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O Turismo em Alter do Chão: Como enfrentar a face da destruição e ajudar a Amazônia pós-pandemia

O Turismo em Alter do Chão: Como enfrentar a face da destruição e ajudar a Amazônia pós-pandemia

Nos últimos 30 (trinta) anos, a cidade de Santarém tem sofrido significativa mudança no seu perfil populacional e ambiental, com o grande avanço da soja na região, promessa de asfaltamento da BR-163 e o aumento do turismo, poucas iniciativas foram tomadas para resguardar a qualidade de vida e o meio ambiente ecologicamente equilibrado. Desta forma, a criação em 02 de julho de 2003, pelo Município de Santarém por meio da Lei nº 11.771/2003, da Área de Proteção Ambiental Alter do Chão, com uma área total de 16.180,00ha (dezesseis mil, cento e oitenta hectares), localizada às margens do Rio Tapajós, na Gleba Federal Mojuí dos Campos, sobrepondo-se em parte ao assentamento federal PAE Eixo Forte, representa tanto para terras públicas não destinadas e terras de domínio privado, uma real possibilidade de demonstração de manejo adequado de nossos ecossistemas, espécies, criando  uma grande oportunidade de efetivo envolvimento e geração de renda com dignidade e inclusão.

Para a consolidação e efetividade da APA Alter do Chão, a legislação ambiental prevê  a necessidade de um Plano Diretor de Gestão Ambiental, que por sua vez, abrangeria um Plano de Manejo e um Zoneamento Ecológico-Econômico. No entanto, mesmo quase 17 anos depois da criação da APA, e com reivindicações comunitárias, tal plano não fora criado, oportunizando inseguranças ambientais e sociais bastante graves para a região (ACP AMACARAUARI, 2020).

Em 2011, o Conselho Gestor da APA registrara, em seu primeiro ato de ofício “graves fatos observados, constatados e documentados e das preocupantes tendências de  desmatamento e ocupação das margens de nascentes, lagos e igarapés”. Não obstante a permanente denuncia de comunitários, coletivos e associações, fatos que causam ou podem causar danos ao meio ambiente e a população de Alter do Chão são recorrentes. Na imprensa, abundam casos sobre a falta de fiscalização e ordenamento na APA Alter do Chão: de construções civis na APP do Lago Verde à entrada de motos aquáticas no mesmo lago. Todos sintomas não só de uma suposta falta de fiscalização, mas da ausência do Plano Diretor de Gestão Ambiental.

O cenário, portanto, é de constantes irregularidades que danificam e ameaçam Alter do Chão, contrariando o interesse público destacado quando da criação de um espaço territorial especialmente protegido. Neste sentido, em plena pandemia,  uma Ação Civil Pública foi protocolada da justiça federal,  contra o licenciamento de um empreendimento denominado “Condomínio Chão de Estrelas” pela prefeitura de Santarém.  Segundo consta no licenciamento, o referido empreendimento seria uma “Edificação Multifamiliar vertical”, com um pavimento térreo e 7 andares, sendo os dois últimos duplex, o que caso venha a se concretizar estará descaracterizando uma das mais belas paisagens do planeta: a do lago verde nas proximidades do lago Carauarí, afetando a área que dá acesso a já famosa mundialmente, Floresta Encantada que hoje oferece alternativa de renda para famílias da Aldeia Caranazal. 

Desta forma, busca-se encontrar espaço para se discutir novos olhares contemporâneos que ampliem focos, estabeleça novas conexões, onde se possa preservar as áreas que possui excepcional beleza e significado, buscando também atingir e ampliar para áreas pouco ou nada exploradas pelo fenômeno turístico, dando a Santarém, Alter do Chão, o Tapajós e a Amazônia, o lugar que merece no Brasil e no Mundo. Mas cabe a pergunta para refletirmos neste momento: o que estamos fazendo para garantir a qualidade de vida e o nosso bem estar? Como enfrentar os diferentes interesses que aqui chegam para evitar que grandes desigualdades se estabeleçam, tirando o povo de seu local e destruindo nossos  patrimônios? A resposta coletiva será a nossa maior conquista, mais estamos diante de um grande dilema:  ou poderemos que dizer daqui a 10 anos que a verticalização de Alter com inúmeros prédios foi fruto de nossa desmobilização como comunidade, ou vamos comemorar a vitória de termos lutados juntos, como já aconteceu inúmeras vezes, mostrando a verdade que encanta a todos que aqui chegam, que é a nossa força e união de defender e fazer respeitarem este incrível território.  Assim teremos a certeza que mesmo durante a pandemia, houve luta para voltarmos de forma organizada a termos um novo turismo em Alter e no Tapajós, ajudando a Amazônia a voltar a ser o que ela é.     

Na imensa região Amazônica, que compreende no Brasil uma área de aproximadamente 5 milhões de km2 (IBAMA, 2001), encontramos ainda de forma quase original, este espaço geográfico privilegiado para o planejamento de atividades sustentáveis, compatíveis com a manutenção das populações tradicionais com sua grande diversidade cultural. Abrigando uma área de grande biodiversidade endêmica e  o maior aquífero de água doce disponível no planeta, pode-se mesmo afirmar que aqui na confluência do Tapajós com o Amazonas respira-se a pátria da floresta casando com as águas profundas, sendo que os rios afluentes o Arapiuns, Curuá-Una, Cuparí  e inúmeros igarapés e lagos,  determinam o ritmo da vida de seus habitantes. 

O ecoturismo foi conceituado como um segmento da atividade turística que utiliza, de forma sustentável, o patrimônio natural e cultural, incentiva sua conservação e busca a formação de uma consciência ambientalista através da interpretação do ambiente, promovendo o bem estar das populações envolvidas (EMBRATUR/IBAMA, 1994).  Esta conceituação é o desafio para se colocar em prática, os inúmeros entendimentos  de modelos antagônicos mas que precisam dialogar com as diferentes concepções de vida e perspectivas sociais, políticas, econômica  e cultural do povo local. 

Sem dúvida, esta modalidade de turismo apresenta-se como o modelo mais adequado para a região do Tapajós, e temos observado um crescimento significativamente maior do que as formas tradicionais das convencionais viagens para Santarém e Alter do Chão. Na contemporaneidade, as populações autóctones da região Amazônica tem se defrontando com formas ameaçadoras de destruição da natureza que avançam ao ritmo do "progresso" e da metamorfose de suas faces.

Nota do autor: Artigo feito com base no estudo de ACP protocolada na Justiça e aguardando parecer 

O BOTO - Alter do Chão
Jackson Rego Matos
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Professor associado III da Ufopa; Eng Florestal, Mestre em Ciências Florestais, INPA, 1993. Doutor em políticas públicas e meio ambiente, CDS/Unb, 2003. Professor do Instituto de Biodiversidade e Floresta. É membro da Alas, IHGTap, Folião do Sairé.

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