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Carta aberta contra a tentativa de apropriação  Festival de Cinema de Alter do Chão

Carta aberta contra a tentativa de apropriação 
Festival de Cinema de Alter do Chão

Santarém, 13 de dezembro de 2020

Esta CARTA ABERTA é um ato em favor da sociedade da região Oeste do Pará, aos segmentos culturais, turísticos e aos fazedores e fazedoras de cultura da Amazônia.

O conjunto de organizações, lideranças sociais, artistas, produtores, fazedores e fazedoras de cultura que assina esta carta vem manifestar a desaprovação e exigir providências às instituições envolvidas sobre a tentativa de APROPRIAÇÃO do Festival de Cinema de Alter do Chão pela empresa denominada Krioca Comunicações.

O grupo também EXIGE que o projeto volte a ser conduzido de forma coletiva, como iniciou, com a participação de empresas e parceiros com capacidade e metodologias democráticas, garantindo que, a partir de 2021, a organização do evento respeite o protagonismo local e regional na prática e não apenas no discurso.

Reforçamos nesta carta, o papel fundamental dos fazedores e fazedoras de cultura locais, de toda a Amazônia e de outras partes do Brasil na construção da proposta e realização do FCAC, que se integraram de forma exemplar nas ações de articulação, formação de redes e em busca de apoios para que este sonho se tornasse real.

O Festival de Cinema de Alter do Chão tem um histórico que antecede a participação da referida empresa na produção do evento. O projeto, em sua integralidade, vem sendo conceitualmente desenvolvido e articulado, desde 2016 por iniciativa de diversos atores culturais e no âmbito acadêmico, sendo inclusive uma proposta apresentada na Assembleia Legislativa do Estado (ALEPA), como uma demanda dos anseios de realização cultural da região.

Estando em Santarém, a convite do Município e posteriormente na UFOPA para participar de eventos culturais, o diretor da Empresa Krioca Comunicações Sr. Locca Faria, tomou conhecimento do projeto Festival de Cinema de Alter do Chão por intermédio do projeto Luzes do Tapajós (UFOPA), do Deputado Federal Airton Faleiro (então Deputado Estadual), da Professora Doutora Raimunda Monteiro, então reitora da UFOPA, dentre outros proponentes do Festival, passando a se integrar inclusive através do projeto de extensão da UFOPA.

À época, O Sr. Locca, que se apresentou como cineasta, estava propondo um projeto de realização de um filme tendo como protagonista o violonista Sebastião Tapajós e segundo ele, teria a participação de Paulo César Pinheiro, Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, e outros astros da música brasileira, que iriam interagir com músicos da Amazônia, o que foi bem aceito e tendo apoio para realização do filme "Reencontro das Águas" com uma perspectiva científica envolvendo comunidades e populações tradicionais. Prontificou-se a ajudar na realização do Festival, o que foi aceito com entusiasmo por todos os proponentes do projeto, por avaliarem que a empresa reunia expertise e contatos importantes para o fortalecimento do projeto nos centros culturais do país.

Dessa forma, foi dado início na produção do I Festival de Cinema de Alter do Chão. Enquanto isso, o grupo local articulava a participação das instituições culturais e financiadoras no Estado, viabilizando recursos para a realização do Festival e para custear as despesas com a pré-produção do Festival já sob a coordenação executiva da Krioca.

Com a sequência da produção, se fez necessário que o projeto fosse inserido em leis de incentivo, como também apresentado a instituições e empresas patrocinadoras. Era necessária uma pessoa jurídica da área cultural para representar o projeto. O grupo proponente não estava organizado como pessoa jurídica. Por isso, a participação da Krioca se apresentava como uma oportunidade, visto estar apta a captação de recursos. Consensualmente, os proponentes do projeto concordaram ser essa a solução para viabilizar o Festival.

Para acessar os editais e lei de incentivo estadual, assim como ter a possibilidade de desenvolver convênios com instituições locais, fezse necessária a aglutinação de uma organização do Estado do Pará. Dentre as alternativas dispostas, a empresa Borari Filmes foi convidada pela Krioca, como co-produtora para facilitar o acesso aos editais e lei de incentivo estadual, assim como ter a possibilidade de desenvolver convênios com instituições locais.

