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Na Amazônia, a Covid19 mata tanto quanto a falta de soro antiofídico

Na Amazônia, a Covid19 mata tanto quanto a falta de soro antiofídico

Nas cidades, o gargalo no sistema de saúde, aprofundado pela pandemia do novo coronavírus, tem provocado milhares de mortes, muitas por não terem conseguido atendimento adequado. Contudo, muito antes da covid19, as populações amazônidas padecem (e até falecem) pela falta de assistência médica, até mesmo a mais básica como ter acesso a soro antiofídico.

Nessa semana, Eliana Batista, uma conhecida e querida liderança do Alto Arapiuns, perdeu seu filho Roni, de 39 anos, vítima de uma picada de cobra surucucu. O acidente ocorreu por volta das 16h do sábado (13/06) na Comunidade Nazário, distante cerca de 9h de barco de Santarém. Em Nazário, não há posto de saúde. Então, a mãe, com ajuda de vizinhos, levou Roni de moto até a comunidade Curi, por uma estradinha esburacada, que só passa mesmo moto e bicicleta, sob forte chuva num percurso de mais ou menos 1 hora. Porém, no posto de saúde de Curi o único remédio que tinha era dipirona. NÃO TINHA SORO ANTIOFÍDICO. Sem condições de prestar socorro na comunidade, o enfermeiro chamou a ambulancha, a qual chegou em Curi meia-noite, apanhou o paciente e sua mãe e retornou imediatamente à cidade. Por volta de 2h45 da madrugada (quase 12 horas após o acidente) deram entrada no hospital municipal. Mas, pela demora no atendimento, o estado de saúde do rapaz se agravou e ele não resistiu. Faleceu pouco antes do meio-dia do domingo (14/06).

Na certidão de óbito de Roni Batista a causa mortis estará descrita como complicações decorrentes de veneno de cobra, acidente ofídico ou coisa semelhante. Mas, a verdade é que Roni morreu pela falta de assistência básica em saúde que historicamente faz vítimas entre as populações amazônidas ribeirinhas, agroextrativistas, indígenas, quilombolas e agricultores do campo.

E a morte de Roni não é um caso isolado. A precariedade no acesso a políticas públicas de saúde é uma realidade vivenciada cotidianamente na zona rural amazônica, principalmente nas aldeias indígenas e comunidades ribeirinhas, onde nem o mais básico, como soro antiofídico, está disponível à população

Alheio a essa realidade, o Congresso Nacional, em 2016, aprovou a Emenda à Constituição (EC 95) que congelou os investimentos públicos por 20 anos. Assim, as políticas públicas em saúde, que já eram deficitárias, ficaram ainda mais restritas, deixando a população que depende unicamente do SUS abandonada à precarização dos atendimentos.

A indiferença dos parlamentares federais em relação às necessidades da população brasileira, em realidades tão diversas, também se repete em nível estadual e municipal. Comunidades como Nazário, conforme testemunham seus moradores, só costumam receber visitas de “autoridades políticas” em períodos de campanha eleitoral quando chegam com ações pontuais. Mas, o que os povos indígenas e comunidades tradicionais da Amazônia precisam é de que sejam assegurados seus direitos a políticas públicas adequadas e não de mero assistencialismo de cunho eleitoreiro.

À dona Eliana, cuja principal característica sempre foi a contagiante alegria, restou encarar a insuportável dor da perda de um filho e retornar à Comunidade Nazário para sepultá-lo. Roni era o único filho que ainda morava com a mãe, sendo seu braço direito na lida da roça e na criação dos animais. Num lamento carregado de indignação, dona Eliana desabafou “se tivesse soro antiofídico no Curi, meu filho poderia estar vivo”.

Além da solidariedade com o sofrimento dessa mãe, é preciso exigir ao prefeito municipal e demais autoridades públicas competentes que o direito das populações amazônidas em relação às políticas públicas de saúde seja garantido, como a disponibilização de soro antiofídico em todas as unidades de saúde da zona rural, sobretudo nas comunidades ribeirinhas e aldeias indígenas mais longínquas, a fim de que não continuemos a contabilizar e a chorar mortes evitáveis, seja em decorrência de covid ou de picada de cobra.
 

O BOTO - Alter do Chão
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