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Sairé: a verdadeira resistência

Sairé: a verdadeira resistência

 

Resistência Borari é a Resistência do Tapajós contra as queimadas na Amazônia e a contra todas as tentativas de transformar Alter do Chão em um mero espaço de especulações.  Neste momento em que vemos milhares de pessoas irem às ruas no mundo inteiro pedindo medidas urgentes contra o aquecimento global, vimos também em Alter no dia mundial das árvores, crianças darem seu recado de que querem a nossa responsabilidade. Sabemos que somos a única espécie e última geração capaz criar ações para salvar a vida e a Terra. Então cabe o apelo! Senão conseguimos ouvir os cientistas, que saibamos ouvir as nossas crianças e nossos indígenas. Somos todos filhos da mesma mãe terra, se nos unirmos para salvar a Amazônia, vamos salvar a vida. Não existe planeta B. O Sairé e os botos mostraram estar comprometidos com esta causa pois humildemente se colocaram como resistência às causas das mudanças climáticas e cada qual a seu modo,  representaram a fé e a vontade do povo daqui.

Avaliação do Sairé

 

As reflexões como pesquisador, folião e morador de Alter nos fazem admitir que várias questões precisam ser avaliadas e debatidas de forma mais sistemática e definitiva. Primeiramente: quem efetivamente ganha com o atual formato que foi traçado pelo poder publico municipal a partir de 1997, quando o Sairé saiu da praça sete de setembro e arredores para a atual praça do Sairé e lago dos botos?

Barracas dos nativos

Faço o relato de uma moradora da vila ainda antes do encerramento oficial do Sairé, após mostrar interesse de ir jantar em sua barraca. Sem querer ser identificada afirmou que o sorteio que fazem é injusto!

Já fechei, eu e minha mãe não vendemos nada. Gastei quase R$ 1.000,00 e o que ganhei não deu nem para repor as despesas. Vendíamos água, cerveja, tacacá, salgados, churrasco e galinha caipira. As barracas da frente, os pontos melhores, vendem, já os outros que ficam com os pontos de trás, não vendem quase nada. Fora as taxas que a gente tem que pagar. Ainda tem os barraqueiros de lona que vem de Santarém e montam tudo na hora.

 

Preço dos ingressos

Além do valor absurdo dos ingressos que deixou boa parte dos comunitários sem poder pensar em assistir seus botos, como todo ano, tem muita gente que compra ingresso e chega na hora de entrar, não pode mais porque já está no limite.

Se sabem a capacidade das arquibancadas, porque não param de vender quando a lotação foi atingida? 

Vi turistas bastante chateados com seus ingressos na mão. Turistas que vieram de lugares distantes e tiveram grandes gastos, saíram daqui com má impressão quanto à organização do lado profano da festa. Alguns áudios que circularam nas redes nos dão a dimensão do fato, sem ter um serviço de reclamação e devolução dos valores gastos, fora o receio das arquibancadas que tremiam com a vibração das torcidas do Tucuxi e Cor de Rosa. 

Parte religiosa do Sairé

Analisando a parte sagrada do S/Çairé, podemos dizer: Vai muito bem, obrigado. O Cacique Dengo, festeiro convidado pelo Juiz Osmar Vieira, pela primeira vez participou como folião e no final do rito, era só alegria e felicidade:

Estou de alma lavada, sensação de dever cumprido.

Sobre o resultados dos botos, Dona Nega foi enfática:

Aqui ninguém se importa com quem ganha pra lá, nosso dever é com ela, o senhor sabe com quem é o nosso compromisso, com a Santíssima Trindade, dando aquele sorriso de enorme satisfação. 

De passagem por Santarém, Mestre Castro da cultura popular brasileira, puxador oficial do Boi de Pindaré e um dos mais ativos representantes do Tambor de Crioula do Maranhão, expressou sua opinião:

Este Rito religioso é a festa popular mais forte e resistente do Brasil e quiçá do mundo. Já andei por todos os cantos deste Brasil e até do mundo, mais vibração,  colorido e alegria igual a esta, eu nunca vi. É o coração da Amazônia, o coração do planeta. 

Saudado como a festa encontro das nações, o Sairé 2019 terminou, mas as lições ficam para sempre. Em verdadeira aula sobre o que é o Sairé, o Juiz da festa exercendo o seu poder temporal e espacial, Osmar Vieira, salientou:

É aqui que se aprende os valores, de respeito aos ancestrais, da tradição, do amor ao próximo e da responsabilidade que se tem com o que é sagrado, com a vida, com a natureza.

Não podemos deixar de frisar: o S/ÇAIRÉ  é hoje o evento de maior dimensão e que mais movimenta a economia em Santarém e Alter do Chão. Um dos videos documentários de maior referência, o áudio visual de 1989 da Tv cultura do Pará, vê-se os antigos personagens da festa como Dona Luzia Lobato, Dona Teté e seu Café e muitos outros, mostrando o valor e o trabalho que foi fazer o Sairé ser o que é hoje.

Ao ver essas cenas com belas imagens de Santarém, sua gente, sua música como o inconfundível violão do Sebastião Tapajós, nos vem a pergunta: qual é o rumo e a responsabilidade que temos que ter com esta festa?

Roda de conversa na Cabana do Tapajós

No domingo 22, um encontro na Cabana do Tapajós reuniu estudantes da Ufopa, Cristina Caetano, Chico Malta, Paulo Nascimento, Mestre Castro, jornalistas, representantes do ongs locais e dos brigadistas de Alter.  Muitas considerações foram dadas, mas vale ressaltar o evento da quinta do mestre, que sem esperar muito do poder público, vem realizando de forma continua o carimbó que já tradição na Vila:

É o fazer, pensando só no bem, sem se deixar envolver com o mal.

Chico Malta

É fazer sem a cobiça da ganância, conscientizar a massa e educar aqueles que não se importam com nosso bem maior, a natureza, a nossa natureza humana que precisa ser preservada e celebrada. Então que possamos todos unidos, pensar na condução de nosso Sairé de forma autonôma, independente, pensando na nossa comunidade, no povo daqui, exprimindo aos que vem de fora, que precisam entender, compreender e aprenderem a respirar com a serra, para voltarem aos seus lugares e fazerem lá, aquilo que vieram fazer aqui.   Se divertirem e vibrarem com o que há de mais sagrado em nossa Terra. Sairé! Salve tu, salve a criança que está em ti. Assim quem sabe em breve teremos o Sairé de volta às mãos do povo, com nosso centro cultural do Sairé construído, a partir da vontade e com a cara dos que fizeram e fazem a festa mais linda e sagrada  que já pude participar.                  

 

        

 

 

O BOTO - Alter do Chão
Jackson Rego Matos
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Professor associado III da Ufopa; Eng Florestal, Mestre em Ciências Florestais, INPA, 1993. Doutor em políticas públicas e meio ambiente, CDS/Unb, 2003. Professor do Instituto de Biodiversidade e Floresta. É membro da Alas, IHGTap, Folião do Sairé.

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