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Na Amazônia, as bibliotecas estão sendo incendiadas

Na Amazônia, as bibliotecas estão sendo incendiadas

via El País, atualizada para O Boto, escrita com Rosamaria Loures

Foto acima: Cacique Vicente Saw, morto em 01/06/2020 por Covid-19, cumprimenta o então Cacique Geral do povo Munduruku, Biboy, ao lado do futuro (e atual Cacique Geral, Arnaldo Kabá), em sua aldeia, Sai Cinza, na Assembleia Geral do Povo Munduruku em fevereiro de 2013. Foto: Vinicius Honorato

“Saiba que no meu país, toda vez que um velho morre, uma biblioteca é incendiada”, disse o grande intelectual malinês Amadou Hampaté Bâ em 1962. A frase foi dita em resposta a um senador americano que acusava africanos de serem “ingratos, analfabetos e ignorantes” em sessão do Conselho Executivo da UNESCO.

A formulação de Hampaté Bâ nos ajuda a compreender a importância do ancião para sociedades orais, que transmitem seu conhecimento e história a partir da palavra falada. O provérbio se aplica perfeitamente aos povos da floresta da Amazônia – sejam indígenas, ribeirinhos ou quilombolas – bem como todos os povos e comunidades tradicionais pelo Brasil que têm em seus velhos fontes de conhecimento, autoridade moral, orientação política e espiritual. São justamente esses alicerces que, por pertencerem ao principal grupo de risco da covid-19, estão entre os primeiros a morrer. E em série: estamos assistindo um genocídio em tempo real.

Nos últimos dias, temos seguidamente recebido notícias que indicam a penetração do coronavírus ao longo do rio Tapajós, no oeste do Pará, inclusive no seu médio e alto curso, onde vive grande parte do povo Munduruku e os ribeirinhos de Montanha e Mangabal, que se autodenominam beiradeiros. Nove Mundurukus já faleceram, sendo oito anciãos. Em maio, partiram Jerônimo Manhuary (86 anos), Angélico Yori (76 anos) e Raimundo Dace (70). Entre 1-5 junho, faleceram Vicente Saw (71 anos), Amâncio Ikõ (59 anos), Acelino Dace (77 anos), Francidalva Saw (40 anos), Martinho Borõ (77 anos), Benedito Karo (70 anos) e Bernardo Akay.

Acelino Dace na aldeia Sawre Muybu, onde escavação arqueológica foi realizada em 2014. Foto: Bruna Rocha

A morte destes anciãos vai muito além da tragédia local e familiar. Como destacado em uma carta das Associações Munduruku: “Também nos preocupamos com a perda da nossa história, guardada e transmitida por nossos velhos, sábios e pajés, para quem o vírus é mais perigoso.” Os anciãos dessas comunidades representam seus repositórios de conhecimento sobre o território, a história do grupo, a fabricação de objetos e alimentos específicos, dentre outros.

Uma das principais referências para o povo Munduruku do médio Tapajós, Amâncio Ikõ Munduruku, não resistiu e faleceu em 2 de junho. Estava desde 30 de maio em uma UTI em Belém, sedado e entubado, respirando com auxílio de ventilação mecânica. Nascido em 1960 no alto rio Tapajós, chegou com a família em Itaituba no início da década de 1970. Sua história se mistura com a de Itaituba, que à época tinha apenas uma rua. Em ironia amarga, a família escolheu o local que se tornaria a Praia do Mangue por ele ser suficientemente próximo a um posto médico que poderia atender sua mãe. Além da luta pela saúde, a vida de Amâncio se caracterizou também pela luta por educação diferenciada, pelo território e pela identidade. Amâncio brigou pelo direito dos Munduruku poderem registrar seus nomes originais, e não nomes de brancos como obrigavam os cartórios, em suas carteiras de identidade. Com apoio de parceiros, fundou a Associação Pariri em 1998, que segue sendo fundamental na luta por direitos. Foi ele, ainda, que aconselhou o cacique Juarez Saw, que também deixou o alto Tapajós, a retomar parte do território ancestral Munduruku que hoje é a Terra Indígena Sawre Muybu/Daje Kapap Eïpi. “Meu pai é um grande guerreiro”, ressalta um de seus filhos, Ikõ Biatpu Munduruku. Ikõ temia que seu pai, como seu avô, morreria sozinho em Belém.

