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ATL2019 Em Brasília, assembleia indígena reúne povos de todo o país

ATL2019 Em Brasília, assembleia indígena reúne povos de todo o país

Por Suraras do Tapajós

Na última semana de abril, há 15 anos, povos indígenas espalhados de norte a sul do país se reúnem em uma grande conferência nacional, considerada já o maior encontro indígena do mundo. Nessa grande assembleia chamada Acampamento Terra Livre (ATL), lideranças de mais de 305 povos e convidados indígenas estrangeiros trocam experiências, discutem os desafios da conjuntura atual e mobilizam-se em atos públicos para chamar atenção de todos sobre o que está acontecendo. Este ano, já com 4 meses de acelerado desmonte da política indigenista do país e retrocessos ambientais sem precedentes, os indígenas traziam agenda em defesa da Constituição Brasileira, dos direitos indígenas, dos direitos ambientais e de todo cidadão brasileiro.

“Sangue indígena, nenhuma gota a mais”


Foto de Marco Antônio Corrêa Mota

O local escolhido para sediar o evento no Brasil não é em nenhuma aldeia distante, mas sim Brasília. Afinal, a capital federal é centralizada e o melhor local para reunir pouco mais de 3 mil lideranças.

"Nosso acampamento vem acontecendo há mais de 15 anos sempre em caráter pacífico buscando dar visibilidade para nossas lutas cotidianas, sempre invisibilizado pelos poderosos",

nota oficial da APIB - Articulação dos Povos Indígenas do Brasil ao governo.


Povo Pataxó - Foto de Marco Antônio Corrêa Mota

A nota da APIB foi direcionada ao governo porque, uma semana antes do evento, Bolsonaro mandou a Força Nacional ocupar as ruas de Brasília. De forma ameaçadora, também questionou a legitimidade de um nacional de todos os povos indígenas e inventou que a conferência é realizada com dinheiro público (o que foi rapidamente desmentido).

“Se a demarcação das nossas terras ficar no Ministério da Agricultura, nós nunca teremos nossos direitos”

Otacir Terena, representante da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib).


Foto Marco Antônio Corrêa Mota

Audiência Pública

Não podemos permitir que a Funai permaneça sob o comando de ruralistas"

Dinamam Tuxá, coordenador executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib).

No segundo dia de acampamento, em sessão especial no Senado, povos indígenas protestaram contra a MP 870/19, medida de Bolsonaro no primeiro dia de governo de desmonte de mais de 30 anos de política indigenista no país:

  • transferiu a FUNAI para o Ministério da Mulher;
  • entregou da demarcação indígena e licenciamento ambiental para o Ministério da Agricultura sob comando de ruralistas.

Além do início de duas outras medidas com consequências catastróficas:

  • liberação de porte de armas no campo frente a intensificação de conflitos territoriais;
  • negociação com mineradoras estrangeiras para exploração em terras indígenas.

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  • Raquel Tupinambá

  • Adelina Borari

  • Cacique Raoni eSuraras do Tapajós

Os povos indígenas exigiram participação e escuta sobre as leis em tramitação na câmara que afetam os seus direitos. Rodrigo Maia, presidente da Câmara, em tom de compromisso, garantiu que haverá consultas sobre pautas no Congresso ligadas aos direitos indígenas.

Nesta semana já foram mais de 2 mil cópias de documentos sobre as violações aos direitos dos povos indígenas durante a ditadura para as mãos do Ministério da Agricultura. Podem estar encobrindo crimes que eles [ruralistas] causaram no passado”

Kretã Kaingang, da Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul (Arpinsul).


Foto de Alessandra Korap Munduruku

Outros encontros

O coletivo Suraras do Tapajós, junto com Engajamundo, também se encontrou com representantes Nilto Tatto e Joênia para discutir o avanço do agronegócio, mineração e hidrelétricas que ameaçam terras indígenas e os rios da região.


Foto de Raquel Tupi

Os povos do baixo Tapajós estavam no encontro, em defesa da lei maior nacional, dos direitos constitucionais indígenas, do acordo internacional por consulta e da necessidade de canal de diálogo com o governo.


Suraras do Tapajós, ao lado das lideranças do Baixo Tapajós, em reunião em Brasília

No segundo dia do encontro, as Suraras também se encontraram com Rodrigo Agostinho (presidente da Comissão de Meio Ambiente) e os deputados Sâmia Bomfim e Alessandro Molon.

O professor e ex-candidato à Presidência Fernando Haddad também esteve presente no encontro, para dar apoio aos indígenas em sua luta. Apesar do passado condenável do PT em Belo Monte, megaobra feita a custas de vidas e desrespeito aos povos indígenas, Haddad participou de reuniões e teve presença marcada em diversas atividades do Acampamento. Outros políticos também estiveram presentes em apoio aos indígenas.


