No Abril indígena, entre os dias 5 a 30 de abril, acontece a maior mobilização de luta dos povos indígenas do Brasil, o "Acampamento Terra Livre(ATL)", evento que reúne lideranças indígenas de todo o país, que organizam estratégias de denúncia e responsabilização das violências cometidas contra seus direitos pelo Estado brasileiro. Na edição de 2021, em decorrência da pandemia do COVID-19, o evento acontece em formato online e trouxe como tema "Nossa luta é pela vida, não é apenas um vírus". O ATL 2021, também ocorreu em outras regiões do Brasil, em destaque, na região do Baixo-Tapajós, no Oeste do Pará, uma mobilização local que contou com a participação de homens, mulheres, jovens e anciões, representantes dos povos Arapium, Apiaká, Arara Vermelha, Borari, Jaraqui, Kumaruara, Maytapu, Munduruku, Munduruku Cara Preta, Tapajó, Tapuia, Tupayú e Tupinambá.
Baixo-Tapajós
Com o tema " A pandemia vai passar, mas a boiada aqui não passa", o Baixo-Tapajós organizou atividades online e levou uma delegação de lideranças rumo a Brasília que denunciaram a tramitação do Projeto de Lei 191/2021, que permite a exploração de minério em terras indígenas; e a visita do Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, na região da Cachoeira do Aruã, Rio Arapiuns, Município de Santarém, Oeste do Pará, para favorecer madeireiros e ainda de integrar uma organização criminosa envolvida num esquema de receptação e crimes ambientais.
Na região Arapiuns, a Polícia Federal (PF) realizou a maior apreensão de madeira na história do Brasil: mais de 200 mil m³ de madeira , equivalente a 65 mil árvores derrubadas. O delegado da PF, Alexandre Saraiva encaminhou ao Supremo Tribunal Federal uma notícia-crime contra o Ricardo Salles por atrapalhar o trabalho da PF e por promover a defesa de infratores ambientais.
Região do Baixo Tapajós é conhecida pelo protagonismo e articulação das mulheres indígenas que estão a frente das lutas e levam a voz do Tapajós. Em destaque, Auricélia Arapium, do povo Arapium, é liderança indígena e Coordenadora do Conselho Indígena Tapajós-Arapiuns (CITA).
Auricélia Arapium, Imagem: Reprodução/Instagram
"Queria saber se o Presidente da Funai, delegado Xavier, se Ele tem coragem de vender a mãe dele? Porque nós Povos indígenas não vendemos nossa Mãe Terra!", Auricélia Arapium.
Para a coordenadora do CITA, a presença do Baixo-Tapajós no ATL é muito importante, "porque viemos mostrar a resistência dos povos do Tapajós, trazer nossas reivendicações e indignação frente todas as ameaças que o Governo Federal e outros setores do governo tem interesse dentro de nossos territórios para levar a mineração, expandir o agronegócio dentro de nossos territórios, legalizar a madeireira dentro da região do Arapiuns, das madeiras que foram apreendidas. E dizer não a mineração, não ao desmatamento, não ao Bolsonaro, não à Salles".
Imagem: Esplanada do Ministério, Brasília 2021.
Auricélia destaca que a atuação da mulheres nesse movimento de luta é muito importante porque são guerreiras que inclusive a delegação do Baixo-Tapajós na maioria são mulheres, são guerreiras de berço. E as mulheres tem o dever muito importante de defender a Mãe, de defender os filhos. E isso nós herdamos da Mãe Terra.
A gente luta pela terra porque ela é nossa Mãe. Assim como nós lutaríamos para defender nossos filhos, nós lutamos para defender nossa mãe, pra defender Ela. É uma troca. Ela nos defende. Ela nos alimenta, damos e retornamos à Ela dessa forma, de lutar pela vida".
No Abril indígena, em que os povos do Brasil se mobilizam para denunciar as violações de seus direitos, a estudante de Direito deixa sua mensagem para o mundo:
"Como diz uma de nossas frases a Mãe do Brasil é indígena. Então, não adianta a mãe do Brasil ser indígena, se o próprio Brasil está matando sua mãe com todos esses projetos de morte. Matar a floresta, matar o rio é matar a vida, é matar as pessoas, e quero dizer para que agente continue na resistência, continue vigilante, não tenhamos medo doque vai vir pela frente, do que está posto aí, seguiremos lutando e defendendo o que é nosso".
*Vandria Borari, Ceramista, Bacharel em Direito e Comunicadora indígena.