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A força da participação social e mobilização da comunidade na defesa de Santarém

A força da participação social e mobilização da comunidade na defesa de Santarém
POR SARA PEREIRA

Já um pouco restabelecida do cansaço, venho expressar meu agradecimento a cada um e cada uma de vocês, guerreiros e guerreiras, que se empenharam e contribuíram para a EXCEPCIONAL VITÓRIA que conseguimos ontem na Conferência do Plano Diretor de Santarém.

Foi uma semana tensa e intensa. Eram várias as preocupações: o local era de difícil acesso, a divulgação oficial não aparecia, a metodologia não estava clara, os documentos finais não estavam disponíveis. Com todas essas dificuldades, como conseguiríamos mobilizar a população para participar da Conferência de discussão e aprovação da minuta do projeto de lei de revisão do plano diretor de Santarém?

Na Audiência Pública anterior, havíamos sido desrespeitad@s, agredid@s e até ameaçad@s. Fomos violad@s em nosso direito de participar das discussões acerca dos rumos de Santarém para os próximos 10 anos.

Essa arbitrariedade não poderia se repetir. Precisávamos exigir que nossa dignidade e nossos direitos fossem respeitados. Então, reunimos nossas forças e fomos à luta. Como formiguinhas, organizamos o trabalho que precisava ser realizado coletivamente, de modo eficaz, em um curto espaço de tempo. Era necessário o esforço de tod@s.

Assim, levantaram-se os grupos que precisavam ser mobilizados, a divulgação foi intensificada, e o apoio logístico de transporte e alimentação precisava ser garantido. E mais uma vez o gesto da coletividade autônoma se materializou: “correu o chapéu” e o que era pouco em muito se transformou.

Enquanto isso, outr@s analisavam e elaboravam documentos. Peregrinavam em órgãos públicos denunciando, alertando e cobrando atuação para garantir nossos direitos de cidadãos. Outros furavam o bloqueio e conseguiam as informações que oficialmente nos eram negadas.

E eis que o tão aguardado dia chegou. 23 de novembro de 2017 – Conferência de discussão e aprovação da minuta do projeto de lei de revisão do plano diretor de Santarém. E quão alegres ficaram nossos olhos ao testemunhar que todo o esforço em multidão se configurou. Eram indígenas, quilombolas, ribeirinhos, agricultores e agricultoras rurais, professores e estudantes, lideranças de associações de moradores urbanas, profissionais liberais, mulheres e jovens. Numa bela ciranda, entoávamos cantos de resistência, demonstrando que o destino da nossa terra não nos seria roubado novamente.

A arrogância do agronegócio, que na audiência anterior nos afrontou, à nossa força de mobilização se curvou. O machismo e o misoginismo sucumbiu ao protagonismo e escracho das mulheres.

E um batido lema dos movimentos sociais nunca esteve tão atual: juntos somos mais fortes! E contra essa união não teve uniforme comprado, “liderança” cooptada, articulação esquematizada, discurso ensaiado, performance teatral de “oprimida” que pudesse ser maior.

Contra a arrogância, o preconceito e a violência do agronegócio, rufamos os tambores do carimbó, demonstrando toda a garra da nossa resistência. Numa aliança entre campo e cidade, ressurgimos triunfantes e vencemos o dragão que se julgava invencível.
Mas, vencemos apenas uma batalha. A guerra continua. E precisamos permanecer vigilantes e mobilizados para garantir a vitória completa.

Mesmo assim, temos sim que comemorar. Diante de tantos retrocessos que têm sido nos impostos, essa vitória, ainda que não seja definitiva, merece ser celebrada. Independente de qualquer coisa, já conseguimos um MARAVILHOSO resultado: a rearticulação e o reavivamento dos movimentos sociais. A chama da nossa luta está poderosamente flamejante e ninguém mais pode apagar.

Foi impossível não se emocionar diante de tantas imagens emblemáticas. Nossa luta não é em vão e a nossa utopia está cravada nesse chão amazônico de modo irreversível. Um outro mundo não só é possível como está se reconstruindo coletivamente às margens do nosso Tapajós.

Sigamos firmes na defesa de nosso território, de nossos bens comuns e de nossos modos de vida. Sigamos na luta contra os portos no Maicá, o PL da verticalização, a buriti e todos os projetos que ameaçam a vida e a dignidade do nosso povo. Nenhum direito a menos, nenhum passo atrás porque NA NOSSA TERRA quem pode definir nossos destinos somos nós!

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O BOTO é o jornal comunitário de Alter do Chão, em Santarém/PA, e região. Os repórteres, fotógrafos e colunistas são moradores. Os assuntos são escolhidos pelos próprios colaboradores.

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