estabilizar e achatar a curva de crescimento.

Só no boletim da sexta dia 29 foram 15 óbitos; na quinta, dia 28, outros 6 óbitos. Desde o início do lockdown em 19 de maio, o número de mortes foi de 30 para 89, um crescimento de quase 200% durante o bloqueio total de atividades não-essenciais. Ao levar em conta os dados divulgados pela prefeitura desde o dia 19 de abril (gráfico abaixo), o número de óbitos de vítimas de Covid19 foi de 5 para 89 em pouco mais de um mês, um crescimento de mais de 1600%. 

 legenda: em azul, o número de mortes por dia; em vermelho, o número acumulado de mortes no período. a linha vermelha está em evidente crescimento.

Em outros estados brasileiros, algumas cidades estão planejando flexibilizar medidas de distanciamento social à medida que conseguem estabilizar por algumas semanas de casos e garantir capacidade hospitalar. Aqui em Santarém, veja como crescem as notificações:

legenda: em azul, o número de notificações acumuladas no período. a linha vermelha mostra os casos confirmados, ou seja, dentre os casos notificados, o que fizeram testes e tiveram positivo. 

Infelizmente, por causa da baixa adesão ao pedido do prefeito e governador, também não conseguimos estabilizar as notificações. Desde o início do lockdown em 19 de maio, o número foi de 2433 para 4134, um crescimento de quase 70%. Ao levar em conta os dados divulgados pela prefeitura desde o dia 19 de abril (gráfico acima), o número de notificações de suspeitas de Covid19 foi de 298 para 4134, um crescimento de mais de 1200%. 

02. O que sabemos sobre o avanço da epidemia de Covid-19 nas comunidades e, também, nos municípios que tem Santarém como referência hospitalar?

Ainda em abril, o Ministério Público do Pará pediu mapeamento por incidência de casos do novo coronavírus por bairros e comunidades alegando caráter pedagógico: a população poderia perceber o avanço da doença e entender a necessidade de prevenção. 

No começo de maio, foram feitos pela prefeitura alguns mapas informativos, todos ainda com foco na cidade onde havia mais concentração de casos. Essa foi uma ferramenta de conscientização bastante útil, pois permitia fácil visualização de áreas com muitos casos (como gráficos do tipo "mancha de calor"), preservando a privacidade dos pacientes. Infelizmente, com o avanço dos casos para outras comunidades, o modelo de mapeamento foi descontinuado.

Sabemos através das notícias:

“Verificando a situação do paciente, não podemos deixar ele passar a noite inteira com falta de ar, e ir socorrer ele só pela manhã, por volta do meio dia, sendo que chegaria a cidade por volta das 17h”, explicou coordenador do Samu, Joziel Colares.

Também recebemos via grupos de Whatsapp o encaminhamento de uma nota de pesar do ICMBio sobre falecimento por Covid-19 na Flona Tapajós, mas não encontrei notícias sobre isso.

Não é possível levantar a situação de crescimento de casos na região dos rios, na Flona Tapajós e na Resex Tapajós-Arapiuns uma vez que esses dados não são divulgados separadamente. O que sabemos é que existem centenas de comunidades ribeirinhas. Algumas já tem casos. Já tivemos pessoas que chegaram de barco até Alter em busca de ajuda para serem encaminhados para Santarém. Foram compartilhadas fotos e mensagens nos grupos de Whastapp sobre isso. Cresceu muito também o número de pessoas que estão vindo para a vila pegar o auxílio no caixa 24h e ponto da Caixa Econômica Federal no Mingote.  

Para não repetir o erro do Amazonas, pois serve muito bem de exemplo de como acontece a interiorização do vírus, vamos analisar o que aconteceu lá. Sabemos que no começo de maio Manaus perdeu o controle dos casos no interior. Em poucas semanas, Manacapuru liderava o coeficiente de incidência de Covid-19 de todo país (na ocasião, 585 casos confirmados, com um coeficiente de 565,84) e Santo Antônio do Içá estava em segundo lugar (o coeficiente de incidência expressa o número de casos novos de uma determinada doença durante um período definido, numa população sob o risco de desenvolver a doença).