Nesse ato, estava-se transferindo formalmente a representação e produção do Festival para a Krioca Comunicações, mas em nenhum momento transferia-se à empresa a propriedade da Marca ou do Festival, por haver o entendimento que o Festival era uma produção coletiva e um bem cultural de um movimento artístico e intelectual de Santarém e região.

O Festival de Cinema de Alter do Chão é fruto de um trabalho coletivo produzido a muitas mãos que vem sendo idealizado agregando coletivos, movimentos sociais e culturais, especialmente do segmento audiovisual, bem como órgãos públicos, a partir de acúmulos de debates e experiências anteriores realizadas por organizações locais. Materializou-se em 2019, com o grande evento realizado no mês de outubro na Vila de Alter do Chão.

A proposta ganhou força com o apoio de um projeto do então Deputado Estadual Airton Faleiro, com a destinação de recursos públicos por meio de emenda parlamentar dele e de outros deputados da região. Por isso, antes da realização do Festival, foram realizadas Audiências Públicas de Apresentação e Debates com ampla participação da sociedade sobre o Projeto do Festival e contando com a credibilidade de instituições como a UFOPA e outras Universidades Amazônicas parceiras.

Nestas audiências, sempre ficou claro que o Projeto assegurava sua execução a partir de uma coordenação colegiada regional e que havia a necessidade de uma empresa com experiência na execução de eventos desse tipo, mas que deveria estar alinhada aos propósitos iniciais do Festival. Era nesse contexto que a empresa Krioca Comunicações se apresentava como a produtora do evento, em articulação com outras instituições locais. No entanto, já durante os preparativos do Festival, havia muitos conflitos entre os movimentos locais e a referida empresa, que no meio do caminho já não aceitava a gestão compartilhada do Festival, centralizando decisões, pautando temas verticalmente e excluindo diversos grupos locais que haviam sonhado e colaborado desde o início da proposta do evento.

Os fatos foram expostos na Audiência Pública de Avaliação do FCAC, ocorrida em dezembro de 2019, em Alter do Chão, onde vários participantes relataram o perfil excludente da empresa produtora, o que tornou a participação dos movimentos sociais e culturais no projeto cada vez menor e menos decisiva, fato este oficializado em relatório às instituições envolvidas.

Tal postura se confirmou na realização da edição de 2020 do FCAC, denominada agora como Fest Alter 2020, tendo sua produção concentrada no Rio de Janeiro.

Valendo-se do cenário da pandemia da Covid-19, que entre outras coisas acarretou dificuldades de articulação dos grupos que faziam parte da rede de parceiros, a empresa decidiu ARBITRARIAMENTE, sem consultas à comunidade local, pela realização do FCAC em formato on-line. Os grupos que colaboraram na construção do projeto não foram ao menos comunicados da decisão, nem mesmo da programação, e muito menos tiveram a oportunidade de participar do evento. Os fatos deixam claro a tentativa de APROPRIAÇÃO por parte da empresa supracitada, que faz uso indevido do nome da Vila de Alter do Chão e se vale disso para divulgar o evento nacional e internacionalmente, captar recursos e mobilizar parcerias, usando sem legitimidade social e cultural, a expressão que representa para nós a AMAZÔNIA.

Considerando que o Festival de Cinema de Alter do Chão é uma proposta de coletivos da Amazônia, reagimos veementemente, pois não podemos aceitar que um bem coletivo se torne propriedade de uma empresa privada.

Ponderando que as edições de 2019 e 2020 contaram com investimentos governamentais, é necessário que se mantenha o controle social dos recursos públicos aplicados no projeto perante a comunidade local e uma transparente e ampla prestação de contas à comunidade. 0 6

Avaliando também a importância do Festival, seja pelos esforços empreendidos por todos antes e durante a realização da sua primeira edição, seja pelos resultados positivos alcançados e seu grande potencial, pelos importantes investimentos públicos já realizados, que os governos federal, estadual e municipal, continuem a apostar nesta proposta. No entanto, que este apoio esteja validado pelos atores representativos dos territórios envolvidos e que tenhamos um processo metodológico de afirmação de nossa identidade amazônica e desconstrução de estereótipos típicos do COLONIALISMO CULTURAL de que a nossa sociedade não possui suficiente autonomia sobre seu patrimônio natural, material e imaterial.

Do histórico do Festival de Cinema de Alter do Chão

2017

Articulações e debates com organizações sociais, grupos culturais e instituições governamentais, como a Universidade Federal do Oeste do Pará sobre a proposta de um Festival de caráter cultural de ampla repercussão para movimentar o desenvolvimento socioeconômico da região por meio da cultura.

