'); Eu sou o Sairé-Turiuá-Sairé: Um Pedido de Paz - O BOTO - Alter do Chão
[ editar artigo]

Eu sou o Sairé-Turiuá-Sairé: Um Pedido de Paz

Eu sou o Sairé-Turiuá-Sairé: Um Pedido de Paz

 

Setembro de 2021 chegou e com ele a Força do Sairé-Turiuá-Sairé aporta novamente na Vila de Alter do Chão.  Como Folião participando há mais de 10 anos ininterruptos no Rito religioso, assim como todos os envolvidos diretamente, somos absorvidos pela necessidade da expressão e assim, de forma simples e direta, venho expor sentimentos que se vive nos momentos que antecedem a mais esperada tradição do Oeste Paraense e a mais antiga da Amazônia brasileira. 

Este ano, já está indicado pelo Juiz da Festa e todos os que fazem parte do Rito Sagrado, faltando apenas o aval decisivo do comitê de crise,  que irá liberar já que outros como as manifestações ocorridas na praça 7 de setembro, já estão acontecendo. Pela parte da coordenação já está confirmado que a  festa acontecerá nos dia 24 e 25 deste mês. A programação que envolve todos os itens sagrados, iniciará dia 18 com a tradicional busca dos mastros nas margens do Lago Verde, sendo este é o ato que marca oficialmente o início da festa, uma verdadeira procissão bailada, colorida pelas canoas azul-frança que transformam às Águas do Rio, em espaço abençoado pela Fé, contando com a participação dos Catraieiros, Bajaieiros e Lancheiros. Estes que vivem do turismo e ganham seus sustentos no levar e trazer os visitantes para a Ilha do Amor fazem deste ato uma homenagem e agradecimento ao divino.

A temática escolhido em reunião, é uma afirmação de resistência e de demonstração que somos um povo forte, que sabe que a sabedoria vem com o tempo e que saber diferenciar o sagrado do profano. Sabe que a festa  acontece da presença na vida comunitária e cotidiana de quem vive “o barracão” e demais momento como a partilha, as ladainhas, as danças precisam contar com o apoio e ajuda de todos que sabem o que é esta festa. É nele que se contam e se vive as histórias, que se organiza  alegria e isto é um processo que acontece em detalhes precisos, mas também acontece nas casas que se enfeitam, nos cafés e beijus servidos, no tirar e abrir as palhas, no fazer as varinhas dos mordomos, no buscar cipó na floresta, nos ramos que adornam o barracão, onde o trono da coroa do Divino Espírito Santo, reina e dá as bênçãos aos devotos, rezadeiras, procuradores, juízes, capitão, foliões e visitantes, tudo ao som da folia e dos músicos do famoso Espanta Cão que literalmente espantam o cão daqueles que teimam viver na ilusão da desunião. Certamente nesses dias a Vila será tomada pelas músicas, canções,  do coração e reza dos foliões e inúmeros aficionados que pagam ou fazem suas promessas.

Esta afirmação “Eu Sou” traz inúmeras possibilidades de reflexões e entendimentos. O “eu sou” de uma festa milenar eternizada vem de antes do Dilúvio Universal e tem no arco e nas fitas, as cores que representam a aliança inquebrável de Deus com os homens. Também representa a meia lua, onde segundo informações contado pelo antigo Capitão Noquinha, o símbolo que era dos Tupinambás, foi apresentado aos colonizadores que chegaram nas caravelas do “Além Mar”, sendo uma representação da Lua, dando uma conotação matriarcal que representa a pureza da nossa relação com a natureza, a ancestralidade indígena e feminina. 

No Çairé temos a expressão da cultura afro representado no Marambiré e de inúmeros simbolismos  da fé cristã, independente da religião que se pertence. Dona Luzia é nosso maior exemplo desta miscigenação. Além de ser uma das festeiras que compões com dona Teté, o maior hino popular de Alter,  mesmo com toda a diversidade, criou seus filhos, netos, bisnetos dentro desta cultura  e ensinou a inúmeros amigos, a serem o Çairé.    

 

Dona Luzia e Nelson Lobato, somos o Çairé.

 

No livro teatro “Cedro Vermelho” do Português Francisco Gomes Amorim, há uma dramatização em que os indígenas e negros do Pacoval de Alenquer, juram que na festa do Sairé nos idos do século XIX, São Tomé podia ser encontrado vivo ali naquela  festa.  Em apresentação no Teatro Maria Matos em Lisboa, esta aparição foi a cena central que certamente fez Lisboa querer ver para crer. 

Mas afinal, por que somos o Çairé? Mesmo com todas as incertezas do pós-pandemia, da urina preta, dos fortes temporais como este do dia 13 que parou Santarém, com falta de luz, água e internet, sem que as companhias pudessem atender as inúmeras ocorrências,  para quem vive a festa em sua plenitude, sabe que fazer a festa, é além da responsabilidade um compromisso com São Benedito, São Pedro, Santa Maria, com Jesus de Nazaré. Sabemos que aconteça o que aconteça, o Juiz, a Juíza e os todos os festeiros tem a obrigação de fazer o Çairé todos os anos e isto não pode deixar de acontecer, pois é deste acontecimento que vem a  proteção da nossa natureza e de nossa saúde. 

É assim que manda a tradição e foi com este espírito, que todos acataram  às ordens do Juiz em fazer a festa de 2020.  Feito com todos os cuidados, ninguém do rito pegou o vírus da covid-19, pois tudo foi feito com o máximo de zelo com os mais velhos, cuidando dos mais jovens que inclusive deram um show de mobilização para a manutenção e auto-estima dos que são o rito. 

Assim temos que entender que o  fazer a festa, é uma ordem que vem do alto, uma busca de comunhão cósmica. Todos sabem o que  representa realizá-la, pois todos sabem que o Cairé representa “o todo”, que representa tudo para o povo simples de Alter do Chão, que representa a abundancia, que   representa Deus Pai, Deus Filho e o Espírito Santo num só Deus. Incluí a festa da Santíssima Trindade,  da festa dos divinos de outras comunidades e  a entendem como a festa de Deus na Terra. Essa aliança não pode ser quebrada pois é um casamento e aquilo que Deus uniu o homem não pode separar. É por isso que cada um daqui afirma: Eu sou, nós somos, todos são, tanto os que estão aqui na Terra como os que já estão no Céu. É a regeneração das mentes para curar a terra, como mostrou a marcha das flores em Brasília e a luta dos indígenas pela demarcação das terras e conservação da vida. Viva o Çairé 2021, usando mascara e seguindo todas as recomendações da OMS vamos mostrar a força da união num pedido de paz e acolhimento de todos que amam Alter, Santarém e o Tapajós, que poderão colaborar como nos puxiruns de antigamente.

O BOTO - Alter do Chão
Jackson Rego Matos
Jackson Rego Matos Seguir

Professor Titular da Ufopa; Engenheiro Florestal, Mestre em Ciências Florestais, INPA, 1993. Doutor em Políticas Públicas e Meio Ambiente, CDS/Unb, 2003. Professor do Instituto de Biodiversidade e Floresta. É membro da Alas, IHGTap, Folião do Sairé.

Ler conteúdo completo
Indicados para você