O que podemos aprender a partir desse erro para não repetí-lo? Ou controlamos a interiorização do vírus, ou ele pode se espalhar muito rápido. Sexta (29), os municípios de Santarém, Itaituba, Oriximiná e Juruti juntos já registravam 80% dos casos de mortes no Baixo-Amazonas, segundo dados da Secretaria de Estado de Saúde Pública do Estado.

03. Como o sistema de saúde está organizado hoje para atender pacientes de Covid19?

Pandemia. Desde 11 de março, de uma hora para outra, todas as cidades do país e do mundo tiveram que se preparar para o crescimento de casos. O que deixou o país em uma situação um pouco menos caótica que os Estados Unidos, é que aqui temos o Sistema Único de Saúde (SUS), uma rede “pública, integral, gratuita, de qualidade e acessível a toda a população” espalhada no país. Porém, cidade nenhuma do mundo estava preparada para o novo coronavírus. Em Santarém e região Oeste do Pará, tanto a prefeitura como o governo do estado trabalham em esforço conjunto. O que já temos organizado de forma emergencial e rápida até agora:

  • HOSPITAL DE REFERÊNCIA: HRBA* (Santarém, bairro Diamantino, unidade de referência para 28 municípios do Oeste do Pará para atender mais de 1,2 milhão de pessoas)
    - Ampliação do número de leitos exclusivos para casos de Covid19: no momento, são 35 leitos de UTI para adultos, 4 para crianças e 1 para recém-nascidos (com previsão de criação de mais 20 leitos de UTIs para adultos nas próximas semanas), 47 leitos de internação exclusivos para Covid19 e espaço exclusivo na enfermaria para 15 pacientes;
  • HOSPITAL DE CAMPANHA DE SANTARÉM: HCS** (Santarém, no Parque da Cidade, bairro Aeroporto Velho)
    - 120 leitos e 15 UTIs, além de transporte aeromédico;
  • UPA 24h** (na Curua-Una, no bairro São José Operário)
    - Construção de tenda para triagem de casos suspeitos, com exame de sangue e imagem; o espaço tem 17 cadeiras e fica na frente do 8º BEC ;
  • UNIDADES DE ATENDIMENTO DESCENTRALIZADO PARA SÍNDROMES GRIPAIS -
    - 25/05 na Escola Princesa Isabel (bairro Nova República) 
    - 15/05 na escola Ubaldo Correa (bairro Santarenzinho, na rodovia Fernando Guilhon);
    Em menos de 15 dias, mais de 7 mil pessoas já foram atendidas nessas unidades.
  • As Unidades Básicas de Saúde (UBS) urbanas, UBS nas florestas (21), UBS na região dos rios (32), as UBS fluviais (Abaré I, II e Netinho), as 6 Unidades Básicas 24h (UBS-24), o Pronto Socorro (PSM), além do Hospital Municipal (HMS, que tem 220 leitos e 7 UTIs para todos os outros casos), fazem o atendimento primário ou emergencial, encaminhando quem precisa de internação para o Hospital de Campanha ou HRBA.
  • Agentes comunitários de saúde familiar fazem acompanhamento de casos em isolamento domiciliar, um número que só cresce a cada dia (veja resposta da pergunta 6).

04. Como anda a testagem? 

Se no Brasil inteiro falta testes, aqui em Santarém não seria diferente. Então, sabemos que os números confirmados divulgados oficialmente estão abaixo da realidade, são subestimados. Todos os números, nacionais, estaduais e municipais estão menores. Isso é um fato.

POR QUE É IMPORTANTE TESTAR?