Amâncio Ikõ Munduruku, acompanhando os estudos do Grupo de Trabalho para a demarcação da Terra Indígena Sawre Bapin em 2019. Foto: Rosamaria Loures

Apenas após grande insistência da família que Amâncio foi levado à Unidade de Pronto Atendimento de ambulância. Antes saudável, seu quadro se agravou rapidamente, apresentando insuficiência respiratória aguda, queda na saturação de oxigênio e comprometimento do pulmão. Como Itaituba, cidade de mais de 100 mil habitantes, possui apenas quatro leitos de UTI e todos estavam ocupados, uma solicitação de remoção aérea foi feita no dia 27 de maio. Amâncio apenas realizaria a viagem no dia 30, após ter sido entubado e reanimado manualmente até atingir um nível de saturação mínimo para poder sobreviver à viagem. Em áudio circulado pelo WhatsApp, uma médica intensivista que o atendeu denuncia a falta de equipamentos, insumos e materiais básicos. Em suas redes sociais, a assessoria de comunicação da Prefeitura do Município de Itaituba oferece outra versão, alegando que uma UTI aérea foi “imediatamente” disponibilizada para Amâncio, e que a solicitação de leito em Belém foi realizada pela Secretaria Municipal de Saúde de Itaituba, ignorando a articulação fundamental da COIAB – Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira – para que isso ocorresse.

No alto Tapajós, a grande penetração do garimpo de ouro pode ser diretamente relacionada à rápida disseminação da covid-19. No dia 21 de maio, após uma reunião na aldeia Jacarezinho em que se discutiu a legalização do garimpo em terra indígena, os garimpeiros encorajaram Mundurukus de diversas aldeias próximas à cidade, inclusive crianças, para irem à cidade de Jacareacanga participar de uma carreata a favor do garimpo, contrariando os conselhos do pessoal da vigilância sanitária e do Distrito Sanitário Especial Indígena Tapajós. Isto contribuiu de forma decisiva para levar o vírus às aldeias, explicando porque o cacique Vicente, que sequer havia saído de sua aldeia, Sai Cinza, foi morto pela covid-19. Dados do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) registraram que, em abril de 2020, a TI Munduruku figurou como a TI mais desmatada do país, desmatamento este intimamente associado ao avanço do garimpo.

Martinho Borõ, ao lado de sua esposa Leonora Koro, na aldeia Santo Antônio, aldeia que ele estava construindo, em maio de 2020. Foto: Thomas Borõ.

Dispneico, com saturação de oxigênio em cerca de 60%, Martinho Borõ Munduruku ficou internado em isolamento no Hospital Municipal de Jacareacanga (onde não há leito de UTI). Nascido em 1943, morador da aldeia Caroçal Rio das Tropas e antigo cacique, é considerado um dos primeiros professores Munduruku, que alfabetizou muitas crianças e lutou pela educação e saúde. Grande historiador, conhecia os cânticos Munduruku, e participava das assembleias promovidas pelo povo Munduruku, assim como de ações autônomas de fiscalização do território. Sempre preocupado em “contar as histórias dos antepassados para que as crianças saibam as histórias dos nossos avós,” trabalhou como relator da “História dos Antigos Munduruku” (1977-1979). Há cerca de duas semanas, Martinho, que era diabético, começou a apresentar sintomas. Segundo relatos, o médico do Serviço Especial de Saúde Indígena que se encontrava na aldeia teria dito a quem apresenta sintomas parecidos com os da covid-19 que estariam com virose. Já com dificuldade de respirar, Martinho foi removido de avião até o hospital de Jacareacanga apenas em 29 de maio. Lá, começou a ser tratado com hidroxicloroquina, o que piorou seu estado de saúde. Endossado pela Secretaria de Saúde do Pará a aplicação deste tratamento pode ser feito mesmo em pacientes “no início de sintomas.” Considerando o quadro descrito pelo seu sobrinho, Jair Boro, que ao chegar em Jacareacanga o tio mal conseguia falar e a alta probabilidade de sua acompanhante não dominar a língua portuguesa, é de se perguntar até onde o “consentimento” dado pelo tratamento, tão enfatizado pelo Ministério da Saúde, seria válido.