Raquel Tupinambá em mesa com Fernando Haddad - Foto de Milena Raquel Tupi

A Esplanada tomada: indígenas ocupam as seis faixas do Eixo Monumental

Leia também:

Documento Final do XV Acampamento Terra Livre - APIB, 26/04/2019

RESISTIMOS HÁ 519 ANOS E CONTINUAREMOS RESISTINDO

Nós, mais de 4 mil lideranças de povos e organizações indígenas de todas as regiões do Brasil, representantes de 305 povos, reunidos em Brasília (DF), no período de 24 a 26 de abril de 2019, durante o XV Acampamento Terra Livre (ATL), indignados pela política de terra arrasada do governo Bolsonaro e de outros órgãos do Estado contra os nossos direitos, viemos de público manifestar:

  • O nosso veemente repúdio aos propósitos governamentais de nos exterminar, como fizeram com os nossos ancestrais no período da invasão colonial, durante a ditadura militar e até em tempos mais recentes, tudo para renunciarmos ao nosso direito mais sagrado: o direito originário às terras, aos territórios e bens naturais que preservamos há milhares de anos e que constituem o alicerce da nossa existência, da nossa identidade e dos nossos modos de vida.
  • A Constituição Federal de 1988 consagrou a natureza pluriétnica do Estado brasileiro. No entanto, vivemos o cenário mais grave de ataques aos nossos direitos desde a redemocratização do país. O governo Bolsonaro decidiu pela falência da política indigenista, mediante o desmonte deliberado e a instrumentalização política das instituições e das ações que o Poder Público tem o dever de garantir.
  • Além dos ataques às nossas vidas, culturas e territórios, repudiamos os ataques orquestrados pela Frente Parlamentar Agropecuária contra a Mãe Natureza. A bancada ruralista está acelerando a discussão da Lei Geral do Licenciamento Ambiental em conluio com os ministérios do Meio Ambiente, Infraestrutura e Agricultura. O projeto busca isentar atividades impactantes de licenciamento e estabelece em uma única etapa as três fases de licenciamento, alterando profundamente o processo de emissão dessas autorizações em todo o país, o que impactará fortemente as Terras Indígenas e seus entornos.
  • O projeto econômico do governo Bolsonaro responde a poderosos interesses financeiros, de corporações empresariais, muitas delas internacionais, do agronegócio e da mineração, dentre outras. Por isso, é um governo fortemente entreguista, antinacional, predador, etnocida, genocida e ecocida.
  • Diante do cenário sombrio, de morte, que enfrentamos, nós, participantes do XV Acampamento Terra Livre, exigimos, das diferentes instâncias dos Três Poderes do Estado brasileiro, o atendimento
    às seguintes reivindicações
    :