A ideia de fazer testes em toda população não é simplesmente dizer quem está salvo (até porque a pessoa pode se infectar depois de testada). A ideia de fazer testes em todos, com regularidade, é identificar rápido os casos que podem transmitir vírus e isolá-los, evitando assim que mais pessoas se contaminem. Sem testes em massa, temos confirmado casos somente depois que pacientes estão com sintomas, ou seja, depois de dias que já estão espalhando vírus por aí. Muitas pessoas podem não desenvolver sintomas e também estar espalhando vírus sem saber. 

SITUAÇÃO DOS TESTES NO PARÁ E EM SANTARÉM

Quarta (28), notícia divulgada no G1 alertava que "Pará deixou de registrar quase mil mortes de Covid-19 e número total ultrapassa 2,5 mil, diz Secretaria de Saúde".  Isso acontece justamente porque estamos sem capacidade para testar em tempo hábil todos os casos notificados. Segundo a Secretaria Estadual de Saúde, o Pará fez 27.769 testes até dia 27.

Aqui em Santarém, já são mais de 4000 notificações de casos suspeitos e pouco menos de 1500 confirmados. Isso não quer dizer que 2500 são negativos, porque ainda falta testes para todos, até mesmo para os profissionais de saúde.

Além de testes rápidos e PCR, a cidade tem também confirmado casos pela comprovação clínica epidemiológica (ou seja, quando o paciente com sintomas vive em contato com casos confirmados). Ontem, em visita a Santarém, o governador estabeleceu um convênio com a OS* que gerencia o HRBA para que os exames laboratoriais possam ser feitos no próprio hospital, sem precisar mandar material para Belém. A estrutura deve ficar pronta em breve.

Domingo passado (23), a Secretaria de Saúde de Santarém (Semsa) fez testagens no modelo "drive-thru" para 500 casos suspeitos. Essas pessoas foram encaminhadas para a testagem no estacionamento de um shopping da cidade. No início do mês (5), a Semsa já havia iniciado testagens no mesmo esquema no estacionamento da própria secretaria, mas a ação precisou ser interrompida porque muitas pessoas estavam chegando à pé ou pegando corridas com motoboys na região.

05. Como as pessoas que moram em lugares com difícil acesso à internet estão sendo informadas?

Será que as pessoas nas comunidades nos rios estão tendo acesso a campanha de prevenção e cientes do avanço da epidemia?  Quem já visitou a Resex e a Flona sabe muito bem que não é raro ficar totalmente sem sinal no telefone, que muitas vezes é necessário andar até uma área com sinal longe da vila para trocar mensagens. A Prefeitura, o governo do Estado, diversas organizações não-governamentais, artistas e muitos moradores estão fazendo um grande esforço de comunicação nas redes sociais, principalmente no Instagram, Facebook e Whatsapp. Alguns estão produzindo material próprio, outros replicando material existente. No geral, todo material é muito bom e informativo, até os produzidos por outras cidades do país. A campanha no Instagram da Prefeitura de Santarém está excelente, a de Belterra também, de São Paulo, de várias universidades, da FioCruz. Mas será que as pessoas sem acesso a internet ou com planos de dados limitados estão recebendo informação de qualidade de forma regular?

Devido à dificuldade de acesso das comunidade rurais aos meios de comunicação audiovisual, o MPPA/Promotoria de Justiça de Santarém (por iniciativa da promotora Ione Nakamura) tem feito alerta a comunidades rurais sobre covid-19 com mensagens de áudio. Desde 15 de maio, o MPPA alerta que é importante informar as comunidades ribeirinhas também por outros meios, com distribuição de cartilhas ou programas de rádio de veiculação regular. Nesse sentido, a música criada pelo mestre Chico Malta aqui para Alter em abril já está sendo tocada nas comunidades! Parabéns, Chico. <3

Para ajudar que as dicas sobre prevenção chegue a todos, participe, ligue para pessoas que você conhece nas comunidades para saber como estão as coisas e dar notícias, explicar a importância de nesse momento todos seguirem as medidas de prevenção. Compartilhe essas imagens de prevenção que estão sendo produzidas por muitas pessoas.  

