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A Árvore de Todos os Frutos

A Árvore de Todos os Frutos

Aproxima-se o Dia da Árvore. E nós, às voltas com tantos incêndios de proporções quase incontroláveis corroendo diversas regiões da Amazônia. Não se trata de julgar os procedimentos de queima tradicionalmente utilizados para a abertura de roças: precisamos ser realistas e encarar que algo muito mais dramático está acontecendo. Há muita gente sentindo-se autorizada a desmentir esforços coletivos de produção de conhecimentos, sejam estes conhecimentos acadêmicos, sejam eles sob a forma de políticas públicas, ou até mesmo sob a forma dessa grande floresta tão rica também pelas incontáveis mãos humanas que dela cuidam há tanto tempo. Entre nós, não há unanimidade, às vezes até sucumbimos por alguns momentos à intolerância: só não podemos abandonar a alegria e o tal apreço pela diversidade, que há de sempre fazer com que nossa história tenha um desfecho surpreendente.

Lembramos de uma narrativa mítica indígena, comum na fronteira do Brasil com a Venezuela. Trata-se da Árvore de Todos os Frutos, que por vezes recebem o nome de Wazaka, por outras de Caliebirri-Nae. Essa árvore não era conhecida de todos: ela ficava em algum lugar distante na floresta, até um dia ter sido encontrada por Mucura.

Mucura, muita esperta para subir em árvores, achou muito lindo tantos frutos diferentes ali pendurados. Tinha de tudo mesmo: caju, cupuaçu, goiaba, pupunha, biribá, graviola, laranja, até mesmo melancia, abacaxi, camu-camu… Todos, todos os frutos. Tão maduros, coloridos e cheirosos. Irresistíveis. E Mucura subiu na árvore e começou a comê-los todos.

Quando já estava com sua pancinha cheia, ela voltou para sua aldeia. Talvez vocês saibam, no tempo em que essa história aconteceu, todos viviam juntos numa mesma aldeia: Mucura, Tamanduá, Paca, Tatu, todo mundo. E foi a sensação para todas essas gentes a chegada daquela Mucura, que antes tinha um fedorzinho para lá de desagradável, estar tão cheirosa, com cheiro de tudo quanto era fruta.

- Mucura, conta pra gente, como é que você está tão cheirosa e gordinha? Tu estás tão bonita!!

Mucura não queria nem saber dos elogios. Ela já estava cansada de ser espizinhada por conta do seu cheirinho natural. E ficava só desfilando pela aldeia, sem contar para ninguém o seu segredo.

As outras pessoas-animais começaram a ficar injuriadas com o comportamento da Mucura, e resolveram bolar um plano: alguém teria que segui-la para descobrir, afinal, o que estava acontecendo. E o escolhido foi Anta. Mas Anta não dava conta de acompanhar Mucura correndo pela floresta, pois a esperta Mucura ia apagando seus caminhos, fazendo mil voltas para despistar quem a seguia.

Então, resolveram que, para seguir Mucura, era preciso alguém que tivesse agilidade. Escolheram Paca, que sabia muito bem correr pela floresta até de noite, se fosse preciso. E lá foi Paca, seguindo Mucura.

Mucura tentou despistar Paca, mas Paca não saía de seu encalço. Nem mesmo na hora de cruzar o rio Orenoco, dependurada em cipós, Paca não perdeu o rastro de Mucura. Até que chegaram na maravilhosa Árvore de Todos os Frutos.

Rapidamente, Mucura subiu nos galhos da Árvore de Todos os Frutos, e começou a se deliciar com cada bacuri, cada uxi, cada sapotilha. Paca não conseguia subir na árvore, e Mucura não queria lhe jogar nenhuma frutinha. Já contrariado com a situação, Paca olhou para o chão, e reparou que, conforme Mucura ia devorando todas aquelas frutas, casquinhas e sementes iam se espalhando para todo lado. Foi catando e catando as sementes, e retornou para a aldeia.