Em Montanha e Mangabal, após uma grande luta contra grileiros que tentaram os expulsar violentamente de sua terra e que, em peças judiciais, os taxam de invasores, os beiradeiros tiveram uma parte de seu território histórico contemplado por um Projeto de Assentamento Agroextrativista em 2013. A decisão histórica foi embasada por amplo espectro de provas que incluíam registros feitos por viajantes desde o século XIX, antigos registros de batismo – e, fundamentalmente, pela memória coletiva do grupo, transmitida pelos mais velhos e alicerçada em marcos da paisagem. Uma das principais matriarcas dessa comunidade, Odila Braga dos Anjos forneceu relatos, fotografias e documentos que seriam fundamentais ao processo. Nascida em 1937 na localidade de Laje do Mangabal, dona Diloca, como é conhecida, tem onze irmãos e teve dez filhos no beiradão do Tapajós. É uma fonte de conhecimento sobre a história do grupo e sua intricada rede de parentesco. Agora, sua hipertensão preocupa filhos e netos mais do que nunca. Garimpeiros vivem aportando no porto da comunidade Sapucaia, onde vive dona Odila, para acessar a bica d’água que sai do morro. Não se sabe se andam armados; é possível que estejam contaminados. O dono do comércio mais próximo, que abastece todos os garimpos da região (chamado "Amigo Garimpeiro," localizado no KM180 da Rodovia Transamazônica) veio a óbito em 4 de junho, após passar dias internado em uma UTI na cidade de Santarém, devido à contaminação pela covid-19.

Em 2011, Dona Odila Braga dos Anjos mostra antigos machados de pedra polida que encontrou em sua roça. Foto: Bruna Rocha

Nos últimos 500 anos, a invasão dos territórios indígenas sempre veio acompanhada de surtos epidêmicos. A diferença agora se dá pela dimensão da degradação ambiental, sem igual, e pela rapidez do alastramento do vírus. Essa degradação está desfigurando paisagens que serviam como referências de memória para os povos da floresta que vivem no Tapajós. A chegada da covid-19 no médio e alto Tapajós agora aprofunda a degradação das singulares história e tradição destes territórios.

Uma comparação com a destruição ao patrimônio histórico e cultural gerada pelo incêndio do Museu Nacional em setembro de 2018 é possível, mas nem isso poderá abranger o abalo desestruturante e irreversível que está em curso para os povos da floresta, que frequentemente apresentam altos índices de comorbidades resultantes de processos desordenados de contato com a sociedade industrial, que incluem mudanças abruptas da dieta, atividades laborais insalubres e precariedade do atendimento à saúde. Na ausência de equipamentos médicos para todos, basear a escolha sobre quem vive e quem morre a partir de parâmetros de idade, como tem sido discutido em contextos urbanos, ignora a centralidade dos anciãos para os povos da floresta. Jair Boro Munduruku, primeiro arqueólogo Munduruku formado pela Universidade Federal do Oeste do Pará, escreveu: “Os nossos anciãos têm grande conhecimento... Contam sobre acontecimentos envolvendo o nosso povo, sobre como as coisas... eram feitas e porquê, assim como o que não poderia ser feito.” Foi o conhecimento dos anciãos que garantiu o reconhecimento territorial de diferentes povos da floresta, e que os informa sobre suas raízes. E não apenas eles: cada vez mais, pesquisadores de diferentes áreas têm consultado os anciãos locais sobre flora, fauna, história e um universo de informações. Agora, estas bibliotecas estão sendo incendiadas.

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Bruna Rocha é arqueóloga pela Universidade Federal do Oeste do Pará.
Rosamaria Loures é doutoranda em Antropologia na Universidade de Brasília.

 

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