06. Como é o acompanhamento dos pacientes em isolamento domiciliar?

Já são de 1532 casos confirmados (que foram testados e tem Covid19) e desses 535 em isolamento domiciliar. Entre os não confirmados, temos mais 45 pacientes em isolamento domiciliar. Um mês atrás, os agentes comunitários tinham que acompanhar 36 pacientes, em um mês esse número subiu para 580, ou seja, o número de pacientes foi multiplicado por 16 vezes! São os mesmos agentes tendo que dar conta de uma explosão de casos que precisam ser visitados. 

legenda: em vermelho, acompanhe a evolução este mês do número de pacientes confirmados; em azul, o crescimento de pacientes em isolamento domiciliar.

Outra pergunta que precisamos saber responder é: desses 580 pacientes em isolamento domiciliar, quantos estão sendo medicados desde o dia 18 de maio? Onde encontramos esse número? Sem entrar na polêmica do protocolo para tratamento inicial, vamos falar sobre o que é unanimidade: tal medicação pode trazer efeitos colaterais e até por isso o paciente precisa ser bem informado e consentir. Como agentes locais podem avaliar o surgimento de efeitos colaterais?

07. O que foi divulgado sobre a capacidade do sistema?

Em grandes cidades brasileiras que estão enfrentando o crescimento da epidemia antes da gente, a taxa de ocupação nas UTIs é o principal balizador para flexibilizar as medidas de distanciamento social.  Então, vamos começar pela análise da capacidade das nossas UTIS aqui em Santarém.

Em todos os boletins diários até o dia 26 de maio (terça-feira), a prefeitura divulgava a ocupação dos leitos de UTI do URBA separados: os que eram casos confirmados e os que eram casos em análise. E também divulgava os casos que estavam internados na clínica separadamente. No dia 26, tínhamos 32 pacientes em UTIs (o hospital tem 35 UTIs), uma taxa de ocupação de 91,4%. 

legenda: na divulgação oficial do dia 26 estão listados 23 pacientes confirmados na UTI mais 9 pacientes em análise também na UTI, o que totaliza ocupação de 32 dos 35 leitos.

Nos dia 2728 e 29 (veja boletins abaixo), a prefeitura criou uma nova categoria mista: "internados", juntando casos clínicos e de UTI. O primeiro estranhamento ao comparar os novos boletins com o de quarta-feira 26 é o desaparecimento dos 23 pacientes confirmados que estavam na UTI. As internações em UTI dos confirmados tiveram crescimento de 360% só em maio e pediam atenção de todos, inclusive da sociedade para respeitar e entender a necessidade de lockdown.

Infelizmente, no texto que acompanha os boletins, não foi apresentada qualquer justificativa para a mudança na apresentação dos dados. Desde quarta-feira, 27 de maio,  a nova categoria mista é aplicada na descrição dos casos confirmados sem ser igualmente adotada na descrição dos casos em análise. Lá, ainda consta os casos em UTI separados dos casos que estão na clínica, sem o uso genérico da nova categoria "internados".

O novo modelo dificulta comparação de dados e, em situação crítica, o acompanhamento de todos da taxa de ocupação de UTIs. Três dias atrás estávamos perto da capacidade máxima, com mais de 90% de ocupação das UTIS disponíveis. 

Importante lembrar que dia 21 de maio, foi noticiado que o prefeito de Juruti foi transferido para Manaus por falta de leito de UTI no HRBA. (atualização:  Além do prefeito de Juruti, o prefeito de Terra Santa, município localizado entre Parintins e Oriximiná, também foi transferido no sábado, 30. Segundo apuração de Jeso Carneiro, há 10 dias já estamos sem UTI). 

Em relação aos leitos de clínica exclusivos para pacientes de Covid19 no HRBA e a análise dos dados dos últimos 4 dias (considerando que os casos de UTI permanecem na UTI), temos quase 60% da ocupação dos 47 leitos disponíveis. 

