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Biodiversidade Improdutiva? Só que no “dos outros”…

Biodiversidade Improdutiva? Só que no “dos outros”…
Por Caetano Scannavino, via Medium 

Quanto mais se tem, menos se dá valor. Quanto mais se vê, menos se enxerga.

É o nosso caso, nação premiada com os maiores ativos naturais do Planeta, também entre as campeãs em desmatamento, contaminação dos rios, expropriação de saberes tradicionais, um país em que genocídios e etnocídios são rotinas, recordista em matança de indígenas e ativistas socioambientais.

Seguimos perdendo vida, e vidas…

Ou se é pra falar em economês, seguimos perdendo dinheiro, muito dinheiro, oportunidades de crescer, enriquecer, como país, sociedade, onde todos ganham, ao contrário daqueles alguns poucos que se apropriam do que é de todos.

E assim será enquanto continuarmos olhando para nossa mega biodiversidade como um ônus improdutivo ao invés de um bônus trilhardário nas mãos.

Meio ambiente é cada vez mais economia e desenvolvimento. Sem floresta não tem chuva, sem chuva não tem agricultura, do norte ao sul.

Só no Brasil, com a proteção dos territórios indígenas, estudo da WRI aponta que em duas décadas seria possível evitar 31,76 toneladas/ano de carbono — o equivalente a retirar de circulação mais de 6,7 milhões de automóveis por ano. Se fosse botar valor, seria uma rentabilidade entre US$ 523 bilhões e US$ 1,165 trilhão, levando-se em conta os benefícios globais do carbono e a conservação do ecossistema, como água limpa, solo, polinização, biodiversidade e controle de inundações.

O que não é justo é um bioma como a Amazônia gerar benefícios globais, mas os custos de sua conservação permanecerem locais.

Portanto, o verdadeiro debate não é o embate raso desenvolvimento vs meio ambiente, mas sim qual modelo empreender. Sucatear nossa Ciência e Tecnologia é questão de escolha, assim como ministros Aldos Rebelos ou Gilbertos Kassabs da vida para liderar o setor.

Estes jamais conseguiriam pensar fora da caixa do agronegócio ou em modelos mais condizentes com as vocações naturais existentes. Por exemplo, no caso da Amazônia e suas tantas universidades que formam gente pra ir embora, não seria proibitivo vislumbrar polos estratégicos na região com plantas industriais de baixo carbono, focadas em inovação, pesquisa, tecnologia, biotecnologia, processamento de produtos florestais…

O agronegócio tem sua importancia, mas restringir visão de desenvolvimento à soja, boi e outras commodities é apequenar, é ter medo de liderar o futuro, é querer ser pautado ao invés de pautar. É amarelar em tempos que riquezas estratégicas mudam de cor — do ouro negro do petróleo pro ouro verde da floresta em pé.

Aliás, nem o ouro é tão precioso assim se comparado a ativos da nossa biodiversidade. Por exemplo, uma grama de veneno de ESCORPIÃO AMARELO chega a custar R$ 355 MIL, mais de 2.000 vezes o valor de 1 g desse metal (em torno de R$ 150), também amarelo, ainda usado para lastrear riquezas.

Uma grama de veneno da JARARACA custa R$ 15 mil; de URUTU, R$ 55 mil. Três gramas, 1g de cada um desses animais do nosso Brasil custam a bagatela de R$ 424.690,00, quase meio milhão de reais. É o valor do carrinho de compras no site de vendas da Sigma-Aldrich — empresa americana de componentes químicos e técnicas de laboratório, adquirida em 2015 por US$ 17 Bilhões pela alemã MERCK.

Venda de substancias é apenas um dos nichos em que se vê gente se dando muito bem. Ainda sobre o veneno da nossa jararaca, surgiram medicamentos que movimentam cerca de U$ 8 BILHÕES/ano. Detalhe: quem desenvolveu e patenteou foram os EUA, apesar da pesquisa inicial ser brasileira.

Negócio da China, mas que poderia ser muito mais por aqui, com tantos tipos de espécies, animais, vegetais…

Num outro caso, a Universidade Federal do Amazonas (UFAM) teve que deixar estudo sobre as propriedades anestésicas do jambu porque uma patente americana impedia os pesquisadores de lançar no mercado uma pomada bucal de uso odontológico. Detalhe: Essa planta não existe por lá, mesmo assim são 15 patentes dos EUA e 34 da Europa.

Só que o conhecimento do seu uso pra fins anestésicos vem desde sempre dos povos tradicionais, que já manipulavam o jambu pra aliviar a dor de dente muito antes da academia ou das patentes.

Nem só saberes indígenas estão sendo apropriados por terceiros, sem receberem nada em troca. O que dizer do tráfico de sangue de índios isolados?

caso dos Yanomami é emblemático, com a coleta de amostras sem eles saberem para pesquisas genéticas nos EUA. Foram devolvidas somente em 2015, 40 anos depois. Sangue de povos com pouco contato pode servir de base para estudos sobre novas arboviroses, sistemas imunológicos, mais patentes, quem sabe até armas biológicas.

O mais fácil é lamentar e continuar botando toda culpa nos estrangeiros, mas somos nós que estamos deixando isso acontecer. Difícil avançar em meio a condições muito aquém do potencial existente para que possamos desenvolver produtos a partir do conhecimento produzido pelos próprios brasileiros.

Nem é o caso de barrar o acesso dos laboratórios às nossas riquezas brasileiras, mas clarear as regras para que se compense o país (e quando for o caso, os povos indígenas), para que se transfira conhecimento técnico para nossos pesquisadores, para que se estabeleça mecanismos justos e rentáveis de modo a proteger e manejar adequadamente todos esses ativos e saberes a serviço da humanidade.

Só que…

Por pressão dos ruralistas, além do nosso Congresso não avançar como deveria na nova Lei da Biodiversidade de 2015, o Brasil até agora não ratificou o Protocolo de Nagoya, acordo internacional suplementar à Convenção da Diversidade Biológica (CDB) assinada na Rio-92.

Em vigor desde 2014, o Protocolo regulamenta o acesso aos recursos genéticos, aos conhecimentos tradicionais associados e dispõe sobre a repartição justa e equitativa dos benefícios oriundos de sua utilização — um marco histórico para as nações detentoras no reconhecimento dos direitos de soberania sobre sua biodiversidade.

Isso no país que detém a maior parte da Amazonia, onde a ciência vem descobrindo nos últimos anos uma nova espécie a cada 2 dias. Mais se desconhece do que conhece, sua biodiversidade, os usos, eventuais curas de doenças até então sem cura…

Faz sentido quando dizem que desmatar uma floresta primária é como deletar um HD sem saber o que tem dentro…

Triste um Brasil antes de pau-brasil, espécie hoje também vitima do Ctrl+Alt+Del. Uma nação em que ORDEM é desaparecer com ativistas que questionam o óbvio, e PROGRESSO é derrubar floresta.

Derrubar pra criar gado, mesmo com tanta terra por aí… Pra arrancar madeira, onde o legal é o ilegal como direito ao crime adquirido… Pra plantar a soja que alimenta porco na China… Pra garimpar vazando mercúrio nas águas enquanto 90% do ouro vaza pelo mercado negro… Pra minerar pra exportar alumínio e importar bicicleta de alumínio…

#VanguardaDoAtraso

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