A partir da iniciativa de Airton Faleiro, Deputado Federal (então Deputado Estadual), se apresentou o projeto inicial a parceiros como o projeto Luzes do Tapajós, hoje Luz e Ação na Amazônia, da UFOPA, o Projeto Saúde e Alegria, o Instituto Sebastião Tapajós (IST) e a artistas de relevância da região.

Havendo necessidade de uma empresa produtora que organizasse o evento, através de diálogos sobre as demandas para um grande festival na área do cinema, foi firmada parceria com a Krioca Comunicações, do Rio de Janeiro, cujo diretor na época encontrava-se na Vila de Alter de Chão.

2018

Oficinas e debates sobre a produção audiovisual na Amazônia foram organizados pelo Projeto de Extensão Luzes do Tapajós (UFOPA) em Santarém, e com apoio de outros parceiros como a UNIFESSPA (Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará) na cidade de Marabá, e da UFPA (Universidade Federal do Pará) em Altamira e posteriormente a UFAM (Universidade Federal do Amazonas).  

2019

Em março de 2019, foi realizado o Seminário do Festival de Cinema de Alter do Chão, com a participação de diversos desses grupos e a parceria de diversas organizações. O Seminário definiu, por meio de uma Agenda de Compromissos os objetivos estratégicos do festival, no qual, se destacavam o necessário protagonismo dos atores locais.

Por fim, em outubro de 2019, foi realizado o Festival, um grande evento, com utilização majoritariamente de verba pública (Emendas Parlamentares dos Deputados (as) Estaduais: Dirceu Ten Caten, Marinor Brito, Ozório Juvenil e Dra. Heloísa Melo e patrocínio de um Banco Público - Banpará), apoio do Governo Municipal, Estadual, UFOPA (Universidade Federal do Oeste do Pará) e muitos outros parceiros que vinham sendo envolvidos no projeto desde 2017.

Em agosto de 2019, como iniciativa dos Movimentos Culturais da Região junto ao Deputado Federal Airton Faleiro, foi realizado em Brasília, o Lançamento Nacional do Festival de Cinema de Alter do Chão na Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados, juntamente com a mobilização de organizações culturais de toda a região, cujos representantes foram à capital na denominada Caravana da Cultura para participar da Sessão Solene em Homenagem às Manifestações Culturais do Oeste do Pará, no Plenário da Câmara.

No mês de dezembro de 2019, em Alter do Chão, aconteceu a Audiência Pública de Avaliação do Festival, onde embora o balanço positivo, destacaram-se os aspectos acima mencionados, de baixa participação dos movimentos locais na gestão do evento.

Por este histórico, destacamos que se torna inaceitável a APROPRIAÇÃO do nome e do capital sociocultural acumulado pelo projeto por quaisquer empresas ou pessoas, reforçando o diálogo aberto e transparente com a comunidade e rede de parceiros, e com o verdadeiro detentor do Festival de Cinema de Alter do Chão, o MOVIMENTO CULTURAL DE SANTARÉM, DE ALTER DO CHÃO E REGIÃO.

Não são poucos os ciclos pelos quais, nós das comunidades amazônidas, passamos por processos de apropriação E colonização cultural, em que atores dizem estar nos ajudando, mas invertem-se as lógicas. Quando vemos estamos apenas sendo a alegoria de discursos e práticas que nós não mais aceitamos!

Assim exigimos das instituições e autoridades as cabíveis providências imediatas e deixamos aberta esta carta para mais apoios e assinaturas. 

ORGANIZAÇÕES QUE ASSINAM:

  1. Associação Borari de Alter do Chão
  2. ATAS - Associação de Teatro Amador de Santarém
  3. Associação de Mulheres Indígenas Suraras do Tapajós
  4. ITA – Instituto Território das Artes
  5. Projeto de Extensão Luzes do Tapajós/ Luz e Ação na Amazônia (UFOPA)
  6. SINDUFOPA – Sindicato dos Docentes da UFOPA
  7. CITA – Conselho Indígena Tapajós/Arapiuns
  8. ATUFA – Associação de Turismo Fluvial de Alter do Chão
  9. ISSEAM/UFOPA – Grupo de Pesquisa - Indigenismo, Sociedade e Educação na Amazônia
  10. Projeto Rede da Bota
  11. Projeto Arte de Beira
  12. Projeto Resiste Enem
  13. Coletivo Puraqué
  14. Movimento de Mulheres do Campo
  15. Tribo do Sol
  16. Projeto Sementes Musicais
  17. Espaço Alter do Chão
  18. Selo Alter do Som
  19. Olhar Distribuição (Curitiba)
  20. Festival das Águas (Alter do Chão)
  21. Coletivo Jovem Tapajônico 