Hoje, o Hospital de Campanha de Santarém está com 54 leitos ocupados, pois o HCS não está operando com toda sua capacidade (120 leitos). Todos os leitos disponíveis já estão sendo utilizados.

No começo da semana, também foi divulgado no G1 que a UPA 24h já está operando acima da sua capacidade operacional.

Até agora, não temos nenhum notícia sobre a possibilidade de construção de outro hospital de campanha mais centralizado na região dos rios, facilitando a logística de acompanhamento e transporte de pacientes.   

Crescimento de internações

No final da sexta-feira 29, tínhamos 134 pacientes hospitalizados para 1532 casos confirmados, uma taxa de internação de 8,75%

08. Qual o perfil dos casos que foram a óbito?

Nos últimos boletins, às vezes aparecem informações de gênero e idade, às vezes não. Não há informações sobre a origem das vítimas (quantas são do centro de Santarém e quantas de outras localidades). De concreto, somando as informações que foram divulgadas, temos o seguinte perfil dos 89 óbitos até agora: 61,8% homens, 24,7% mulheres e 13,5% não identificados.

Zona cinza
A distribuição etária das vítimas é uma informação importante porque mostra o comportamento do vírus na região e quais grupos podem estar mais infectados. Essa informação também seria útil no perfil dos casos confirmados.

Analisando o perfil etário dos óbitos, quase 63% não apontam informações sobre idade. Sabemos que 37% dos casos, com certeza, foram com pessoas acima de 60 anos. Os outros 56 casos não é possível especificar quantos são de crianças, jovens, adultos ou ainda se podem ser mais idosos. 

Um levantamento mundial divulgado hoje revela que mortalidade até 35 anos é 65% maior no Brasil que nos países ricos: "No Brasil, 6% dos mortos têm menos de 35 anos, nos Estados Unidos, 1%. No Brasil, até os 35 anos, a doença mata aproximadamente 5,9 pessoas por milhão (6,5 homens por milhão e 5,2 mulheres por milhão). Nos demais nove países analisados pela pesquisa, nessa mesma faixa etária, a Covid-19 mata 3,5 pessoas por milhão (4,7 homens por milhão e 2,4 mulheres por milhão)". 

Para efeito de comparação, também foi divulgado essa semana que em Feira de Santana, a 100km de Salvador, a maioria dos infectados são jovens e adultos com idade até 49 anos.

Como está nossa situação aqui, qual o perfil etário de mortes e de casos confirmados?Não sabemos. 

09. Por que o lockdown tem sido adotado em todas grandes cidades no Brasil e no mundo?

É uma pandemia causada por um novo vírus que se espalha muito rapidamente pelo ar, é invisível e pode ficar na superfície de coisas. Mesmo quando aparentam saúde, pessoas podem estar contaminadas, assintomáticas e soltando vírus a cada palavra. Para pegar o vírus, basta encostar em superfície contaminada e levar a mão ao rosto, ou simplesmente conversar na rua sem máscara. Para nossa segurança, a melhor opção é evitar sair de casa. Ao circular, você pode entrar em contato com o vírus sem saber, voltar para casa e contaminar mais pessoas. É assim que o novo coronavírus se espalha. Como sociedade, também precisamos fazer nossa parte. 

"Uma crise como essa pode mudar valores, disse Pete Lunn, chefe da unidade de pesquisa comportamental da Trinity College Dublin. 