Na aldeia, Paca mostrou para todos o segredo de Mucura: os frutos vinham de uma Grande Árvore, localizada do outro lado do rio Orenoco. Mucura, chateadíssima com a revelação de seu segredo, pegou um tição em brasa e pôs-se a brigar com Paca, também empunhando uma arma de mesmo tipo. É como consequência dessa briga que hoje a Mucura é cega e o dorso de Paca repleto de marcas como cicatrizes dessa disputa.

Enquanto brigavam, todo mundo da aldeia dirigiu-se ao local da Árvore de Todos os Frutos indicada por Paca. Lá chegando, ficaram de queixo caído frente a tão imensa e bela árvore. Uma árvore tão alta e tão grossa que não tinham ideia de como fariam para conseguir alcançar seus frutos. Resolveram tentar cortá-la.

Assim, os animais trabalhavam o dia todo tentando derrubar a Árvore de Todos os Frutos. Ao final do dia, quando já estavam esgotados, deitavam-se para dormir. Mas, durante a noite, a Árvore de Todos os Frutos se regenerava por completo.

Já cansados de tanto trabalhar e loucos para se deliciarem com aquelas frutas, os animais resolveram, então, convocar as únicas que trabalham sem descanso, noite e dia, dia e noite: as Formigas Cortadeiras.

Uma quantidade infinita de Formigas Cortadeiras compareceu e passou a cortar o tronco da Grande Árvore. Tec Tec Tec Tec Tec Tec Tec. Elas não paravam mesmo. Até o momento em que, com um grande estrondo, a Árvore de Todos os Frutos despencou, espalhando suas frutas para tudo quanto é lado. Há quem diga que o Monte Roraima é o que sobrou de seu tronco.

Foi uma grande festa. Os animais todos ficaram muito felizes, e durante dias, meses e anos, ficaram comendo todas aquelas maravilhosas pitangas, ingás, acerolas, buritis, castanhas… E foi juntando essas tantas sementes e novamente plantando-as por onde passavam que todos os frutos espalharam-se pela Floresta Amazônica, ou mesmo até por todo nosso Planeta Terra.

Essa história trago aqui a partir de minhas memórias e da leitura do lindo livro Caliebirri-Nae Cudeido – Literatura Jivi (Guajiba), Relatada por Luis Blanco, Editorial Tinta, Papel y Vida, Venezuela, 1985. Ilustrações de Alfredo Almeida.

Agora, compartilho com todos vocês, um dos meus segredos: eu mesma nasci sob os auspícios da Árvore de Todos os Frutos.

Meu pai, o saudoso palhaço Magnólio de Oliveira, ainda em meus primeiros dias de vida, me fez um quadro e uma poesia, com o retrato dessa Grande Árvore como motivo principal.

De repente, um espaço, um branco,
A tarde calou,
O rio correu mais manso,
Deu para sentir a presença de Deus.
Os pássaros fizeram silêncio e
O vento soprou mais brando.
E às 6 horas do dia 13
O badalar da Ave Maria
Interrompeu-se por um canto:
“O Chôro de Cecília”

(e o nosso coração está cheio de amor)

Os tempos não têm facilitado sentirmos essa serenidade, também tão importante para a clareza na batalha. Que tenhamos coragem de seguir trabalhando como formigas, e lado a lado de quem é diferente de nós mesmos, mas espalhando diversidade e esbanjando alegria, na prontidão de nos enchermos de ânimo com a vida nova que está sempre brotando.

 

O BOTO - Alter do Chão
Cecília de Santarém
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Mocoronga de pai e mãe paulistas. Amante e brincante do carimbó e de outras artes. Mestranda em Antropologia Social. Assessora indigenista junto aos povos Tiriyó, Katxuyana, Wayana, Aparai, dentre outros (norte do Pará). Viva as alegrias!!

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