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A falta de informação pode ser mais nociva do que a própria doença

A falta de informação pode ser mais nociva do que a própria doença

A disponibilização dos dados de forma aberta e transparente é crucial para o enfrentamento da pandemia, tanto para gerenciar os efeitos imediatos, como para medir os impactos sociais e econômicos futuros.

Durante os últimos meses nós estamos acompanhando os boletins diários que a prefeitura municipal, o Estado e a União publicam sobre pessoas contaminadas pelo covid 19. Os dados nos permitem saber qual a prospecção de uma “volta a vida normal”, sobre os avanços da pandemia na região e principalmente quais são as necessidades do povo.

No auge da pandemia no Brasil, hoje acumulando mais de 45.000 mortos, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) decidiu que apagaria das plataformas informações do boletim epideomológico diário e, sem as notificações oficiais, os números sobre o novo coronavírus em território brasileiro simplesmente desaparecem. Será que esconder quantas pessoas morrem resolve o problema? Não, mas tira das costas do governo federal a responsabilidade sobre a vida do povo.

Essa falta de transparência também está sendo uma justificativa para o prefeito de Santarém, Nélio Aguiar (DEM), reabrir o comércio e continuar a vida como se nada estivesse acontecendo.  Segundo o próprio prefeito em vídeo divulgado em redes sociais, baseando-se no estudo de um engenheiro chamado Henrique Brito, seu filho, na cidade a taxa de contágio já esta abaixo de 1,0. Exceto na região oeste de Santarém, que significa justamente a região dos rios. A região que acolhe aldeias indígenas, comunidades agroextrativistas, ribeirinhas e que não contam com hospitais de campanha, não contam com respiradores, nem sequer com médicos, agentes de saúde, e ambulanchas prontas e abastecidas para possíveis emergências. Nesse mesmo vídeo ele diz que “providências estão sendo tomadas”, mas não nos comunica quais são elas.

Contrapondo essa informação, no dia 11 de junho, a Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) lançou um estudo realizado pelo reitor Dr. Hugo Alex Diniz que estima que até o final do mês de junho teremos mais de 9.000 testes positivos e 400 mortes decorrentes de covid19, demonstrando assim que ainda não alcançamos o pico da doença, que esse poderá ocorrer entre os dias 17 e 26 de junho. Ou seja, as pessoas que poderão sentir sintomas da doença e consequentemente precisar do sistema de saúde estão se contaminando na semana que passou, justo quando o prefeito decidiu reabrir a cidade e discutir sobre a festa do Çairé em Alter do Chão.

Por falar em Alter do Chão, nos últimos dias 11 e 12 de junho a prefeitura realizou na vila balneária, uma campanha para atender pessoas com síndromes gripais. Segundo o prefeito, mais de 300 pessoas foram atendidas e nenhuma delas foi testada para o novo coronavírus, o que faz inclusive a ação perder o sentido. Se não testamos a população, não sabemos qual a quantidade real de pessoas infectadas. Não sabemos qual a demanda do sistema de saúde, não entendemos qual a necessidade de cada localidade em questões como suprimentos que vão de alimentos, medicamentos, até energia elétrica e internet.

Segundo dados disponibilizados pelo boletim diário da prefeitura, desde sexta feira dia 12/06, temos registrados 153 óbitos. Mesmo com informações que um capitão da PM infelizmente veio a falecer na madrugada dessa segunda feira dia 15 de covid 19, e a Sinprosan (Sindicato dos Profissionais da Educação de Santarém)ter lançado uma nota de pesar e solidariedade a família de uma professora que também perdeu um ente querido pela doença.

Torna-se fundamental saber os dados do avanço da pandemia nas comunidades para sabermos quantas pessoas podem precisar de socorro médico hospitalar. Precisamos saber quais as medidas sanitárias estão sendo tomadas, quais as condições do nosso sistema de saúde, quantos leitos temos disponíveis, quantos respiradores de terapia intensiva e qual a situação das equipes de trabalhadores e trabalhadoras de saúde. Os dados revelam o que a sociedade e as economias precisam. Trata-se de uma ferramenta básica para gerenciar os recursos e pensar em estratégias para as regiões mais afetadas. Trata se principalmente de salvar a vida das pessoas. A falta de informação pode ser mais nociva do que a própria doença.

O BOTO - Alter do Chão
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