“As crises obrigam as comunidades a se unirem e trabalharem mais como equipes, seja nos bairros, entre funcionários de empresas, seja o que for. E isso pode afetar os valores daqueles que vivem nesse período, assim como ocorre com as gerações que viveram guerras”. - abril, 2020

Países do mundo todo adotaram o bloqueio total de atividades que não são essenciais por algum momento. A razão é muito simples: diminuir a circulação de pessoas diminui a circulação de vírus. Todas as grandes cidades turísticas e centros econômicos da ÁsiaEuropa e Estados Unidos pararam. Sabemos disso. Vimos o Papa celebrar a Páscoa sozinho na Praça São Pedro enquanto Roma estava fechada (desde 8 de março as missas com público estavam fechadas e só serão reabertas, com distanciamento social, no próximo domingo, 31), vimos a cidade das luzes, Paris, a terceira cidade com mais turismo no mundo com mais de 90 milhões de visitantes por ano totalmente fechada, Londres fechada, Nova York fechada. Cidades que tem uma alta atividade com turismo e centros financeiros tiveram que parar como medida para poder continuar depois com menos mortes. O único objetivo que importa no momento: salvar todas as vidas que podem ser salvas. Santarém precisou parar, São Paulo, Rio, Minas, todas as capitais do norte e nordeste. Mesmo assim, a epidemia avança com velocidade, o vírus ainda está em circulação na sociedade, agora indo para o interior do país.  

 

10. Nossa parte: o que precisamos fazer para evitar o crescimento de casos e mortes em Santarém, nos 28 municípios vizinhos e nas comunidades tradicionais ribeirinhas?

Quando o prefeito e o governador tomam uma medida urgente para impedir a circulação de pessoas e vírus, devemos primeiramente respeitar que essa decisão difícil tem fundamento. Eles têm projeções do crescimento de casos e sabem que se a circulação continuar, a interiorização do vírus vai crescer e o sistema não vai aguentar. A medida trata única e exclusivamente de uma questão: salvar vidas. Mortes evitáveis não devem ser aceitáveis por ninguém, muito menos defendidas. É disso que se trata. Nem prefeito, nem governador são contra a economia, eles sabem mais do que qualquer um de nós individualmente o volume de prejuízo que a paralisação custa à cidade.

Já temos mais de 4000 casos notificados (mesmo com subnotificação é uma quantidade muito grande de pessoas). Se todos começarem a circular, em pouco mais de uma semana (prazo para desenvolvimento de sintomas gripais), muitos moradores da região podem ser contaminados. Parte deles pode precisar de atendimento hospitalar. São pacientes que ficam longe dos hospitais Regional e de Campanha, que precisarão ser transportados por helicópteros e ambulanchas, um a um. O exemplo da interiorização do vírus nos arredores de Manaus mostra como a situação pode piorar rápido, de uma semana para outra.

Ninguém, não importa o argumento, pode defender que milhares de pessoas corram risco desnecessário. É injustificável e descabido. Agora precisamos de espírito de união e solidariedade, não de mais instabilidade, confusão e rixas de episódios políticos. Podemos e devemos, todos juntos, ajudar a estabilizar o número de casos e acalmar os ânimos. A sociedade também é responsável pelo controle da epidemia.  Precisamos trabalhar juntos para informar melhor a população sobre medidas de prevenção, sobre a importância do cuidado neste momento tão crítico que estamos passando. Precisamos defender os moradores de toda região, são mais 1,2 milhão de habitantes que usam o sistema de saúde de Santarém como referência.

A vida está acima de tudo, esse é lema. Mesmo debatendo sobre o sentido da vida, sabemos disso: é preciso viver. Por via das dúvidas, também está na Constituição o direito fundamental à vida. A Constituição também não autoriza nenhuma das espécies de eutanásia (ou escolher pacientes para morrer). Viver é fundamental. Viver é imprescindível. Viver é obrigatório. Vida. Vida. Vida. Para qualquer existência, vida. Em todas as formas de ver o mundo, em todas as religiões, vida. Esse é um momento de solidariedade coletiva e de protegermos uns aos outros. <3 

Saiba mais:

 

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    Notas de rodapé:

    * Hospital Regional do Baixo Amazonas é do governo do estado e administrado pela OS Pró-Saúde via estado; 
    ** O Hospital de Campanha é um obra do governo de estado mas é administrado pela Organização Social Pan-Americana, a UPA 24h é administrado pela mesma OS.

    O BOTO - Alter do Chão
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