LIDERANÇAS SOCIAIS, ARTISTAS E PRODUTORES INDEPENDENTES QUE ASSINAM:

  1. Ádria Góes – Cantora e professora
  2. Adriane Gama – Educadora e dançarina
  3. Ana Charlene – Servidora da Câmara de Vereadores
  4. Anderson Lucas da Costa Pereira – Antropólogo
  5. Andrei Moraes – Professor da UFOPA
  6. Andressa Macambira – Cinéfila de Alter do Chão
  7. Anselmo Colares – Ex-vice-reitor da UFOPA e diretor do ICED
  8. Arnaldo Faria de Deus Filho – Músico (Grupo de Carimbó Kumarú)
  9. Bianca Meirelles – Atriz e professora
  10. Cacique Dengo - Erson Correia Branco - Aldeia Karanã
  11. Cacique Maduro – Liderança indígena de Alter do Chão
  12. Carla Guimarães de Jesus – Professora do SOMEI
  13. Carlos Bandeira – antropólogo, publicitário e produtor audiovisual
  14. Cristina Caetano – Cantora e compositora
  15. Dan Selassie - Músico e produtor cultural
  16. Daniella do Vale - Cantora - Altamira
  17. Diego Alano – Antropólogo e roteirista de teatro
  18. Edilberto Ferreira - Presidente do Boto Tucuxi
  19. Fábio Pena - Comunicador e empreendedor social
  20. Gilberto César Rodrigues – ISSEAM/UFOPA
  21. Guilherme Taré - Produtor Cultural
  22. Illana Nogueira - Estudante/musicista
  23. Jecilaine Borari - Presidente da Associação Iwipurãga do Povo Borari de Alter do Chão
  24. Jhonatan Prado - produtor Cultural
  25. João Carlos Rêgo – Músico e ator 
  26. João Ricardo Bessa Freire - Pró-reitor de Extensão da UFAM
  27. José Amilton de Souza – Pró-reitor de Extensão da UNIFESSPA
  28. Josenildo Santos de Souza – Professor da UFAM
  29. Karina Barros Gonçalves- Jornalista
  30. Luana Kumaruara – Antropóloga e Ativista do Movimento Indígena
  31. Luís Alípio Gomes - ISSEAM/UFOPA
  32. Márcia Maria Pedroso Maranhão- Cantora e Professora
  33. Mário Adonis Silva – CFI/UFOPA
  34. Marlena Soares – Ativista ambiental
  35. Matheus Waimer – Ator e produtor cultural
  36. Mourrambert Flexa – Ator, produtor e turismólogo
  37. Pajé Tupaiu - Gecinei Ferreira Henrique – Povo Tupaiu
  38. Patrícia Kalil – Jornalista (Alter do Chão)
  39. Paulo Cidmil – Produtor Cultural
  40. Pedro Alcântara – Fotógrafo e Produtor Audiovisual
  41. Priscila Castro – Cantora, professora e produtora cultural
  42. Priscila Moreira – Cantora e professora
  43. Priscila Tapajowara – Produtora Audiovisual e Dançarina
  44. Raimundo Valdomiro - CFI/UFOPA
  45. Renato Bezerra - Coreógrafo- Medicilândia
  46. Sinara Almeida – Professora da UFOPA/ICED
  47. Tarcísio Ferreira – professor e coordenador do Coletivo Puraqué.
  48. Tarsilla Alves - Produtora cultural cineasta
  49. Valdilene Araújo da Trindade - Produtora Cultural
  50. Vanessa Campos – Publicitária
  51. Érika Bauer - professora da UNB
  52. Roberto Largman Borovik - produtor cultural (Alter do Som)

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O BOTO é o jornal comunitário de Alter do Chão, em Santarém/PA, e região. Os repórteres, fotógrafos e colunistas são moradores. Os assuntos são escolhidos pelos próprios colaboradores.

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