  • Demarcação de todas as terras indígenas, bens da União, conforme determina a Constituição brasileira e estabelece o Decreto 1775/96. A demarcação dos nossos territórios é fundamental para garantir a reprodução física e cultural dos nossos povos, ao mesmo tempo que é estratégica para a conservação do meio ambiente e da biodiversidade e a superação da crise climática. Ações emergenciais e estruturantes, por parte dos órgãos públicos responsáveis, com o propósito de conter e eliminar a onda crescente de invasões, loteamentos, desmatamentos, arrendamentos e violências, práticas ilegais e criminosas que configuram uma nova fase de esbulho das nossas terras, que atentam contra o nosso direito de usufruto exclusivo.
  • Exigimos e esperamos que o Congresso Nacional faça mudanças na MP 870/19 para retirar as competências de demarcação das terras indígenas e de licenciamento ambiental do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e que essas competências sejam devolvidas ao Ministério da Justiça (MJ) e à Fundação Nacional do Índio (Funai). Que a Funai e todas as suas atribuições sejam vinculadas ao Ministério da Justiça, com a dotação orçamentária e corpo de servidores necessários para o cumprimento de sua missão institucional de demarcar e proteger as terras indígenas e assegurar a promoção dos nossos direitos.
  • Que o direito de decisão dos povos isolados de se manterem nessa condição seja respeitado. Que as condições para tanto sejam garantidas pelo Estado brasileiro com o reforço das condições operacionais e ações de proteção aos territórios ocupados por povos isolados e de recente contato.
  • Revogação do Parecer 001/2017 da Advocacia Geral da União (AGU).
  • Manutenção do Subsistema de Saúde Indígena do SUS, que é de responsabilidade federal, com o fortalecimento da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), a garantia da participação e do controle social efetivo e autônomo dos nossos povos e as condições necessárias para realização da VI Conferência Nacional de Saúde Indígena. Reiteramos a nossa posição contrária a quaisquer tentativas de municipalizar ou estadualizar o atendimento à saúde dos nossos povos.
  • Efetivação da política de educação escolar indígena diferenciada e com qualidade, assegurando a implementação das 25 propostas da segunda Conferência Nacional e dos
    territórios etnoeducacionais. Recompor as condições e espaços institucionais, a exemplo da Coordenação Geral de Educação Escolar Indígena, na estrutura administrativa do Ministério da Educação para assegurar a nossa incidência na formulação da política de educação escolar indígena e no atendimento das nossas demandas que envolvem, por exemplo, a melhoria da infraestrutura das escolas indígenas, a formação e contratação dos professores indígenas, a elaboração de material didático diferenciado.
  • Implementação da Política Nacional de Gestão Territorial Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI) e outros programas sociais voltados a garantir a nossa soberania alimentar, os nossos múltiplos modos de produção e o nosso Bem Viver.
  • Restituição e funcionamento regular do Conselho Nacional de Política Indigenista (CNPI) e demais espaços de participação indígena, extintos juntamente com outras instâncias de participação popular e controle social, pelo Decreto 9.759/19. O CNPI é uma conquista nossa como espaço democrático de interlocução, articulação, formulação e monitoramento das políticas públicas específicas e diferenciadas, destinadas a atender os direitos e aspirações dos nossos povos.
  • Fim da violência, da criminalização e discriminação contra os nossos povos e lideranças, praticadas inclusive por agentes públicos, assegurando a punição dos responsáveis, a reparação dos danos causados e comprometimento das instâncias de governo na proteção das nossas vidas.
  • Arquivamento de todas as iniciativas legislativas anti-indígenas, tais como a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 215/00 e os Projetos de Lei (PL) 1610/96, PL 6818/13 e PL 490/17, voltadas a suprimir os nossos direitos fundamentais: o nosso direito à diferença, aos nossos usos, costumes, línguas, crenças e tradições, o direito originário e o usufruto exclusivo às terras que tradicionalmente ocupamos.
  • Aplicabilidade dos tratados internacionais assinados pelo Brasil, que inclui, entre outros, a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), as Convenções de Diversidade Cultural, Biológica e do Clima, a Declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas e a Declaração Americana dos Direitos dos Povos Indígenas. Tratados esses que reafirmam os nossos direitos à terra, aos territórios e aos bens naturais e a obrigação do Estado de nos consultar a respeito de medidas administrativas e legislativas que possam nos afetar, tal como a implantação de empreendimentos que impactam as nossas vidas.
  • Cumprimento, pelo Estado brasileiro, das recomendações da Relatoria Especial da ONU para os povos indígenas e das recomendações da ONU enviadas ao Brasil por ocasião da Revisão Periódica Universal (RPU), todas voltadas a evitar retrocessos e para garantir a defesa e promoção dos direitos dos povos indígenas do Brasil.
  • Ao Supremo Tribunal Federal (STF), reivindicamos não permitir e legitimar nenhuma reinterpretação retrógrada e restritiva do direito originário às nossas terras tradicionais. Esperamos que, no julgamento do Recurso Extraordinário 1.017.365, relacionado ao caso da Terra Indígena Ibirama Laklanõ, do povo Xokleng, considerado de Repercussão Geral, o STF reafirme a interpretação da Constituição brasileira de acordo com a tese do Indigenato (Direito Originário) e que exclua, em definitivo, qualquer possibilidade de acolhida da tese do Fato Indígena (Marco Temporal).
  • Realizamos este XV Acampamento Terra Livre para dizer ao Brasil e ao mundo que estamos vivos e que continuaremos em luta em âmbito local, regional, nacional e internacional. Nesse sentido, destacamos a realização da Marcha das Mulheres Indígenas, em agosto, com o tema "Território: nosso corpo, nosso espírito".

    Reafirmamos o nosso compromisso de fortalecer as alianças com todos os setores da sociedade, do campo e da cidade, que também têm sido atacados em seus direitos e formas de existência no Brasil e no mundo.

    Seguiremos dando a nossa contribuição na construção de uma sociedade realmente democrática, plural, justa e solidária, por um Estado pluricultural e multiétnico de fato e de direito, por um ambiente equilibrado para nós e para toda a sociedade brasileira, pelo Bem Viver das nossas atuais e futuras gerações, da Mãe Natureza e da Humanidade. Resistiremos, custe o que custar!

    XV ACAMPAMENTO TERRA LIVRE
    ARTICULAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS DO BRASIL (APIB)
    MOBILIZAÇÃO NACIONAL INDÍGENA (MNI)

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